Léxico: «soberano»

Porque não é o mesmo


      «O desembargador Gonçalves Penha contou dez mil cruzados em soberanos sobre a mesa onde o tabelião escrevera» (Maria Moisés, Camilo Castelo Branco. Lisboa: INCM, 2020, p. 77). Definir «soberano» como designação da libra esterlina representa apenas metade da história. A concisão é uma virtude, mas não à custa da exactidão. Este trecho de Camilo é um excelente argumento a favor de uma definição mais desenvolvida: «dez mil cruzados em soberanos» só faz pleno sentido se o leitor souber que o soberano era uma moeda de ouro, e não apenas outro nome da libra esterlina. É precisamente esse dado histórico que a definição actual da Porto Editora omite. Assim, proponho ➠ soberano moeda de ouro inglesa correspondente ao valor de uma libra esterlina; [por extensão] designação da própria libra esterlina.

[Texto 23 336]

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P. S.: Embora o soberano fosse, por excelência, a moeda de ouro correspondente ao valor de uma libra esterlina, existiram também o meio soberano (10 xelins) e, muito mais raramente, o duplo soberano (2 libras) e o quíntuplo soberano (5 libras). Os dois últimos tiveram circulação muito limitada. E não tenham pena do desembargador: os dez mil cruzados não eram dez mil soberanos. Como o pagamento era feito em moeda inglesa, o número de moedas dependia do câmbio entre o cruzado e a libra esterlina. Por volta de 1850, término da acção, dez mil cruzados corresponderiam a cerca de setecentos soberanos, um bom monte de ouro, sem dúvida, mas muito longe das dez mil moedas que uma leitura apressada pode fazer imaginar.


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