Como se traduz por aí

Más opções


      «— Eu sei, eu sei. O Ministério Público e a Polícia Metropolitana. Somos inimigos figadais» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 80). 
      No original: «‘I know, I know. The CPS and the Met. We’re mortal enemies.’» Sim, vê-se muitas vezes assim traduzido, mas equivalência funcional não significa identidade institucional. A melhor tradução é, a meu ver, Procuradoria da Coroa. Tem pelo menos duas vantagens: conserva imediatamente a marca britânica da instituição — «Procuradoria da Coroa» não se confunde com uma instituição portuguesa — e permite traduzir coerentemente a designação dos seus agentes. Não ficamos entalados se aparecer (como, de facto, acontece na obra) Crown Prosecutor, porque não vamos escrever «procurador da República», espero: temos, naturalmente, «procurador da Coroa».

[Texto 23 684]

Definição: «marquise»

Não me parece


      Hoje vamos falar de marquises, não daquelas com que os patos-bravos semianalfabetos desfearam as nossas cidades e vilas, mas das que se comem. Num múpi aqui perto, o Pingo Doce anuncia a «marquise de chocolate da avó Ninhas», o que me levou a ir ver como tratavam os dicionários esta sobremesa. Assustei-me um bocadinho. 
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, marquise, na acepção culinária, é o «bolo de consistência cremosa que se serve frio». Ora, a marquise é tão pouco bolo como o croquete, que ainda na semana passada tivemos de libertar da mesma condição no dicionário. E, curiosamente, Escoffier vem pela segunda vez livrar-nos da tentação de chamar bolo ao que não o é. No seu Guide Culinaire, encontramos já uma secção dedicada às marquises. Não eram ainda, porém, aquilo em que hoje pensamos — ou penso eu, exímio fazedor de marquises — ao ouvir falar de uma marquise de chocolate. Escoffier explica que se faziam sobretudo de morango, ananás e kirsch: preparava-se uma mistura semelhante à de um sorvete, congelava-se de modo a obter uma consistência granulosa e, no momento de servir, incorporava-se igual volume de chantilly. Tratava-se, portanto, de uma sobremesa gelada — de bolo, nem sombra. 
      O sentido culinário evoluiu. O Larousse ainda regista a velha marquise de fruta, espécie de granizado feito geralmente de puré de morango e aromatizado com kirsch, mas dá também uma segunda acepção: sobremesa gelada de consistência intermédia entre a mousse e o parfait, como a marquise de chocolate.  A receita de marquise de chocolate do próprio Larousse leva chocolate, manteiga, ovos e açúcar; a preparação é vertida numa forma e deixada no frigorífico durante doze horas. Não há farinha, massa ou forno que justifique a classificação como bolo.  É esta última preparação que se generalizou entre nós sob o nome de marquise, sobretudo na combinação marquise de chocolate. As receitas portuguesas consultadas confirmam o mesmo núcleo: chocolate, manteiga, ovos e açúcar, preparação em forma e frio. Umas recorrem ao frigorífico, outras ao congelador, razão por que também não convirá definir a marquise simplesmente como sobremesa «gelada». O que permanece é a consistência cremosa e densa, obtida pelo arrefecimento, e a apresentação moldada.  
      Quanto ao nome, veio-nos inteirinho, virgem, do francês marquise, palavra que é, na origem, o feminino de marquis, «marquês». Simples, mas temos de o indicar no verbete, porque a maioria dos falantes dominará o tiktoquês, não o francês. O francês empregou o termo em numerosas realidades, da marquesa propriamente dita — a consorte do sortudo marquês — àquela em que médicos, enfermeiros e intrujões nos massacram e voluptuosas massagistas tailandesas nos tonificam, passando por vários objectos e chegando, finalmente, às preparações culinárias, mas não parece estar suficientemente esclarecida a razão por que esta sobremesa recebeu tal nome. Melhor, por isso, não inventar marquesas nem requintes que a documentação não demonstra. 
      Assim, proponho ➠ marquise CULINÁRIA sobremesa fria, de consistência cremosa e densa, preparada sobretudo com chocolate, manteiga e ovos, geralmente moldada e servida em fatias. (Quanto à etimologia, vem do francês marquise, designação de diferentes preparações culinárias, de marquis, «marquês».)

[Texto 23 683]


⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: «Possíveis causas. Pode ter origem em infeções (por bactérias, por fungos), lesões de cicatrizes de infeções antigas (sequelares) ou tumores benignos ou malignos, numa fase inicial» («Nódulo do pulmão: o que é?», Correio da Manhã, 12.10.2026, p. 7). Também desaparecido dos dicionários?



Definição: «croûton»

Receita mais saudável


      Aqui uma tradutora escreveu incorrectamente a palavra francesa croûton, mas isso não devia ser nada de especial, pois até no Dicionário de Francês-Português da Porto Editora aparece errado. E também não se pode dizer que esteja bem definido no Dicionário da Língua Portuguesa: «CULINÁRIA pequeno pedaço de pão frito, geralmente usado como ingrediente em sopa ou salada». Frito? Ingrediente? Tudo visto, provado, analisado, proponho ➠ croûton CULINÁRIA pequeno pedaço de pão, muitas vezes cortado em cubo, torrado ou frito e por vezes temperado, usado como guarnição ou acompanhamento de sopas, saladas e outros pratos.

[Texto 23 682]

Extras! Extras! Extras!

Tem de ser


      Vai entrando na cabeça: «Os investigadores identificaram 287 genes com variantes únicas de Jonathan, incluindo alguns ligados à supressão de tumores e à reparação de DNA. A tartaruga também carrega cópias extras de um gene que codifica uma proteína que caça células envelhecidas e cancerígenas» («Tartaruga de 194 anos pode dar pistas aos humanos para uma vida mais longa», Rádio Renascença, 8.10.2026, 8h37). 
      Só me espanta é que nem todos os dicionários queiram contribuir para que se saiba que o adjectivo «extra» não é invariável — como há não muito tempo tantos defendiam.

[Texto 23 681]

Léxico: «dinheiro líquido»

Faltou-nos este


      «Qual é a ideia de te pagar em dinheiro líquido?, perguntou» [What is he doing paying you in cash? she said.] (Pessoas Normais, Sally Rooney. Tradução e notas de Ana Falcão Bastos e revisão de Isabel Castro Silva. Lisboa: Relógio D’Água, 2022, p. 223). 
      Porto Editora, esquecemo-nos desta quando se dicionarizou «dinheiro à vista» e sinónimos. Assim, proponho ➠ dinheiro líquido 1. dinheiro em notas e/ou moedas; dinheiro à vista, dinheiro em espécie, dinheiro vivo; 2. DIREITO notas e moedas, bem como outros instrumentos ou produtos de elevada liquidez, como cheques, cheques de viagem, cartões pré-pagos e ouro.

[Texto 23 680]

Como se pontua por aí

Olha, assim


      «Não foi um grande feito do Barnie, ter recrutado um tipo que já estava assegurado à partida» (Silverview, John le Carré. Tradução de Maria de Fátima Carmo e revisão de Clara Joana Vitorino. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2023, 3.ª ed., p. 114). Erro capital, em pontuação.

[Texto 23 679]

Léxico: «peixe-sapo-de-bochechas-prateadas»

Assim se chama


      «Les ravages de ce poisson toxique invasif, Lagocephalus sceleratus, sont visibles un peu plus loin: une raie, un pagre commun et un autre poisson gisent sur le pont d’une autre embarcation, à moitié dévorés. “Ils ne laissent rien derrière eux!” se désespère le pêcheur face à cette espèce parmi les plus destructrices de la Méditerranée orientale» («Les poissons-ballons dévastent la pêche en Crète», Le Matin Dimanche, 11.10.2026, p. 21).
      Espécie que tem em português o nome comum de ➠ peixe-sapo-de-bochechas-prateadas ZOOLOGIA (Lagocephalus sceleratus) peixe-balão da família dos Tetraodontídeos, originário do Indo-Pacífico e invasor no Mediterrâneo, de corpo alongado, dorso acinzentado ou esverdeado com manchas escuras, flancos prateados e ventre esbranquiçado, altamente tóxico devido à presença de tetrodotoxina.

[Texto 23 678]

Definição: «burgomestre»

Mas não deviam


      «Em Gikoro e Bicumbi, salientou Rasmont, «o genocídio não durou muito», em comparação com outras regiões. Mas, ali, os massacres «foram muito mais intensos, por terem sido ordenados por Laurent Semanza, ex-burgomestre de Bicumbi (1969-1993), que mantinha laços estreitos com políticos extremistas, exercendo também forte influência sobre o homólogo em Gikoro, Paul Bisengimana, e sobre o grupo paramilitar hutu Interahamwé» («“O Ruanda escolheu não lamentar eternamente a escuridão”», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Julho de 2026, p. 24). 
      Parece que os nossos dicionaristas se esquecem disto. Assim, proponho ➠ burgomestre nome masculino primeiro magistrado municipal de certas cidades ou municípios, especialmente em países de tradição administrativa germânica ou neerlandesa, equivalente a presidente da câmara, em Portugal; também designação histórica de certos administradores municipais em antigos territórios coloniais belgas.

[Texto 23 677]

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