Tradução: «shutdown»

Paralisados, do pescoço para cima

      «O primeiro shutdown do Governo norte-americano em quase 20 anos – o último foi repartido entre o final de 1995 e o início de 1996, durante a presidência de Bill Clinton – tem as consequências óbvias da falta de dinheiro para pagar ordenados e do impacto no turismo devido ao encerramento de museus e parques nacionais, por exemplo» («O shutdown deixou funcionários sem ordenado e congressistas sem sopa», Alexandre Martins, Público, 3.10.2013, p. 28).
      Não compreendo: shutdown para aqui, shutdown para ali, até no título, quando num dos parágrafos se usa um equivalente possível: «Mas a paralisação do Governo norte-americano pode durar semanas, e quem fica semanas sem receber o ordenado por causa de um debate no Congresso que correu mal pode não ter o sentido de humor no menu preferido.» Na semana passada, foi com filibuster que nos bombardearam. Não nos dão descanso.
[Texto 3351]

«Casa arbórea»

Poetas

      «Logo à entrada do bosque existia uma árvore da China, de tronco duplo; na realidade eram duas árvores, mas os ramos estavam tão entralaçados que se podia andar de uma para a outra, tanto mais que eles se encontravam ligados por uma casa arbórea» (A Harpa de Ervas, Truman Capote. «Colecção Latitude». Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 26).
      Não é muito melhor do que «Rua Áurea», essa é a verdade. Acho que foi a alma de poeta de Cabral do Nascimento que ali se derramou.
[Texto 3350]

«Livro-mestre»?

Grandes falhas

      «Depois da ceia, com uma pala verde sobre os olhos, sentava-se ela à secretária, somando parcelas e voltando as páginas do livro-mestre até se apagarem os lampiões da rua» (A Harpa de Ervas, Truman Capote. «Colecção Latitude». Tradução de Cabral do Nascimento. Lisboa: Estúdios Cor, 1957, p. 17).
      Pois é, muito interessante... O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «livro-mestre». Contudo, o Dicionário de Português-Italiano da mesma editora regista-o, embora remeta para «livro-razão», que o Dicionário da Língua Portuguesa também não regista. E «livro-mestre» não virá, directa e desnecessariamente, do italiano libro mastro?
[Texto 3349]

Isto é que é traduzir

Francamente

      «O site do PÚBLICO foi considerado a publicação online mais bem desenhada na edição deste ano do congresso ÑH, organizado pelo capítulo espanhol da Society for News Design, que anualmente distingue as publicações e trabalhos jornalísticos com melhor desenho» («Site do PÚBLICO ganha prémio para o mais bem desenhado da Península Ibérica», Público, 2.10.2013, p. 13).
      Faz-me lembrar uma maluca que eu conheço que falava da «estética das contas». Era só estética, porque estavam todas absurdamente erradas. E no Público, isto: está chapter no original, vá de traduzir à letra. Só que — santinhos — em português nada significa. Em inglês é que é, no contexto, «a local branch of an organization».
[Texto 3348]

E não a tal

Este não

      «Portanto, o problema que se punha naquela altura», escreveu o autor, num livro agora no prelo, «no capítulo da ordem política, era realmente o da existência de dois mundos: o ocidental, já na altura capitaneado pelos Estados Unidos, e, do outro lado, o mundo da União Soviética.» Cá está: «capitaneado». Bem sabem que palavrinha 90 % dos autores actuais poriam ali.
[Texto 3347]

Plural de «cortesão»

Pois pode ser

      O Padre Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, entrevistado hoje pela Antena 1 a propósito das afirmações do Papa Francisco e a lepra que é a Cúria Romana, usou — e bem — o plural «cortesões». «Cortesão» tem dois plurais: «cortesãos», de longe o mais usado, e «cortesões». E até há substantivos com plurais triplos. No caso, poucas gramáticas indicam o duplo plural de «cortesão»; indicam apenas «cortesãos». Regular ou não, existe, é usado.
[Texto 3346]

«Ao fim e ao cabo»

Confundem tudo (porra?)

      Ora aqui temos nós um grande escritor a escrever «ao fim ao cabo», castelhanismo (boa noite, Fernando) agora já irremediavelmente enraizado. Mas espera: não é «ao fim ao cabo», é ao fim e ao cabo. Tresleram Vasco Botelho de Amaral, que recomendava que em vez desta expressão se usassem outras equivalentes em português, como ao fim, ao cabo, finalmente, por fim... Mas tem graça.
[Texto 3345]

«Mnemósine»

Pois com certeza, mas

      Está bem, queres mostrar cultura clássica, mas os acentos não são onde nos apraz. É Mnemósine ou Mnemósina. E para quê usares as duas formas com três linhas de intervalo?
[Texto 3344]

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