«Quase», advérbio de?...
3.6.26
Para nada ficar de fora
No sábado, em mais uma edição de Uma Noite em Forma de Assim, Jorge Afonso recebeu David Erlich, autor da novíssima obra 21 Lições de Filosofia (Planeta, 2026). «Vinte e Uma Lições de Filosofia para Viver Uma Vida quase Boa. Mas porque é que colocas o advérbio de modo “quase”?», perguntou o anfitrião. «É uma bela questão.»
Já vi que há por aí ciberdúvidas, e até notórios ciberdislates, sobre este advérbio. O modo seria expresso por palavras como «bem», «mal», «sabiamente», «intensamente», etc. Compare-se: viver bem uma vida / viver mal uma vida / viver sabiamente uma vida. De acordo com o Dicionário Etimológico, podemos encaixá-lo entre os advérbios de inclusão e exclusão. Afinal, o que caracteriza os advérbios de inclusão e exclusão é precisamente a sua relação com fronteiras categoriais e conjuntos. Veja-se: só o João veio → exclusão dos restantes; até o João veio → inclusão de um elemento inesperado; mesmo João veio → reforço da inclusão. Ora, em: quase bom; quase cem; quase morreu; quase um milagre; «quase» também opera sobre uma fronteira. A diferença é que não inclui nem exclui propriamente: situa a entidade imediatamente antes da inclusão. É justamente por esta razão que há autores que vão mais longe e o incluem num subgrupo a que chamam advérbios de aproximação.
[Texto 23 086]
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P. S.: Agora a definição de «quase» no dicionário da Porto Editora: «1. muito próximo; perto de; 2. com pouca diferença; 3. por um triz». Não cobre todas as situações. As definições do Houaiss e do Michaelis, por exemplo, são manifestamente melhores. A meu ver, porém, a solução não está em alargarmos o número de acepções, mas antes em reduzir para uma apenas abrangente, em que nada de relevante fique de fora. Assim, proponho ➠ quase advérbio indica aproximação a um estado, condição, quantidade, qualidade ou acontecimento sem o atingir plenamente.
edit
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