Tradução: «chinetoque»

Olha quem fala

      Povos racistas como os Franceses e os Portugueses (ah, nós não o somos? Pronto, fica assim) tinham de ter nas suas línguas termos para designar de forma ofensiva outros povos. Assim, o termo injurioso e racista francês para designar um chinês é chinetoque. Está no Larousse, caramba. E está registado no Dicionário Francês-Português da Porto Editora? Não está. Mas no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora encontramos «chinoca».
[Texto 3217]

Léxico: «suputação»

Quase só eles

      «Ignoramos — e não vale a pena tentar a suputação provável — o que seria uma civilização hispânica caldeada com a líbio-fenícia. Seria tão absurdo julgar que todas as coisas vêm por bem, como julgar que todas vêm por mal» (Os Avós dos Nossos Avós, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1942, p. 205).
       Tirando Heitor Pinto e Aquilino, quem é que usa os termos «suputação» e «suputar», quem? Só os vejo, em abundância, em traduções de obras francesas. Eles é que gostam muito. Suputar é avaliar por meio de cálculo, computar; suputação é o acto ou efeito de suputar; cálculo.
[Texto 3216]

Tradução: «baisable»

Novas e velhas

      Esta quarentona é baisable — «fodível», verte o tradutor. «Desejável; sexualmente muito atraente», regista o Dicionário Francês-Português da Porto Editora. Mas désirables são aquelas adolescentes — françaises, beurettes, asiatiques — que ali estão junto da máquina de distribuição de preservativos.

[Texto 3215]

Vulgarismos

Vulgar, mas desconhecido

      Não será porque gostem ou deixem de gostar, mas os Franceses também têm branlettes espagnoles. O tradutor verteu para «punhetas espanholas». Pode ser, mas, mais habitualmente, entre nós são conhecidas por espanholadas. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, contudo, «espanholada» é o «dito, frase, música, etc., próprio de espanhóis; fanfarronada; hipérbole». Está mal, os vulgarismos (ah!) também têm de estar nos dicionários. E o Dicionário Francês-Português da Porto Editora, se regista branlette, quanto à espagnole, nada.
[Texto 3214]

Léxico: «tantrista»

Essa é a verdade

      Antes do almoço, a minha filha perguntou-me se quando for crescida pode ganhar a vida a fazer construções com peças de dominó, porque acha que as sabe fazer fantásticas. Porque não? Só esta tarde é que eu soube que também há tantristas (todos adolescentes em Maio de 68?). Por isso...
[Texto 3213]

Tradução: «glissière de sécurité»

Mais um esquecimento

      O carro do rapaz despistou-se na auto-estrada e «heurta légèrement la glissière de sécurité». A mim, no dia 29 de Julho, aconteceu-me quase o mesmo: ia contornar uma rotunda, a menos de 20 km/h, mas tinha começado a chover intensamente e todo o lado esquerdo do carro, pesado, um Mercedes-Benz 220 CDI, deslizou para cima do lancil da rotunda, qual frágil folha batida pelo vento. Ah, sim: o tradutor verteu assim: «embateu ligeiramente na barreira de segurança». Estivesse no original «rail», e provavelmente seria «rail» (ou «raile», como já uma vez vimos) que passaria para a tradução. O Dicionário Francês-Português da Porto Editora regista «glissière», «corrediça», e quanto a expressões, nada.
[Texto 3212]

«Alta Provença»

Mas as palavras perduram

      Aqui o nosso tradutor acha bem que o topónimo Haute-Provence fique por traduzir, talvez pense mesmo que nunca ninguém em centenas de anos da língua portuguesa se lembrou de o afeiçoar à nossa língua.
      «Só os olhos de ambos se devoravam, numa tensão tão violenta que ambos gritaram, por fim, nem sabiam já se de prazer ou dor, e ele caiu, prostrado, sobre o peito dela e assim ficaram, ainda abraçados, Manuel quase a adormecer, ela entoando, num sussurro, como a embalá-lo, uma velha canção dos pastores da Alta Provença, de uma tão bela e inquietante placidez que dir-se-ia brotar-lhe, estranha à sua natureza crispada, dos longes da retentiva, senão de uma memória anterior» (Exílio Perturbado, Urbano Tavares Rodrigues. Lisboa: Publicações Europa-América, 1982, p. 98).
[Texto 3211]

«Cascos de Rolha»

Indeterminado, mas topónimo

      «O caso individual do aventureiro inconformado de outrora, que saltava o risco nacional, ou a transumância do rebanho penitente, que em fila indiana e com vieiras no chapéu vinha de Cascos de Rolha a Compostela, deram lugar a um excursionismo oficial e maciço por conta da unidade do mundo, de que já todos nos sentimos, pelo menos, cidadãos honorários» (Diários, Vols. IX a XII, Miguel Torga. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 5.ª ed., 2011, p. 52).
      É assim (e também no plural — Cascos de Rolhas) que Rebelo Gonçalves regista na página 223 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista «cascos de rolha» e «Cascos de Rolha» — mas não regista, por exemplo, «cu-de-judas» e «Cu de Judas». Todos locais afastados e/ou indeterminados. (E por isso ainda hoje rio com vontade quando relembro esta frase de Nuno Pacheco, do Público, sobre o Acordo Ortográfico: «Até cu-de-judas deixou, para eles, de ser lugar remoto para ser o cu do próprio Judas, com caixa alta, assim mesmo.»)
[Texto 3210]

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