Léxico: «a revezes / às revezes»
21.7.26
Por vezes, não chega
«O remorso pôde mais com ela que a selvageria da sua virtude: mas ainda viveu seis anos com reveses de demência, e morreu em casa de seus irmãos em Santa Maria de Covas de Barroso, repelindo o marido desde que lhe ouvira dizer: “A rapariga faz-me falta porque não tenho quem me governe a casa”» (Contos de Camilo Castelo Branco. Selecção, prefácio e notas de Jacinto do Prado Coelho. Lisboa: Editorial Verbo, 1963, p. 88).
Cá temos um caso em que uma licenciatura em Filologia Românica pode não ser suficiente para discernir as coisas. Há-de parecer, se não se pensar muito no caso, que é mesmo «reveses», porque a demência é sempre, no mínimo, um revés. Mas o que Camilo, que também nunca dominou a ortografia, escreveu e pretendeu escrever e acertou escrevendo foi «revezes». A Porto Editora acolhe «revezes», mas apenas como elemento da locução adverbial a revezes, que diz significar «cada um por sua vez, ora um, ora outro». Na realidade, a mesmíssima locução (com a variante às revezes) também significa «de vez em quando, vez por outra; às vezes». Interpretação que é confirmada por outra frase já perto do fim: «Esta mulher tinha intermitências de loucura; mas, nos períodos de lucidez, passava mais amargurada porque chorava sempre pela filha.» É preocupante que já não tenhamos em Portugal dicionários que nos permitam ler cabalmente uma obra de finais do século XIX.
[Texto 23 315]
edit
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