Léxico: «empranchado»

Qual prancha

      «“Tinha-o avisado que nem ele nem nenhum graduado tinham competência para aplicar castigos, mas foi em casos de empranchados [ficarem em sentido muito tempo].” O arguido era o comandante de companhia do aluno e por isso o subordinado mais direto do major Pinto Pereira» («Militar denuncia que colégio sabia dos castigos», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 12.11.2013, p. 15).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o, mas com outro sentido: «diz-se do salto em que o corpo forma uma linha recta», um termo do desporto. Num aviso de abertura de concurso para a GNR, lê-se que, numa das provas de aptidão física, «o corpo tem que estar “empranchado” sem formar ângulo entre tronco e membros».
[Texto 3506]

«Vinho alvarinho»

Pois, mas não

      «Nesse dia, entre dois copos de Alvarinho, aprendi com Álvaro Cunhal mais uma das mil e uma formas de matar o ideal comunista: o culto da personalidade» («Álvaro Cunhal a subir uma escadaria infinita», Pedro Tadeu, Diário de Notícias, 12.11.2013, p. 7).
      Talvez a brincadeira com o nome Álvaro pareça mais eficaz com o nome do vinho com maiúscula inicial, mas está, saiba Pedro Tadeu, errado. O vinho é com minúscula; a casta, com maiúscula.
      «O vinho alvarinho, branco, fresco, pouco alcoólico, leve, amável ao paladar e estimulante, é oriundo de uma casta de uvas trazidas da Grécia em tempos remotos» (Roteiro do Vinho Português, Jaime Batalha Reis. Lisboa: Secretariado Nacional da Informação, 1945, p. 62).
[Texto 3505]

Ortografia: «coladera»

Com capa, mas não escapa

      «Aos 28 anos, a cabo-verdiana faz o seu disco mais maduro. Já não são só mornas e koladeras: Mayra mostra um lado pop, íntimo, melómano e com um quente tempero de múltiplas raízes» («Um caminho percorrido», Bruno Martins, Metro, 12.11.2013, p. 10).
      Está nos dicionários com c, coladera, mas alguns jornalistas não passam sem o k. Karaças.

[Texto 3504]

«Ciclone/furacão/tufão»

Quem o afirma?

      «Depressões tropicais capazes de libertar uma energia dez vezes superior à da bomba atómica de Hiroxima. A descrição aplica-se tanto a ciclones como a furacões ou tufões. A diferença de designação é apenas geográfica. Os tufões são as depressões que atingem a Ásia, se afetarem as Caraíbas são designadas furacões e ciclones se atingirem zonas tropicais» («O mesmo fenómeno, nomes diferentes», Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 23).
      Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, não é assim; furacão é o nome dado ao tufão ou ciclone das regiões tropicais; tufão é o ciclone da região do Pacífico Ocidental e ciclone não aparece relacionado com nenhuma zona geográfica. Não sei, mas nestes casos prefiro confiar no que se lê no glossário do National Hurricane Center.
[Texto 3503]

«Júri/jurado»

A confusão continua

      «De fora ficaram assim componentes kitsch como comboios, ciclistas e réplicas de Amália, mas o britânico Pravin Patel, júri do Guiness, confessou-se ainda assim “absolutamente fascinado por todas as peças do presépio [de S. Paio de Oleiros, Feira]”» («Presépio bate recorde do Guiness como o maior do mundo em movimento», Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 20).
      Também dito Praveen Patel aqui e ali — é jurado, não júri. É, não a mais deletéria, mas uma das mais persistentes confusões na imprensa.
[Texto 3502]

Lojas «pop-up»!

Lojas temporárias

      «Aparecem nos espaços mais surpreendentes. Podem durar dias, semanas, meses [de um dia a seis meses]. Depois desaparecem. O conceito das lojas pop-up ganha cada vez mais adeptos em Portugal. As lojas temporárias suscitam a curiosidade do consumidor, dando à compra um carácter de urgência, e requerem um investimento baixo» («Lojas ‘pop-up’: tão depressa aparecem como já desapareceram», Joana Capucho, Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 15).
[Texto 3501]

Como se escreve nos jornais

Dizem que Fosgluten faz bem

      «Se olharmos para os vídeos mais populares em Portugal na totalidade do período analisado — um anúncio da Coca-Cola em parte filmado em Portugal, um vídeo tirado de um programa de [sic] SIC, outro anúncio, desta vez da Kia, um videoclip da cantora Miley Cyrus e um vídeo de um vendedor de bolas-de-berlim em Monte Gordo — vemos que o nosso país irmão no YouTube não é a Espanha nem o Brasil, mas sim a Suíça. [...] E há fenómenos difíceis de explicar, como o videoclipe do grupo ucraniano MMDance[,] que conseguiu seduzir grande parte da América Latina, o Egito, Indonésia e Filipinas e é ignorado pelo resto do mundo» («O que é que nós (e o resto do mundo) vemos no YouTube?», Patrícia Jesus, Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 10).
[Texto 3500]

Léxico: «descrispação»

Só políticos

        «“Deixem o TC decidir livremente. Acho que Barroso não facilitou o clima de descrispação”, asseverou o comentador político [Marcelo Rebelo de Sousa]» («“Barroso não facilitou clima de descrispação com o TC”...», P. S., Diário de Notícias, 11.11.2013, p. 10).
       Descrispação. Até custa a dizer. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora ignora-a. Quase toda a gente, aliás, mas já me tinha cruzado com ela: «A Mário Soares se deve precisamente a descrispação da vida política e um magistério constante de tolerância e de convivência» (Arte de Marear, Manuel Alegre. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002, 2.ª ed., p. 171).
[Texto 3499]

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