Léxico: «ngongo | muongo»

Já foi nossa, mas não parece


      Lá muito de quando em quando, gosto de ler o Jornal de Angola. Mas faço mal, devia fazê-lo com mais assiduidade, até para ensinar angolês à Porto Editora. «Com absoluta nostalgia, voltei a assistir ao início da época do ngongo, uma centenária e quase mitológica bebida, muito popular no eixo Huíla/Namibe/Cunene, no extremo Sul de Angola. Colhido de uma árvore chamada muongo, o ngongo assume-se, entre finais de Dezembro até início de Março, como principal factor de socialização naquela região, tal é sua atractividade, com multidões de pessoas a juntarem-se nos locais da sua produção, variando de denominação em diferentes áreas» («Bebida centenária com efeito afrodisíaco», Leonel Kassana, Jornal de Angola, 29.03.2026, p. 22). 

      Nos dicionários, nada. Assim, proponho ➜ Angola ngongo bebida tradicional fermentada, de origem ancestral, preparada com frutos da árvore muongo (Sclerocarya birrea), consumida no Sul de Angola (nomeadamente nas regiões da Huíla, Namibe e Cunene); de sabor ácido e baixo teor alcoólico, sendo geralmente bebida em grupo, do mesmo recipiente, em encontros comunitários (rodas), associados a forte valor social e simbólico; é frequentemente descrita como possuindo propriedades afrodisíacas na tradição local. 

      O que nos obriga igualmente a levar para o dicionário ➜ Angola muongo BOTÂNICA (Sclerocarya birrea) árvore de porte médio a grande, da família das Anacardiáceas, própria das regiões tropicais da África Austral, podendo atingir cerca de 10 a 15 metros de altura; produz frutos carnosos, amarelados (designados por ngongo ou gongo), ricos em açúcares, utilizados no consumo directo e na preparação de bebidas fermentadas tradicionais, como o ngongo.

[Texto 22 711]

Léxico: «ovo(s) de Páscoa»

Por isso mesmo


      «Quelle est l’origine de la tradition des œufs de Pâques? Elle remonte au moins à l’Antiquité: les Égyptiens, les Romains et les Perses s’offraient des œufs de poule décorés pour célébrer l’arrivée du printemps. L’œuf, un élément central dans les récits démiurgiques de nombreuses cultures anciennes, est lié à la création de l’univers – donc à la vie. Il symbolise ainsi parfaitement la nature qui renaît au printemps. Puisque la résurrection de Jésus signifie le triomphe de la vie sur la mort, ce n’est pas un hasard si l’église catholique fixa en 325 la date de Pâques au premier dimanche après la pleine lune qui suit l’équinoxe de printemps» («Comment le chocolat a volé la vedette aux œufs», Laurence Crottaz, 24 heures, 28.03.2026, p. 14). 

       É justamente não serem já ovos, mas chocolate em forma de ovo, que justifica levar-se para o dicionário ➜ ovo(s) de Páscoa doce associado à celebração da Páscoa, com origem em práticas da Antiguidade ligadas à renovação primaveril e à fertilidade, posteriormente integradas na simbologia cristã; de início constituído por ovo de galinha cozido, por vezes pintado ou decorado e oferecido como símbolo de vida nova; actualmente, produto de chocolate moldado em forma ovóide, com frequência oco e podendo conter brindes ou recheios, que substituiu quase por completo o uso do ovo natural nas práticas festivas contemporâneas.

[Texto 22 710]

Definição: «síndrome de Stendhal»

Tudo menos «condição»


      «Cuando se piensa en la ciudad de Parma, lo primero que viene a la mente es su espectacular Baptisterio de mármol rosa de Verona, un imponente edificio octogonal del siglo XIII que es, sin duda, una de las mayores proezas artísticas de Italia. Cuando se habla de esa reacción de colapso psicosomático con mareos y taquicardias ante la percepción de una enorme acumulación de belleza, se hace siempre referencia a la experiencia de Stendhal cuando visitó la basílica de la Santa Croce en la ciudad toscana de Florencia en 1817, lo que se ha venido en llamar sindrome de Stendhal» («Parma y el síndrome de Stendhal», Santiago Ortiz Lerín, El Periódico, 29.03.2026, p. 42).

      Não precisam de me lembrar que fui eu que sugeri a dicionarização de «síndrome de Stendhal» à Porto Editora, mas não ditei propriamente a definição, além que apresenta dois problemas. Recordemo-la: «condição psicossomática caracterizada por um conjunto de sintomas como aceleração do ritmo cardíaco, vertigens ou desmaios (entre outros), decorrente da exposição a obras de arte ou locais de grande beleza estética; hiperculturemia». O primeiro é aquela «condição», que não tem como fingir que é portuguesa, porque tem no ADN o condition inglês. Não precisamos dela. O segundo é a natureza daquela «exposição»: não é qualquer exposição, como muitos leitores, apressados ou não, poderão deduzir, mas uma experiência intensa ou sobrecarga estética. O que é bem diferente. Assim, proponho ➜ síndrome de Stendhal PSICOLOGIA conjunto de reacções físicas e emocionais transitórias, como taquicardia, tonturas ou desmaio, desencadeadas por uma experiência intensa perante obras de arte ou contextos de grande beleza estética, especialmente em situações de sobrecarga sensorial ou cultural.

[Texto 22 709]

Léxico: «muleiro»

A galinha da minha vizinha


      «Inshi, Eben, Bisquine et Igualjeno. Quatre paires de grandes oreilles et de grands yeux au regard curieux. Quatre mulets au caractère bien trempé et bien différent, auxquels les muletiers Suzanne Allaman et Olivier Morand vouent une passion sans bornes» («Par amour pour leurs bêtes, ils perpétuent le travail des muletiers», Natasha Hathaway, Le Matin Dimanche, 29.03.2026, p. 17). 

      Com certeza, Porto Editora, podes traduzir por «muleteiro», mas a minha primeira opção seria logo «muleiro», tanto mais que esta se formou na nossa língua, ao passo que «muleteiro» vem directamente do francês muletier, como tu própria o reconheces na etimologia. Está tudo dito, ou quase: tens de dicionarizar muleiro.

[Texto 22 708]


Léxico: «normopata»

Quando já tens «normopatia»


      Porto Editora, queres saber quando foi a última vez que encontrei a palavra «normopata»? Queres pois. Foi ontem, nas legendas do filme No Verão Passado (L’Été dernier), de Catherine Breillart. «Sabes o que penso dos “normopatas”?», diz a personagem Anne, já com os copos, ao marido. «Aborrecem-me. Até se aborrecem a si mesmos. Por favor, não te armes em normopata, não te fica bem.» (A pecha das aspas já vem dos jornais. O erro colossal, porém, só chega ao minuto 47, quando Théo, fingindo, de gravador em riste, entrevistar a madrasta, Anne, a incita a falar: «Vas-y, cause.» («Anda lá, fala.» «Vá, conta.») Pois bem, nas legendas aparecia assim: «Vá lá. Causa.» Sim, erro colossal. E era facílimo comprovar que não batia certo, já que a madrasta responde: «Ce n’est pas toi qui dois poser des questions?» Francamente.)

[Texto 22 707]

Léxico: «prova indirecta»

Mas ausente dos dicionários


      «A magistrada critica a prova indireta, que não foi valorizada. “Não é absolutamente necessário o aparecimento do corpo para se concluir pelo cometimento do crime de homicídio/aborto. Será todavia de se exigir que se alcance uma evidência de morte, ainda que comprovada por provas indiretas ou circunstanciais, sejam elas perícias, testemunhais ou outras, desde que permitam alcançar uma conclusão segura”, lê-se» («“O autor da morte de Mónica foi Fernando Valente”», Nelson Rodrigues e Tânia Laranjo, Correio da Manhã, 26.03.2026, p. 12). 

      Isto é que é forma de escrever... Nada como um jornalista acolitado por outro jornalista para engendrar estes portentos. Tem de ser o pobre leitor — e talvez boa parte dos leitores deste jornal não o saiba fazer — a proceder a esse trabalho de reconstrução. Bem, avancemos propondo, dada a sua presença nos meios de comunicação, a dicionarização de ➜ prova indirecta DIREITO prova que incide sobre factos intermédios ou circunstâncias conexas, a partir dos quais se infere o facto principal a demonstrar; distingue-se da prova directa por exigir um raciocínio inferencial e pode assumir a forma de prova indiciária.

[Texto 22 706]

Léxico: «meruja»

Aqui não chove


      «Porque não é fácil resistir – confirmamos – à chouriça mirandesa, à tabafeia, ao cordeiro da raça churra galego-mirandesa, ao butelo, à posta ou medalhão de vitela. Que ainda para mais se fazem acompanhar de variados e belos vinhos que se produzem na região, além de outras iguarias como o puré de grelos ou (sorte nossa, porque são colhidas apenas entre Janeiro e Março e era época delas) a bonita e saborosa salada de merujas» («Miranda do Douro: bien benidos al reino marabilhoso», Patrícia Carvalho, Público, 28.03.2026, 8h33). 

      Peçam à Porto Editora uma salada de merujas, tentem. Iam ficar com fome. Assim, proponho ➜ meruja BOTÂNICA (Montia fontana) planta herbácea silvestre, aquática ou semiaquática, da família das Portulacáceas, que cresce em águas límpidas e frias (nascentes, ribeiros, lameiros encharcados), formando conjuntos de folhas muito pequenas e tenras, de sabor suave e sem acidez marcada, tradicionalmente consumidas cruas em saladas no Interior Centro e Nordeste de Portugal; produto sazonal, colhido sobretudo entre Janeiro e Março.

[Texto 22 705]

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P. S.: Não confundir com morugem (Stellaria media), planta terrestre diferente. Em certos registos lexicográficos, nomeadamente no dicionário da Porto Editora, a forma «meruge(m)» surge associada, quanto a mim, indevidamente, a essa espécie.

Agora é que vai ser

Ler por receita


      Os médicos, leio nos jornais, vão passar a receitar caminhadas, pilates, trabalhos manuais e aulas de culinária. É um começo, mas o que espero mesmo é que, enquanto não afinam aqueles chips implantáveis no cérebro, passem a receitar o estudo da gramática e a consulta de dicionários, especialmente aos jornalistas; para a restante população, pode ser apenas a frequência de clubes de leitura, por exemplo.

[Texto 22 704]

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