Qué-la, quere-a, quer-la

Que é lá isso?

 

      Quando, seis meses depois, Elvira Clancy vai ao velório de um habitante, agricultor e feniano, o filho do defunto, um tipo fortalhaço e brutamontes, certamente um dos melhores clientes de algum pub nas imediações, corre um cortinado junto da urna onde a nossa obituarista está em devaneios, e reclama: «A minha mãe deu-te uma gorjeta.» «Ela insistiu», defende-se Elvira. «Ela qué-la de volta. Diz que o texto estava uma porcaria.» É o que se lia nas legendas, que, juntamente com a tradução, são de Luís M. A. Freitas. Acontece, e isto é curiosíssimo, que a série já tinha passado em Setembro de 2025, com tradução e legendagem do mesmíssimo Luís M. A. Freitas, e lia-se então isto: «Ela quere-a de volta.» Isto é inédito. Algum espertalhão suposto entendido achou que estava errado e optou por uma forma correcta, sim, mas malsoante e minoritária. Vejam que lição e que proveito tiram daqui: «Usa o verbo ser e as formas verbais esté (= esteja), imos (=vamos), se rimem em vez de se redimem, rim (por riem), jouverão, trouverã-me; com pronome encontram-se as formas illas (= ir-las), quella (por quer-la, ou quere-a)» (História da Língua Portuguesa, Serafim da Silva Neto. Lisboa: Editorial Presença, 1986, p. 508).

[Texto 23 088]

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