Léxico: «pega»

Sem ofensa


      No outro domingo, dia 30 de Agosto, ouvi na Rádio Observador uma entrevista à judoca portuguesa Patrícia Sampaio, que disse que, ao dirigir-se para o tapete para disputar um combate, uma das coisas em que pensa é na pega. O emprego é perfeitamente corrente na terminologia do judo, mas não se encontra registado no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Poderá objectar-se que este sentido já está abrangido pela primeira acepção de «pega», «acto de pegar», e que, por conseguinte, seria desnecessário autonomizá-lo. O argumento, porém, dificilmente se sustenta. Se a acepção genérica bastasse, também seria dispensável a acepção que o próprio dicionário reserva à tauromaquia — «acto de agarrar o touro com as mãos». No judo, pega não designa simplesmente o acto de pegar ou agarrar: é um termo técnico que designa a maneira como o judoca segura o fato do adversário, elemento fundamental para o controlo deste e para a preparação e execução das técnicas. Assim, proponho, pega JUDO forma de segurar o judogi (fato de judo) do adversário para o dominar e preparar ou executar uma técnica.

[Texto 23 474]

Léxico: «nenúfar-mexicano»

Mais uma invasora


      «Há quase meio século que o troço do rio Guadiana, na sua passagem pela área urbana de Badajoz, fica coberto com uma planta aquática originária do México e do Sudeste dos Estados Unidos da América: o nenúfar-mexicano (Nymphaea mexicana). O fenómeno é cíclico e as razões explicam-se: a planta desaparece no Inverno, mas a sua disseminação é retomada logo que chega o tempo quente, cobrindo de verde o plano de água que é represado pela barragem de La Granadilla (açude de Badajoz), localizada a jusante da cidade» («Nenúfar-mexicano esverdece o Guadiana entre Badajoz e fronteira portuguesa», Carlos Dias, Público, 5.09.2026, 18). 
      Ainda não invadiu os dicionários, pelo que proponho nenúfar-mexicano BOTÂNICA (Nymphaea mexicana) planta aquática perene da família das Ninfeáceas, originária do Sul dos Estados Unidos e do México, de rizoma cilíndrico, longos estolhos, grandes folhas flutuantes de contorno ovado a arredondado e flores amarelas solitárias, que se desenvolve em águas doces pouco profundas e é considerada espécie invasora em Portugal.

[Texto 23 473]

Definição: «varicocele | varicocelo» Léxico: «pampiniforme»

Vamos lá olhar para baixo


      «A lista de causas é longa. Uma das mais comuns é o varicocelo, um “enrolar” das veias no escroto que aquece o testículo, prejudicando a função dos espermatozoides» («A metade invisível da infertilidade», Joana Ascensão, Expresso, 14.08.2026, p. 18). 
      Vejamos como a Porto Editora tratou o caso. Esta variante, varicocelo, está apenas no Dicionário de Termos Médicos: «Dilatação varicosa das veias do cordão espermático (testículo) que pode ser dolorosa.» Não está correcta, mas a definição da variante varicocele, só no Dicionário da Língua Portuguesa, está francamente pior: «MEDICINA tumefacção nos órgãos genitais masculinos provocada por dilatação varicosa». Amarrotemo-la e deitemo-la para o caixote dos papéis. Tudo visto, proponho ➠ varicocele/varicocelo MEDICINA dilatação varicosa, geralmente acompanhada de tortuosidade, das veias do plexo pampiniforme do cordão espermático. (Do latim científico varicocēlē, formado do latim varix, -ĭcis, «variz», + grego kḗlē, «tumor; hérnia».)

[Texto 23 472]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Uma vez que a definição emprega o termo «pampiniforme», actualmente não registado no dicionário, sugiro também a sua dicionarização. Assim, pampiniforme adjectivo de 2 géneros ANATOMIA que tem forma semelhante à de uma gavinha ou de um conjunto de gavinhas entrelaçadas, designadamente o plexo venoso do cordão espermático. (Do latim pampĭnu-, «gavinha; pâmpano» + -forme.)


Léxico: «cruzeta»

Do futebolês


      Proponho o registo de uma nova acepção de «cruzeta», de uso futebolístico, que não encontro actualmente no dicionário: cruzeta DESPORTO cada uma das duas junções da barra com os postes de uma baliza. Trata-se de uma acepção com uso efectivo e já antigo na linguagem futebolística portuguesa. Encontra-se documentada na imprensa pelo menos desde 2005, em construções como «perto da cruzeta da baliza» e «a bola a bater na cruzeta». Ainda anteontem, no relato em directo do jogo Marítimo-Benfica, da I Liga, na Rádio Observador, ouvi o relatador, a propósito de um remate de Pavlidis que atingiu o ferro da baliza, dizer que a bola batera «na cruzeta da barra com o poste». A formulação é particularmente elucidativa: cruzeta designa aqui a junção da barra com um dos postes. É ainda de assinalar o espanhol cruceta, que tem precisamente esta acepção no vocabulário futebolístico («intersección del poste con el larguero»), pelo que é bastante provável que o uso português tenha surgido ou se tenha difundido por influência espanhola, embora não se possa excluir uma extensão semântica independente de «cruzeta».
      (Os jornalistas é que não acertam — literalmente: na RTP disseram que foi no poste direito e no Público de ontem juraram que foi no esquerdo. Eu não vi o jogo e não me interessam essas questões ideológicas.)

[Texto 23 471]

Léxico: «remoinhante»

E é isto


      Só te quero lembrar, Porto Editora, de que, para Salústio, o movimento dos ciclones é difuso, disperso, remoinhante; o dos cometas, pelo contrário, é uniforme e constante, seguindo sempre a trajectória que lhes foi traçada.

[Texto 23 470]

Léxico: «tecnofascismo | tecnofascista»

Já por aí anda


      «Le technofascisme en marche aux Etats-Unis ne consiste pas à prendre le pouvoir par les armes mais bien à siphonner tout le contenu de la démocratie, à faire en sorte que voter pour des sénateurs ou des représentants des différents Etats devienne sans effets sur la vie des gens. La résistance au technofascisme est cependant possible et à l’œuvre. Les instances officielles du Canada refusent, bien évidemment, de débaptiser le lac qui sépare les deux pays et il y a fort à parier que l’usage du vocable “lac Ontario” restera dominant, même aux Etats-Unis» («Le lac Ontario rebaptisé “lac America” : le technofascisme en marche aux Etats-Unis», Thomas Legrand, Libération, 3.09.2026, p. 5). 
      É impressionante o número de ocorrências do termo em várias línguas, incluindo, naturalmente, o português. Até já revi uma obra em que se descrevia o tecnofascismo, e, contudo, ainda não está em todos os dicionários. Assim, proponho ➠ tecnofascismo POLÍTICA forma de autoritarismo em que a tecnologia e a tecnocracia são usadas como meios de organização, controlo e domínio da sociedade.

[Texto 23 469]

Definição: «sombrinha»

Já estamos servidos


      «En junio, el periódico británico The Guardian describió el nacimiento de la sunbrella, un paraguas utilizado como accesorio de moda y protección frente al sol durante las olas de calor europeas. El nuevo hábito está generando una categoría comercial específica: los paraguas con protección a los rayos ultravioletas» («La moda de la ‘sunbrella’», Andrés Actis, La Vanguardia, 25.08.2026, p. 16). 
      Não faltavam em inglês termos para o designar, como não faltam em português. Temos a sombrinha, que a Porto Editora define assim: «guarda-sol de senhora». Primeiro, «guarda-sol» é equívoco. No português europeu contemporâneo, a palavra faz pensar imediatamente no objecto grande, sustentado por uma haste e normalmente fixado no solo ou numa base, na praia, esplanada, jardim. Ora, a sombrinha é portátil e empunhada, à maneira de um guarda-chuva. Segundo, «de senhora» mistura uma característica histórica e sociocultural com a definição do objecto. Cada vez é mais comum verem-se homens, e não apenas orientais, com sombrinhas no Verão. Vejo-os aqui em Cascais. Assim, proponho ➠ sombrinha objecto portátil, semelhante a um guarda-chuva, que se abre e se segura pela haste para proteger do sol.

[Texto 23 468]

Etimologia: «caleidoscópio»

A história é bem mais interessante


      «A palavra caleidoscópio — e o respectivo brinquedo óptico — foram patenteados em Edimburgo no início do século XIX. Este ano, nem de propósito, o Festival Fringe escolheu como símbolo o aparelhinho de infinitos padrões coloridos feitos de reflexos e luz» («Todos os castelos de Edimburgo são teatros», Jorge Louraço Figueira, Público, 25.08.2026, p. 22). 
      Mas os nossos dicionários apresentam-no-la como saída de um congresso de lexicografia: do grego kallós, «belo» +eĩdos, «forma» +skopeĩn, «ver». Na realidade, é assim: do inglês kaleidoscope, «caleidoscópio», termo criado em 1817 pelo físico escocês David Brewster (1781-1868), do grego kalós, «belo» + eîdos, «forma; aspecto», + skopeîn, «ver; observar».

[Texto 23 467]

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