Léxico: «porta-rolos | traçador de gráficos»

Só cá em casa, três diferentes


      Em minha casa, tenho vários porta-rolos: os do papel higiénico, o do papel de cozinha e, no quarto da minha filha, estudante de Belas-Artes, um para os rolos de papel de desenho. Já vi também, em gabinetes de arquitectura, porta-rolos de grandes dimensões, destinados ao papel utilizado na impressão de plantas e projectos. E há ainda os que encontramos nas lojas, para papel de embrulho, ou nas oficinas que aplicam películas de vinil nos automóveis. Ora, quem consultar o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora encontrará esta definição de «porta-rolos»: «utensílio que segura o rolo de papel higiénico no quarto de banho». É evidente que a definição é demasiado restritiva, não corresponde à realidade. Andam distraídos. Não precisamos, porém, de acrescentar acepções, mas apenas de substituir a actual por outra que abranja todas as utilizações do objecto. Assim, proponho ➠ porta-rolos nome masculino suporte para um ou mais rolos de papel, plástico ou outro material.

[Texto 23 692]

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P. S.: Já que estamos com a mão na massa, ou melhor, no papel, aproveite-se para dizer que a definição de «traçador de gráficos» no mesmo dicionário também precisa de ser actualizada: «mesa de desenho equipada com aparelhagem apropriada, ligada a um computador, a uma calculadora ou a uma unidade de banda magnética, com que se executam desenhos de precisão, especialmente gráficos». Uma definição que já acusa o peso dos anos e que poderia ser substituída por esta ➠ traçador de gráficos INFORMÁTICA dispositivo de saída que permite imprimir desenhos técnicos e outros elementos gráficos, geralmente em grandes formatos.

Léxico: «bassuto | soto»

África esquecida


      «A língua principal dos bassutos é o sesoto, também conhecido como soto do Sul. O sesoto e o inglês constituem os idiomas oficiais do território, por vezes apelidado O Reino do Céu, no qual existe um companheiro especial: o pónei bassuto, que é um pequeno cavalo adaptado a terrenos acidentados e respetivas condições» («Os bassutos», Audácia, Dezembro de 2026, p. 44). 
      Ora, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora nem sequer regista a acepção linguística de «soto». Assim, proponho ➠ soto 1. LINGUÍSTICA nome masculino grupo de línguas bantas da África Austral que compreende, entre outras, o soto meridional, o soto setentrional e o tsuana; soto-tsuana; 2. LINGUÍSTICA nome masculino língua banta desse grupo, falada no Lesoto, onde é língua oficial, e na África do Sul; sesoto; soto meridional. 
      Ah, sim, o nome do povo também foi esquecido. Assim, proponho ➠ bassuto adjectivo de 2 géneros relativo aos Bassutos, povo banto da África Austral, estabelecido sobretudo no Lesoto e na África do Sul | nome de 2 géneros indivíduo dos Bassutos; soto meridional | Bassutos nome masculino plural ETNOLOGIA povo banto da África Austral, estabelecido sobretudo no Lesoto e em regiões vizinhas da África do Sul, que fala o soto meridional; Sotos meridionais. (Do soto Basotho, «povo soto», provavelmente por intermédio de uma forma europeia como Basuto.)

[Texto 23 691]

Definição: «hipocentro»

Região? Ponto


      O sismo no Panamá teve o hipocentro a dez quilómetros de profundidade, ao que parece. É o infeliz pretexto para corrigirmos a definição de «hipocentro» no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Lemos na primeira acepção: «GEOLOGIA região do interior da Terra onde se origina um sismo, foco sísmico». Ora, o hipocentro não é propriamente uma região, mas um ponto: aquele em que se inicia a ruptura das rochas que dá origem a um sismo. É assim que o define o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), no seu Glossário Sismológico: «um ponto no interior da Terra a partir do qual se inicia o processo de rotura de um sismo». Também o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) o define como o ponto do interior da Terra onde começa a ruptura sísmica. A distinção não é despicienda: embora a ruptura possa propagar-se por uma extensão considerável de uma falha geológica, o hipocentro corresponde precisamente ao ponto onde ela se inicia. 
      Proponho, por conseguinte, que a primeira acepção passe a ter a seguinte redacção: «1. GEOLOGIA ponto do interior da Terra onde se inicia a ruptura que dá origem a um sismo; foco sísmico». 
      Aproveito ainda para precisar a segunda acepção, que actualmente diz assim: «ponto da superfície terrestre situado directamente abaixo do local de explosão de uma bomba nuclear». Trata-se, neste caso, do ponto situado na vertical do local onde ocorre uma explosão nuclear na atmosfera, como sucedeu em Hiroxima e Nagasáqui, cujas bombas explodiram antes de atingir o solo. Proponho, portanto, a seguinte redacção: «2. ponto da superfície terrestre situado directamente abaixo do local onde ocorre a explosão de uma bomba nuclear na atmosfera».

[Texto 23 690]

Léxico: «singularismo»

Não é singular


      Na segunda-feira, João Brites, Nicolas Brites e João Neca, da companhia teatral O Bando, foram os convidados do programa Uma Noite em Forma de Assim, da Antena 1, para falarem da peça Afonso Henriques. João Brites usou (não em nenhuma destas conhecidas acepções, contudo) a palavra ➠ singularismo nome masculino 1. tendência ou gosto pelo que é singular, original ou excêntrico; desejo de se distinguir dos outros pela singularidade; 2. ARTES corrente estética surgida em Portugal nos finais do século XX, que privilegia a criação artística colectiva como meio de produzir obras originais e singulares.

[Texto 23 689]

Como se traduz por aí

Com o complicómetro ligado


      «Olhou para o relógio quando parou na escada rolante da estação de Oxford Circus. Dez minutos para o comboio partir. Um artista de rua estava a cantar Driving Home for Christmas e Roz pensou na ideia de ver o rosto da neta que estava prestes a chegar. E no que o rosto de Heather faria se Roz perdesse o comboio» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa. Guerra & Paz, 2023, p. 21). 
      Quando ligam o complicómetro, o que temos? O original é lhano e simples: «A busker sang ‘Driving Home for Christmas’, and she thought of seeing her new granddaughter’s face. And what Heather’s face would do if Roz missed the train.» Ou seja: «Um músico de rua cantava Driving Home for Christmas, e Roz pensou em ver o rosto da sua nova neta. E na cara de Heather se perdesse o comboio.» 

[Texto 23 688]

Léxico: «gaio-comum»

Está e não está


      «O gaio-comum foi encaminhado para o Centro de Ecologia, Recuperação e Vigilância de Animais Selvagens (CERVAS), em Gouveia, onde será sujeito a avaliação e acompanhamento veterinário, visando a sua recuperação e posterior devolução ao meio natural» («SEPNA recolhe gaio-comum debilitado», Diário de Coimbra, 8.10.2026, 18h07). 
      A Porto Editora só o regista (!) no dicionário com o negregado AO90: «ORNITOLOGIA (Garrulus glandarius) Ave da família dos Corvídeos, ordem dos Passeriformes». Aproveitemos para o levar para o outro dicionário e, claro, enriquecer tão pobre definição, o que faremos dizendo ➠ gaio-comum nome masculino ORNITOLOGIA (Garrulus glandarius) ave passeriforme, da família dos Corvídeos, presente na Europa, incluindo Portugal, na Ásia e no Noroeste de África, que habita sobretudo zonas florestais, mas também parques e jardins, de plumagem predominantemente castanho-rosada, cabeça malhada de preto e branco, asas com manchas azuis iridescentes e zonas brancas, uropígio branco e cauda comprida e preta; gaio. 
      Aparece no guia Vinte e Cinco Aves, publicado pela Câmara Municipal de Lisboa, mas a nossa definição é melhor. Não por desígnio cósmico, mas tão-só graças à pesquisa.

[Texto 23 687]

Definição e etimologia: «huti»

Variantes, mas diferentes?


      Os cabrões facínoras dos Hutis estão de novo a atacar a Arábia Saudita. Mas não é por isso que não corrigimos e melhoramos a definição do termo no dicionário da Porto Editora. Ora, ora, como é que é somente adjectivo se estamos sempre a ouvir e a ler que os Hutis — quando não um ou meia dúzia de hutis — fizeram isto ou aquilo? Assim, proponho ➠ huti adjectivo de 2 géneros relativo aos Hutis, movimento político-militar xiita zaidita do Iémen, também denominado Ansar Allah, ou aos seus membros | nome de 2 géneros membro desse movimento. (Do árabe ḥūṯī, do antropónimo al-Ḥūṯī, nome de família de Hussein Badreddin al-Houthi, fundador do movimento, por sua vez derivado do topónimo iemenita Ḥūṯ.) A grande surpresa — oh! — é que o verbete de «houthi» no mesmíssimo dicionário está melhor, já que regista o vocábulo também como nome.

[Texto 23 686]

Etimologia: «bugio»

Aproveitemos


      «A origem exata do nome Bugio é incerta, embora a teoria mais popular sugere [sic] que deriva do francês ‘bougie’ (vela). A estrutura circular da fortificação e a sua forma cónica faziam lembrar uma vela acesa num castiçal. Já outra versão aponta que o nome satiriza a corte afrancesada, comparando o forte a um bugio, um macaco» («Macaco ou vela acesa em castiçal», Manuela Guerreiro, Correio da Manhã, 27.07.2026, p. 14). 
      A jornalista refere-se, é claro, ao nome do Farol do Bugio, porque quanto à origem do vocábulo «bugio», não há muitas dúvidas. E até merece ser mais bem explicado na nota etimológica dos dicionários, assim ➠ do topónimo Bugia (actual Béjaïa, na Argélia), e este do árabe Budjāya (árabe vulgar Budjîa), cidade de cujo porto se exportavam velas de cera (bugias) e, provavelmente, macacos; do topónimo derivou bugia; posteriormente, por reinterpretação do -a final como desinência de feminino, formou-se o masculino bugio.

[Texto 23 685]

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