Léxico: «tele»

Nem elemento nem factor


      «Discussão da Anatel sobre 6 GHz opõe teles a pequenos provedores de internet» (Marcos Hermanson, Folha de S. Paulo, 14.10.2026, p. A27). 
      Encontro com muita frequência esta redução de «telecomunicações» na imprensa brasileira. Nos dicionários, nada. Assim, proponho ➠ tele nome feminino Brasil empresa que presta serviços de telecomunicações; operadora de telecomunicações. 
      Ah, mas vejo agora que a Porto Editora já tem um «tele»! Anda, porém, meio contrabandeado no dicionário, porque nem sequer apresenta a etimologia. É um termo da sociologia, introduzido por Jacob Levy Moreno (1892-1974), formado do grego têle, «longe; à distância». E há mais: a definição que lhe é dada, «factor de atracção social que age entre indivíduos ou entre grupos», é incompleta, pois o conceito, tal como foi formulado pelo próprio Moreno, não se limita à atracção, abrangendo também a repulsão e a indiferença. Já que estamos com o verbete nas mãos, proponho também que se corrija a definição e se acrescente a etimologia, pois claro. Assim, de uma assentada, ficamos com um «tele» novo e outro devidamente identificado. 
      Tudo visto, proponho ➠ tele nome masculino SOCIOLOGIA, PSICOLOGIA factor que intervém nas relações interpessoais ou entre grupos, manifestando-se por sentimentos recíprocos de atracção, repulsão ou indiferença. (Do grego têle, «longe; à distância», termo introduzido pelo psicólogo e sociólogo Jacob Levy Moreno (1892-1974).)

[Texto 23 700]

Léxico: «intercirculação | burrelês»

Boa oportunidade


      «— Eu vou consigo — respondeu Roz. Deixaram Sam a rever as respostas pela terceira vez que tinha escrito e saíram para a secção entre carruagens. A janela ligeiramente estava aberta, pelo que respiraram ar frio como mentol» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 81). 
      Mais literal não podia ser, já que no original está «section between carriages». Eu optaria por «espaço». Mas dispomos de termo técnico: intercirculação FERROVIA sistema de comunicação entre duas carruagens contíguas de um comboio, constituído por uma passagem protegida que permite a circulação de pessoas entre ambas; por extensão, essa passagem. 
     E ao elemento que assegura essa protecção dá-se o nome de ➠ burrelês FERROVIA elemento flexível, geralmente de borracha, disposto na extremidade de uma carruagem ferroviária e que, em conjunto com o elemento correspondente da carruagem contígua, protege lateralmente a passagem de intercirculação entre ambas.

[Texto 23 699]

Definição: «esquerdista», de novo

Muito me contam


      A Porto Editora corrigiu a definição de «esquerdista», que passou a ser «que ou o que é de esquerda», estabelecendo assim o desejável paralelismo com «direitista». Mas o trabalho ficou a meio. Com efeito, continua a haver mais acepções em «direitista» do que em «esquerdista», sem que se perceba a razão. E há outra incongruência: se em «esquerdista» se faz referência a «esquerdismo», por que razão não se faz referência a «direitismo» em «direitista»? Ambas as palavras existem, ambas estão dicionarizadas. Não pretendo, ao contrário do que se possa pensar, que se acrescente «direitismo» à definição de «direitista», mas que se retire «esquerdismo» da de «esquerdista». Que vantagem há em introduzir esta assimetria, quando «direitista» e «esquerdista» podem ser definidas de forma perfeitamente paralela?

[Texto 23 698]

Léxico: «feijão-comum»

Como é comum, ninguém se lembra dele


      «A nova remessa inclui 303 acessos de feijão-comum, 18 de feijão-frade e 13 de milho, destinados a reforçar a salvaguarda dos recursos genéticos vegetais e a preservação da biodiversidade agrícola. O Banco Mundial de Sementes, criado em 2008, permite aos bancos de germoplasma de vários países depositar cópias de segurança das suas coleções, prevenindo a perda definitiva de variedades agrícolas em caso de catástrofes naturais, conflitos armados ou falhas técnicas» («Portugal deposita mais 334 amostras de sementes no “cofre do apocalipse” na Noruega», Rádio Renascença, 12.10.2026, 12h25). 
      Vá lá, o meu feijão preferido, o frade, está a salvo. Mas vejo que nem sequer no cofre da Porto Editora se encontra o ➠ feijão-comum nome masculino 1. BOTÂNICA (Phaseolus vulgaris) planta herbácea anual, da família das Leguminosas, originária da América, amplamente cultivada pelas suas sementes comestíveis, apresentando folhas trifoliadas e frutos em forma de vagem; 2. semente dessa planta.

[Texto 23 697]

Como se escreve por aí

Que vós pasteis


      «Deixara círculos de folhas de alumínio abertos e cobertos de migalhas de pasteis de Natal, um copo de vidro com restos de whisky e flocos de aveia espalhados no chão» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 155). 
      O tradutor pensa que é assim e assim o escreve. A revisora nem pestaneja. Ou se calhar o problema é esse: pestaneja e não vê que falta o acento. O AO90 pode ter contribuído para se verem mais erros desta natureza, mas os culpados têm nome e apelido.

[Texto 23 696]

Definição: «ringue»

Tem de ir para a tal lista


      Outra confusão clássica, sobretudo na tradução, é entre ringue e rinque. Mas vejamos a definição de «ringue» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: «DESPORTO estrado quadrado, geralmente cercado por cordas, para a prática de boxe e outros desportos». Hum, demasiado vaga e pouco rigorosa, pois apresenta o ringue necessariamente como um estrado, quando pode estar, como já tenho visto, ao nível do solo; não esclarece que a sua elevação é apenas habitual; considera as cordas um elemento facultativo («geralmente cercado por cordas»), quando são essenciais à sua configuração; omite a existência dos quatro postes de canto e não menciona o revestimento amortecedor do pavimento, além de recorrer à expressão excessivamente abrangente «outros desportos», em vez de «outras modalidades de combate». 
      Dado o panorama, proponho ➠ ringue nome masculino DESPORTO recinto quadrangular, geralmente elevado sobre uma plataforma e delimitado por cordas esticadas entre quatro postes de canto, onde se realizam combates de boxe e de outras modalidades de combate. (Do inglês ring, «anel; círculo; recinto delimitado».)

[Texto 23 695]

⋅ ── ✩ ── ⋅



P. S.: Numa daquelas curiosas coincidências, no mesmíssimo dia em que propus à Porto Editora a dicionarização da expressão «dinheiro líquido» — e a Porto Editora não ligou —, ouvi-a na Rádio Observador, a propósito da venda da TAP à Lufthansa. Gosto disto.


Definição: «adenocarcinoma»

Falta logo este


      «O Papa Leão XIV foi diagnosticado com adenocarcinoma e, depois de uma análise aos tecidos durante a operação, confirmaram o cenário que suspeitavam e retiraram o lobo inferior do pulmão direito foi removido» («Que tipo de cancro do pulmão foi diagnosticado ao Papa? Médica explica», José Carlos Silva e Catarina Magalhães, Rádio Renascença, 14.10.2026, 00h15). 
      Que a Porto Editora define assim: «MEDICINA cancro ou carcinoma de origem glandular que afecta, entre outros órgãos, a mama, o estômago e o intestino». Logo por azar, omite o pulmão, precisamente um dos órgãos em que este tipo de tumor é mais frequente. Aliás, o adenocarcinoma é o subtipo histológico mais comum de cancro do pulmão. Mas este não é, longe disso, o único problema da definição. Assim, proponho ➠ adenocarcinoma MEDICINA tumor maligno de origem epitelial, com diferenciação glandular, que pode afectar diversos órgãos, como o pulmão, a mama, o estômago, o intestino, o pâncreas e a próstata.

[Texto 23 694]

Definição: «marta»

Avistada no Porto


       Devias ser tu a dizer-mo, Porto Editora: numa zona residencial perto do Parque do Covelo, na freguesia de Paranhos, apareceu uma marta (Martes martes). Depois de recolhida, posta em quarentena, estudada, foi devolvida à Natureza. Agora, quanto à definição: para começar, os nossos dicionários (o Houiass também o faz) só a registam como designação comum dos mamíferos do género Martes, distribuídos «esp. em áreas florestais do hemisfério norte», sem referência alguma à ocorrência em Portugal. Ora esta... Além de que se esquecem de indicar algumas características definidoras. Assim, proponho ➠ marta 1. ZOOLOGIA (Martes martes) mamífero carnívoro, também denominado marta-europeia, da família dos Mustelídeos, de corpo alongado e esguio, patas curtas, cauda comprida e peluda e pelagem castanha, com característica mancha amarelada ou creme na garganta e no peito, que habita sobretudo áreas florestais; distribui-se por grande parte da Europa e ocorre em Portugal, principalmente no extremo norte do território continental; 2. ZOOLOGIA designação comum, extensiva a outros mamíferos carnívoros do género Martes, da família dos Mustelídeos; 3. pele desse animal, usada sobretudo em vestuário. (Quanto à etimologia, vem do francês martre, «idem», do frâncico *marthr, «idem».) 
      Mas não fica tudo resolvido, porque os dicionários omitem (e aparece, por exemplo, numa lista da Direcção-Geral de Alimentação e Veterinária) a ➠ marta-europeia ZOOLOGIA o mesmo que marta, acepção 1.

[Texto 23 693]

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