Ortografia: «cata-vento»

Muito adiantados

      «As declarações não foram de Christina [sic] Lagarde, mas o “seu” FMI voltou esta semana a fazer uma coisa de que já vários o acusavam: papel de catavento» («Christine Lagarde. A contraditória», Público, 22.09.2013, p. 4).
      Na substância, será tudo verdade; mas falha, mais uma vez, a ortografia, pois é cata-vento que se escreve. Escreve e continuará a escrever-se, pois neste caso e noutros semelhantes, incongruentemente (veja-se «mandachuva», composto em que se perdeu, dizem eles, a noção de composição; e em «cata-vento», manteve-se?) o Acordo Ortográfico de 1990 deixou a ortografia intocada.
[Texto 3314]

«Macaréu», de novo

Nada mudou, ou 钱塘江

      «Na China, dezenas de milhares de pessoas concentraram-se nas margens do rio Qiantang para observar um fenómeno natural chamado de [sic] macaréu. Tal como podemos ver nestas imagens, trata-se de uma onda com várias dezenas de metros de largura e que percorre o caudal de um rio a uma velocidade constante. As ondas podem chegar a ter 9 metros de altura» (Jornal do Meio-Dia, 22.09.2013).
      Já tínhamos visto a palavra aqui, no Assim Mesmo. No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, continua, infelizmente, aquele espúrio «após ter vencido a força da corrente», mas já os avisei.

[Texto 3313]

Sobre «cinetoscópio»

É pouco

      «À imagem do cinetoscópio com que se iniciou a história do cinema — resumidamente, imagens em movimento dentro de uma pequena caixa escura com um buraco por onde espreitava uma pessoa de cada vez —, a companhia de teatro de marionetas A Tarumba criou, em 2009, os “mironescópios”, caixas escuras com marionetas dentro que contam histórias eróticas (e para maiores de 16 anos). Como um peep-show, só que sem carne humana» («Um peep-show de marionetas pela Europa fora», «Ípsilon»/Público, 20.09.2013, p. 12).
      Vejamos. Para o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, «cinetoscópio» é o «aparelho percursor [sic] do cinematógrafo». Bem, parece que se pode dizer muito mais. (Em todos os dicionários de inglês que consultei é peepshow ou peep show que leio.)
[Texto 3312]

«Moto-quatro» ou «moto quatro»?

Eu ligo

      «Salvu Vella, 61 anos, chega à torre de Santa Maria, na ilha de Comino, cavalgando numa moto-quatro. É a mesma torre onde o realizador Kevin Reynolds filmou uma adaptação do romance O Conde de Monte Cristo, em 2002. Salvu chega à hora combinada. Veste um macacão de padrão camuflado e um chapéu cinzento — indumentária que torna mais fácil distingui-lo de um qualquer turista» («O homem pós-moderno da ilha não deserta», Fábio Monteiro, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 12).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista-o sem hífen, «moto quatro», mas creio que é melhor com hífen.
[Texto 3311]

Léxico: «circanual»

Há quarenta anos

      Muita gente (mas sempre menos do que se possa pensar) conhece o conceito e a palavra circadiano: relativo à duração de 24 horas ou um dia; em fisiologia, diz-se do ciclo biológico de aproximadamente 24 horas. Os médicos, porém, usam, em relação a outros fenómenos (as enxaquecas em salvas, por exemplo), outro termo, que não está nos nossos dicionários: circanual. Está nos dicionários de língua inglesa: «noting or pertaining to a biological activity or cycle that recurs yearly».
[Texto 3310]

«Ruptura», um caso triste

Mas este é o pior

      Aquele jornalista disfarçado não pôs o dedo na ferida, não senhor: sou mesmo contra o Acordo Ortográfico de 1990. Mas temos de usar a cabeça. E já fiz mais do que muitos contra o AO: a minha opinião foi, em alguns casos, decisiva para não se adoptarem as novas regras ortográficas, além de todo o meu continuado labor de divulgação. Vamos lá ver: faz algum sentido afirmar, como se lê por todo o lado, que, em relação ao vocábulo «ruptura», se inventou uma terceira variante? Porque havia de ser logo neste caso que o princípio fonético ia ceder em favor do princípio histórico-etimológico? Porque é que só em relação a este caso aduzem o argumento de que houve «esquecimento das raízes das palavras», pois «ruto» não existe em português? Há muito por onde atacar o AO, a começar na necessidade e na oportunidade, não percam tempo com invencionices apalermadas.
[Texto 3309]

«Aporte», um galicismo

Seria menos um

      Já que andamos, nos últimos tempos, a falar tanto de termos médicos, não podemos substituir o galicismo aporte, em frases como «o aporte de oxigénio às células cerebrais», por termo genuinamente português?
[Texto 3308]

«Hemorróide/hemorróida»

Contra o AO

      «Em Junho e Julho pode apanhar folhas de figueira sãs, secá-las à sombra e depois pode utilizá-las para fazer infusões, às quais são reconhecidas propriedades anti-helmínticas, e são também usadas no tratamento de dermatites e hemorroides» («Estamos em tempo de figos», José Alberto Pereira, «Fugas»/Público, 21.09.2013, p. 31).
      Têm de dizer ao autor, engenheiro agrícola e professor universitário, que o Público não adoptou ainda (nunca?) o Acordo Ortográfico de 1990 (por vezes, nem o de 1945), para ele escrever «hemorróides», assim, com acento. Digam-lhe também que é «anticarcinogénicas» que se escreve. Não lhe digam, mas fiquem a saber que o termo «hemorróidas» (ou «hemorróides») designa propriamente os vasos sanguíneos que existem na porção terminal do recto e do ânus, e que talvez só por facilidade usamos para referir a dilatação varicosa das veias do plexo hemorroidário, acompanhada de edema e inflamação.
[Texto 3307]

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