Léxico: «pé-negro»

Homónimos, ambos com hífen


      «Como los personajes de la última canción existencialista de Charli XCX [SS26 / «Spring Summer ’26» (2026)], tanto Sartre como Camus hablaban desde un apartamento parisiense: uno desde la teoría, el otro desde la vida real. Hijo de un pied noir muerto en la Primera Guerra Mundial cuando él tenía apenas un año, el futuro escritor se crio en el Argel más pobre con su madre, analfabeta, y con su abuela, una menorquina de armas tomar» («Ganar el debate después de muerto», Javier Rodríguez Marcos, El País, 29.08.2026, p. 40). 
      Ora, o VOLP da Academia Brasileira de Letras regista «pé-negro», que só pode ser este. A definição do bilingue francês-português da Porto Editora é muito restritiva. Assim, proponho ➠ pé-negro adj. s.2g. pessoa de nacionalidade francesa, geralmente de ascendência europeia, nascida ou estabelecida na Argélia durante o domínio francês; por extensão, pessoa em situação semelhante da Tunísia ou de Marrocos. (Quanto à etimologia, vem do francês pied-noir, «idem», literalmente «pé negro».)

[Texto 23 450]

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P. S.: O que a Porto Editora regista é pé negro, «BOTÂNICA fitopatologia da videira, de origem fúngica, que afecta sobretudo videiras jovens». Fitopatologia? Hum... A grafia deverá ser «pé-negro», com hífen, por se tratar de uma denominação lexicalizada de uma doença da videira; esta forma encontra-se, além disso, consagrada em documentação técnica oficial portuguesa, designadamente da Estação de Avisos de Entre-Douro-e-Minho (CCDR-N). E proponho a seguinte definição ➠ pé-negro BOTÂNICA doença fúngica da videira, que afecta sobretudo videiras jovens, caracterizada por lesões necróticas nas raízes e na zona basal do caule, podendo provocar o declínio e a morte da planta. 


Definição: «nuvem»

Vamos consertar isto


      «A escolha de um homem da área de hardware para assumir os destinos da empresa indica que a Apple acredita que o futuro da Inteligência Artificial (IA) passará por dispositivos integrados, como óculos inteligentes ou AirPods com câmaras, e não apenas pela ‘nuvem’» («Apple muda página da liderança», Duarte Faria, Correio da Manhã, 31.08.2026, p. 35). 
      Este é dos tais jornalistas, e são tantos, que pensam que só a primeira acepção dos termos polissémicos pode dispensar a protecção das aspas. Enfim... Quanto à IA, por importante que seja, e é uma das maiores revoluções tecnológicas das últimas décadas, não ascendeu à categoria de deus, é simplesmente a inteligência artificial. Passe a palavra, Duarte Faria. 
      Aproveitemos para ver como define a Porto Editora «nuvem» nesta acepção: «INFORMÁTICA conjunto de servidores remotos alojados na internet, utilizados para armazenar, gerir e processar dados em vez dos servidores locais ou de computadores pessoais». Bem, «alojados na internet» é pouco rigoroso: os servidores estão alojados em centros de dados e ligados à internet, não propriamente «na internet», e «em vez dos servidores locais ou de computadores pessoais» restringe desnecessariamente a oposição: a computação pode ser feita localmente em telemóveis, relógios, automóveis, auscultadores, etc., precisamente como mostra o exemplo dos AirPods. Assim, proponho ➠ nuvem INFORMÁTICA conjunto de recursos e serviços informáticos disponibilizados por meio de servidores remotos ligados à internet, nomeadamente para armazenamento, gestão e processamento de dados.

[Texto 23 449]

Uma acepção que fazia falta: «águia-marinha»

A genealogia do erro


      «Jackie, que tinha 14 anos, era, e é, uma águia-de-cabeça-branca, ou águia-careca, ou águia-calva ou, se quisermos, um pigargo-americano» («Uma águia que é metáfora», António Araújo, «P2»/Público, 23.08.2026, p. 23). Está certo, todos esses nomes comuns são os da espécie Haliaeetus leucocephalus. Umas linhas mais à frente, porém: «Não é caso para menos: Jackie era uma das mais populares águias-pesqueiras da América, talvez a mais popular, celebridade que advinha da circunstância de todos os momentos da sua existência, tal qual os influencers de agora, terem sido acompanhados ao minuto desde Outubro de 2015, quando colocaram uma câmara no ninho dos seus pais, o Ricky e a Lucy.» Aqui, já está errado: a águia-pesqueira designa outra espécie: Pandion haliaetus, da família Pandionidae
      Suspeito, aliás, da origem do erro. A águia-de-cabeça-branca (Haliaeetus leucocephalus) é uma das aves a que em inglês se chama sea eagles, literalmente «águias-marinhas», grandes rapinas associadas aos meios aquáticos e em cuja alimentação o peixe tem particular importância. Daqui a chamar-lhe «águia-pesqueira» vai um passo — compreensível, mas errado, pois este nome designa em português outra espécie, como vimos. O erro deixa, contudo, no ar uma questão: se dispomos de «águia-marinha-de-rabo-branco», «águia-marinha-gigante», «águia-marinha-de-barriga-branca» e outras denominações correspondentes às sea eagles, não haverá fundamento para que «águia-marinha» designe também, genericamente, estas aves? É matéria que merece investigação, tanto mais que os nossos dicionários reservam hoje a designação simples «águia-marinha» justamente para Pandion haliaetus, a águia-pesqueira.

[Texto 23 448]

Léxico: «veloclube»

Vamos ver se salvamos esta


      No dia 26.08.2026, na RTP1, no programa Portugal Fenomenal, a propósito de um dos primeiros velódromos do País, falaram de certo veloclube. Faz tanta falta registá-lo nos dicionários como foi, a seu tempo, «cineclube», que está lá e mesmo assim não é raro vê-lo por aí desmembrado.

[Texto 23 447]

Léxico: «juiz de instrução»

Qual navio


      Último episódio da minissérie francesa Tudo por Agnès, na RTP2. Renée Le Roux e o último advogado estão no gabinete da juíza de instrução Delbosc, que, perante novos indícios, diz: «D’accord, on va aller voir. Quoi qu’il en soit, comme il s’est accaparé l’argent d’Agnès, je vais le poursuivre en correctionnelle pour complicité d’achat de vote, abus de confiance, recel et demander son maintien en détention provisoire.» Isto é claríssimo, mas na tradução (de Tatiana Cunha) ficou assim: «Muito bem, vamos ver. Seja como for, como se apropriou do dinheiro da Agnès, vou levá-lo a tribunal judicial por auxiliar a compra de votos, abuso de confiança, recetação... E pedir a sua estadia em prisão preventiva.» Francamente... Se não visse, não acreditava. Ora, na sinopse do episódio dizia-se isto: «Os anos passam e a investigação estagna. Apenas Renée Le Roux continua a lutar para descobrir a verdade sobre a morte de Agnès. Considerado culpado na vertente financeira do caso, Maurice Agnelet acaba por ir para a prisão.» Ou seja, ao tempo da conversa com a juíza, Maurice Agnelet já está detido. Logo, e evitando estabelecer equivalências entre dois sistemas jurídico-legais diferentes, é antes assim: «Seja como for, uma vez que ele se apropriou do dinheiro de Agnès, vou levá-lo a julgamento por cumplicidade na compra de votos, abuso de confiança e receptação, e requerer que se mantenha em prisão preventiva

[Texto 23 446]

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P. S.: Não pretendo aqui entrar nas diferenças entre as funções do juge d’instruction francês e as do juiz de instrução português, embora convenha assinalar que o primeiro tem um papel consideravelmente mais interventivo na investigação criminal, dirigindo-a e dispondo, nesse âmbito, de competências que, no sistema português, cabem em larga medida ao Ministério Público. O que importa, para o caso, é que juiz de instrução constitui em Portugal uma designação jurídica perfeitamente estabilizada e consagrada na própria legislação. A sua ausência do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é tanto mais difícil de compreender quanto o dicionário acolhe a acepção jurídica de instrução, precisamente a fase processual que este magistrado dirige, além de registar outras locuções formadas com juiz. Justifica-se, pois, o registo da locução, tanto pela sua especificidade terminológica como pela frequência e estabilidade do seu uso. Assim, proponho ➠ juiz de instrução DIREITO magistrado judicial competente para dirigir a instrução em processo penal, decidir quanto à pronúncia e exercer as funções jurisdicionais que a lei lhe atribui durante o inquérito.



Definição: «tecolameco»

Mais concretamente


      «Era uma vez uma vila alto-alentejana famosa pelo Grão-Priorado da Ordem de Malta, por um doce conventual chamado tecolameco, pela hospitalidade das gentes locais e pela sua Feira de Artesanato e Gastronomia» («Grande ordem para festivalar», Sílvia Pereira, Público, 23.08.2026, p. 20). 
      Para a Porto Editora, que o apresenta como regionalismo — mas sê-lo-á apenas porque é um doce regional? —, é o «doce tradicional, típico da região do Alentejo, originário da doçaria conventual portuguesa, feito com amêndoas, ovos e açúcar, geralmente servido como sobremesa». O Alentejo é grande, um terço de Portugal. Assim, proponho tecolameco doce conventual tradicional do Crato, no Alto Alentejo, de consistência densa, preparado à base de amêndoa moída, açúcar, gemas e ovos, geralmente aromatizado com canela e cozido no forno.

[Texto 23 445]

Definição: «guarda-linha»

Para não sermos meros espectadores


      «Os comboios-expresso que iam em direção ao Sul, para Merano, para Trieste, para Itália nunca paravam na sua minúscula estação. Os comboios-expresso passavam a uma velocidade vertiginosa por Fallmerayer, que, duas vezes por dia, aparecia na plataforma a cumprimentá-los com o seu boné vermelho reluzente; esses comboios degradavam o chefe de estação quase à categoria de guarda-linha» (O Chefe de Estação Fallmerayer, Joseph Roth. Tradução do alemão e introdução cronológica de Álvaro Gonçalves. Porto: Assírio & Alvim, 2018, p. 31). 
      Revisão parece que não teve, e isso nota-se e muito. Na verdade, é «comboios expressos» — os tais que na definição do dicionário da Porto Editora, como já aqui vimos, vão «do local de partida ao de chegada sem fazer paragens». Era bom, era. É antes assim: «6. (comboio, camioneta) que efectua um percurso com poucas paragens intermédias». Quanto à definição de «guarda-linha» («pessoa que vigia as linhas férreas»), também só se ganhava que fosse revista. Algo como isto ➠ guarda-linha FERROVIA trabalhador ferroviário encarregado de vigiar e inspeccionar determinado troço de uma linha férrea, verificando o estado da via, detectando e sinalizando eventuais perigos e zelando pela segurança da circulação dos comboios. 
      Quanto ao boné do chefe Fallmerayer, «reluzente» faz-me pensar logo em certos materiais, como metal e plástico, de que habitualmente não são feitos. Seja como for, na tradução, a frase é equívoca, até se pode interpretar que cumprimentava os comboios tirando o chapéu. Assim, mais claro seria desta forma: «Os expressos passavam desenfreadamente por Fallmerayer, que, duas vezes por dia, saía para a plataforma, de boné vermelho-vivo, a saudar; quase rebaixavam o chefe de estação a guarda-linha.» Calma, ainda aqui ficamos a ver os comboios passarem (como certos guarda-linhas). «Os rostos dos passageiros nas grandes janelas desvaneciam-se numa massa branca-cinzentada» (O Chefe de Estação Fallmerayer, Joseph Roth. Tradução do alemão e introdução cronológica de Álvaro Gonçalves. Porto: Assírio & Alvim, 2018, p. 31). Nein, nein, nein! Die Regel lautet so: nos adjectivos compostos formados por dois adjectivos, só o segundo elemento varia em género e número, mantendo-se o primeiro invariável na forma masculina do singular;  assim, diz-se «massa branco-acinzentada», «massas branco-acinzentadas», «camisa verde-clara» e «camisas verde-claras». Gern geschehen!

[Texto 23 444]

Léxico: «puchkiniano | oneguiniano | estrofe oneguiniana»

Pois se os encontramos em português


      «Un travail qui s’accompagnerait d’une manière de théorie de la traduction à la fois rigoriste et maniaquement iconoclaste – presque provocatrice dans le choix des mots, de la métrique (la fameuse “strophe Onéguine”), à l’opposé de toutes les traductions existantes ou à venir ayant fait le choix d’une transcription mélodieuse de la musique pouchkinienne» («Pouchkine sonne le glas de l’amitié entre Nabokov et Wilson», Olivier Lamm, Libération, 13.08.2026, p. III). 
      Ora, também o temos, pois claro, ➠ puchkiniano adjectivo relativo ou pertencente ao poeta russo Aleksandr Púchkin (1799-1837), à sua obra ou ao seu estilo. 
      Como temos, vejo-o em vários estudos literários publicados no Brasil, ➠ onieguiano ou oneguiniano adjectivo relativo ou pertencente ao romance em verso Evguiêni Oniéguin, de Aleksandr Púchkin, ou característico da sua forma poética. 
      E assim desembocarmos na ➠ estrofe onieguiana LITERATURA forma estrófica criada por Aleksandr Púchkin para o romance em verso Eugénio Onéguin, constituída por catorze versos em tetrâmetro iâmbico, com alternância regular de rimas femininas e masculinas e esquema rimático abab ccdd effe gg, correspondente, sucessivamente, a rimas cruzadas, emparelhadas, interpoladas e a um dístico final.

[Texto 23 443]

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