Como se traduz por aí

Só disparatado


      «Mas, com a luz do dia a declinar, Jack tomou a decisão executiva de o cortar ele mesmo, pois tinha havido um contratempo, como a família gostava de dizer, e Stewart teria de passar a noite no apartamento em Dolphin Square, antes de apanhar o expresso na manhã seguinte com as galinhas – outra expressão da família» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 43). 
      No original, é disparatado, mas cómico, disparatado para ser cómico; na tradução, é apenas disparatado, mas por inadequação. «Com as galinhas» associa-se tradicionalmente a deitar-se cedo: «deitar-se/ir para a cama com as galinhas». Aqui, é o oposto. No original, é quase infantil na sua brejeirice: the sparrowfart express. Ora, traduzido à letra, obtemos exactamente os mesmos efeitos. Logo, «o expresso do peido do pardal».

[Texto 23 458]

Definição: «bitola»

Vamos pôr ordem nisto


      «A bitola é uma medida padrão, servindo para avaliar a distância exata entre as duas faces internas de uma linha ferroviária. A bitola ibérica é maior do que a medida europeia» («O que é a bitola?», Rui Miguel Godinho, Correio da Manhã, 30.08.2026, p. 21). Como é uma pequena caixa explicativa de um jornal é mais rigorosa do que os dicionários? A mais problemática (mas todas carecem de correcção) das acepções de «bitola» no dicionário da Porto Editora é a 4.ª: «distância entre os trilhos de uma via-férrea». Primeiro, «trilhos» é uma escolha terminológica pouco adequada ao português europeu ferroviário: o termo técnico é «carris». Segundo, e sobretudo, não basta dizer «distância entre os carris», porque é indispensável determinar entre que pontos dos carris essa distância é medida. Assim, proponho bitola 4. FERROVIA distância entre as faces interiores das cabeças dos carris de uma via-férrea, medida abaixo do plano de rolamento.
      As bitolas específicas também contêm erros, além de serem repetitivas. Estabelecido que está o conceito de bitola, depois bastava assim: bitola europeia bitola ferroviária de 1435 milímetros, usada na generalidade das vias-férreas europeias | bitola ibérica bitola ferroviária de 1668 milímetros, usada na generalidade das vias-férreas ibéricas | bitola métrica bitola ferroviária de 1000 milímetros.

[Texto 23 457]

Léxico: «cárpico»

Frutos, pulsos e lacunas


      O leitor R. A. escreve-me: «No LinkedIn, um advogado comenta um postal da [revista médica francesa, le magazine des jeunes médecins] What’s up Doc, escrevendo “Síndrome do Túnel Cárpeo como doença profissional. França.” Ora sempre ouvi e vi “túnel cárpico” ou “túnel do carpo”. Fui ver o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e tanto cárpico como cárpeo remetem para Botânica! Há aqui alguma confusão, não acha?» 
      Há, sim, alguma confusão no emprego de «túnel cárpeo»; quanto ao Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, o que há é uma inexplicável lacuna. Em português, a designação consolidada para o canal osteofibroso situado no punho, por onde passam o nervo mediano e os tendões dos músculos flexores dos dedos, é túnel cárpico. Daí síndrome do túnel cárpico, designação corrente e bem estabelecida na terminologia médica portuguesa. Ou, como também refere o leitor, túnel do carpo. «Túnel cárpeo» encontra-se ocasionalmente em uso, pelo que não se trata de uma formação inexistente. Não é, contudo, a designação consolidada na terminologia médica portuguesa. O adjectivo habitualmente empregado com referência ao carpo anatómico é «cárpico», a par de «carpiano». E é justamente aqui que se encontra a lacuna assinalada pelo leitor. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, tanto «cárpeo» como «cárpico» surgem exclusivamente como termos de Botânica. Dos três adjectivos — cárpeo, cárpico e carpiano —, só este último é registado como pertencente à Anatomia.  A omissão é tanto mais surpreendente quanto «cárpico» é um adjectivo de uso perfeitamente estabelecido em Anatomia e Medicina. A própria Porto Editora, de resto, regista no seu Dicionário de Termos Médicos «síndrome do túnel cárpico» e «síndrome do canal cárpico». Há ainda um pormenor que não poderá ser esquecido ao acrescentar ao verbete «cárpico» esta acepção anatómica: a etimologia. Para a acepção botânica actualmente registada, a Porto Editora indica «do grego karpós, “fruto” + -ico». Já o «cárpico» anatómico relaciona-se com outro grego karpós, «pulso», étimo de «carpo» na acepção anatómica. Ao dicionarizar-se o novo sentido, terá, pois, de se dar conta desta diferente origem. 
      Assim, proponho ➠ cárpico ANATOMIA relativo ou pertencente ao carpo; carpiano.

[Texto 23 456]

Léxico: «resistoma»

Toma


      «Un estudio liderado por investigadores españoles que publica Cell Report Medicine identifica, por primera, vez el papel de los oligosacáridos de la leche humana (HMO) como moduladores del desarrollo temprano del resistoma (genes de resistencia antimicrobiana) intestinal infantil» («La lactancia se asocia a menos genes de resistencia a antibióticos», La Voz de Galicia, 2.09.2026, p. 28). 
      Termo que encontro em muitos textos em língua portuguesa. Assim, proponho ➠ resistoma BIOLOGIA conjunto dos genes que conferem resistência a antimicrobianos, e dos seus precursores, presentes num organismo, numa população ou comunidade microbiana ou num determinado ambiente. (Quanto à etimologia, vem do inglês resistome, de resist(ance), «resistência», + -ome, elemento que designa um conjunto ou totalidade [termo criado em 2006 por Vanessa M. D’Costa, Katherine M. McGrann, Donald W. Hughes e Gerard D. Wright].)

[Texto 23 455]

Léxico: «medusa-do-tejo | catostilídeo»

E o Tejo aqui tão perto


      «As medusas, ou alforrecas, como são chamadas mais popularmente, que estão a ser arrojadas à praia têm sido todas da mesma espécie, a medusa-do-tejo (Catostylus tagi), explica Antonina dos Santos, responsável pelo projecto de ciência cidadã Gelavista, alojado no site do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA)» («Nunca viu tantas alforrecas na praia? É verdade, houve uma explosão», Clara Barata, Público, 25.08.2026, p. 14). 
      Fora dos dicionários, pelo que proponho ➠ medusa-do-tejo ZOOLOGIA (Catostylus tagi) medusa de grandes dimensões, da família dos Catostilídeos, de campânula hemisférica, geralmente esbranquiçada, acastanhada ou azulada, com oito braços orais espessos e ramificados em forma de cacho e gónadas dispostas em cruz, comum nas águas costeiras e estuarinas portuguesas, sobretudo nos estuários do Tejo e do Sado; alforreca-do-tejo.

[Texto 23 454]

Definição: «cockpit»

E se tiver só um?


      Então, Porto Editora, no verbete de cockpit esqueceste-te de grafar a palavra em itálico e da etimologia? Dizes só isto: «compartimento de avião, nave espacial ou automóvel de corrida destinado ao piloto e ao co-piloto; habitáculo». A definição, como se vê, também pode ser melhorada: «destinado ao piloto e ao co-piloto» é demasiado restritivo, porque pode haver apenas um piloto e, além disso, o cockpit é essencialmente o posto de comando do veículo, não simplesmente o compartimento onde se sentam duas pessoas. Assim, proponho ➠ cockpit compartimento ou espaço de uma aeronave, nave espacial, embarcação ou automóvel de corrida destinado à pilotagem ou condução e equipado com os respectivos comandos e instrumentos. 
      Quanto à etimologia, que é a parte mais interessante, deve dizer-se que vem do inglês cockpit, «posto de pilotagem», originalmente «fosso ou recinto para combates de galos», de cock, «galo» + pit, «fosso; cova»; posteriormente usado em náutica para designar um compartimento inferior de um navio e, mais tarde, o espaço de onde se governa uma embarcação, passando no início do século XX a designar o posto de pilotagem de uma aeronave.

[Texto 23 453]

Como se traduz por aí

Como se fosse uma praia


      «Mas os carris — e entre os pares de carris, os minúsculos seixos — cintilavam, não obstante a escuridão que reinava na magia húmida da chuva» (O Chefe de Estação Fallmerayer, Joseph Roth. Tradução do alemão e introdução cronológica de Álvaro Gonçalves. Porto: Assírio & Alvim, 2018, p. 33).
      Não são seixos, é brita. Não descortino o «reinava» no original: «Mas os carris — e, entre os pares de carris, as pedrinhas de brita — cintilavam, não obstante a escuridão, sob o encanto húmido da chuva.»

[Texto 23 452]

Definição: «pára-quedas»

Esquecemos o principal


      Perante as modernas definições de «pára-quedas», nem sequer ficamos a saber de que são feitos, quanto mais de que foram feitos no passado. E, neste caso, não se trata de um pormenor sem interesse. No início da Segunda Guerra Mundial, a Grã-Bretanha dependia em larga medida da seda proveniente do Extremo Oriente, designadamente do Japão e da China, para o fabrico de pára-quedas. Com o alastramento da guerra e, sobretudo, com a entrada do Japão no conflito, em Dezembro de 1941, o abastecimento tornou-se extremamente difícil, obrigando os Britânicos a procurar seda noutras regiões. Entretanto, o náilon, recentemente desenvolvido e mais resistente à humidade, mais forte e mais elástico do que a seda, revelou-se um excelente substituto e viria a impor-se no fabrico de pára-quedas. Se uma definição chega ao pormenor de mencionar a superfície flexível e os cordões de sustentação, parece, pois, pouco justificável que nada diga acerca do material de que aquela é constituída. Assim, proponho pára-quedas dispositivo destinado a diminuir a velocidade de queda ou deslocação de um corpo, constituído por uma superfície flexível de tecido leve e resistente, actualmente sobretudo sintético e, no passado, frequentemente de seda, ligada à pessoa ou ao objecto a amparar por meio de cordões de sustentação e que, ao ser aberta, oferece resistência ao ar, permitindo controlar a trajectória e desacelerar o movimento.

[Texto 23 451]

Arquivo do blogue