Como se traduz por aí

Palavra cancelada


      «A pessoa que se preparava para cometer o crime olhou de relance para Meg» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 75). 
      Agora imaginem em escassas linhas quatro vezes «a pessoa que se preparava para cometer o crime», quando no original está sempre e só, e é assim até à última página, «the killer». E reaparece: na página 91, são mais quatro ocorrências. Na página 154, porém, com a alteração das circunstâncias — o crime já ocorrera — passa a ser «a pessoa que só pensava no crime». Na página 192, já é «a pessoa que planeara o crime». Finalmente, na página 196, é «a pessoa que cometeu o crime». Ou, para os amigos da concisão: «o assassino». Na página 197, há uma depuração radical, passa a ser só «a pessoa» e «a outra pessoa». Na página 202, é «a pessoa que planeou o crime». Na página 205, é «quem cometeu os crimes». É só um — quer dizer, um feixe — dos incontáveis erros nesta obra. Isto é normal?

[Texto 23 676]

Léxico: «subligáculo | subligar»

De repente, faz falta


      Apareceu aqui numa obra e, é claro, deixou-nos com as calças na mão, isto quando antigamente aparecia nos dicionários (no de Morais!) e nas enciclopédias (estou a vê-lo na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira): subligáculo ou subligar nome masculino HISTÓRIA peça de vestuário usada na antiga Roma por homens e mulheres, semelhante a uma tanga ou a calções curtos, que cobria as partes íntimas e podia ser usada como roupa interior ou, sobretudo por atletas, gladiadores e actores, como única peça de vestuário da parte inferior do corpo. (Quanto à etimologia, vem do latim subligācŭlu-, «faixa; tanga», derivado de subligāre, «atar por baixo».)

[Texto 23 675]

Definição: «hiena-malhada»

Uns ajustes


      «As hienas-malhadas (as mais numerosas das três espécies destes mamíferos) vivem exclusivamente na África. Formam grandes clãs que podem ter de 80 a 100 elementos, lideradas por uma fêmea. As fêmeas — que medem até um metro e 70 e pesam entre 70 e 90 quilos — são maiores e mais poderosas que os machos. Os grupos mais numerosos encontram-se sobretudo nos parques de Serengeti (na Tanzânia) e Kruger (na África do Sul), mas são presença comum na savana africana. A pressão urbana e o desmatamento, aliados ao envenenamento e à caça por causa dos ataques ao gado, reduziram-nas para entre 27 e 47 mil animais» («Catadoras da noite», José Vieira, Além-Mar, Julho de 2026, p. 13). 
      Estão nos dicionários, que, contudo, omitem muitos aspectos característicos da espécie, já para não dizer que não acertam inteiramente com a distribuição geográfica. Assim, proponho ➠ hiena-malhada ZOOLOGIA (Crocuta crocuta) mamífero carnívoro da família dos Hienídeos, distribuído pela África Subsariana, de porte robusto, cabeça larga, membros anteriores mais desenvolvidos do que os posteriores e pelagem amarelada ou acinzentada com manchas escuras; vive em clãs numerosos organizados segundo uma hierarquia matriarcal e alimenta-se tanto de presas capturadas por si como de carcaças; pode atingir cerca de 1,7 m de comprimento e 90 kg de peso.

[Texto 23 674]

Léxico: «balanço»

Mais relojoaria


      Num texto sobre o Dia Mundial do Relógio, no domingo, dia 10 de Outubro, o Instituto Português de Relojoaria publicou este texto (excerto): «Um relógio mecânico de pulso tem mais de uma centena de peças. A corda guarda a energia, as rodas transmitem-na, o escape liberta-a aos poucos e o balanço, com uma espiral mais fina do que um cabelo, marca o ritmo. Num relógio corrente, o balanço oscila 28 800 vezes por hora, quase 700 mil vezes por dia, sem pilha e sem parar.» Ora, Porto Editora, não acolhes este ➠ balanço RELOJOARIA peça circular que oscila alternadamente em torno do seu eixo e que, associada a uma mola espiral, regula a cadência do movimento de um relógio mecânico.

[Texto 23 673]

Léxico: «cafeícola»

Brevemente disponível


      «João António [chefe do Departamento Provincial do Instituto Nacional do Café (INCA)] disse, em declarações ao Jornal de Angola, que o plano para a reactivação do sector cafeícola na região passa pela criação e distribuição de mudas melhoradas, capacitação de produtores e a recuperação dos níveis históricos de produção, através da assistência técnica aos agricultores e incentivo à expansão das áreas cultivadas. “Penso que, com maior disponibilidade de crédito, os fazendeiros poderão investir mais nas suas propriedades, contratar mão-de-obra especializada e aumentar significativamente os níveis de produção. A reactivação do sector cafeícola na região é um esforço coordenado pelo governo provincial com o apoio do Gabinete Provincial da Agricultura e Floresta”, referiu» («Cafeicultores trabalham para resgatar a hegemonia», Adilson Sebastião, Jornal de Angola, 23.06.2026, p. 26).

[Texto 23 672]

Como se escreve por aí

Não havia necessidade


      Até há três dias, de Diogo Vaz Pinto só conhecia dois textos e meio e a sua biografia no site da FNAC: «Vaz Pinto (n. 1985, Lisboa) é poeta. Editor nas Edições Língua Morta. Jornalista e crítico literário. Escreve com um machado.» Isto não é apenas teoria, é mesmo a machado que lhe saiu o obituário de Jeffrey Archer na última edição do Nascer do Sol. Analisemos algumas frases a bisturi. 
      A primeira frase demove logo o leitor apressado e impaciente, mas isso não é defeito para todos os leitores. Mas também há palavras inventadas e (graças a Deus) desnecessárias: «Este desassombro combinatório cativava bem mais do que qualquer devoção aristocrática, pondo o luxo ao lado da comida de cantina, deixando os trunfos bem à vista, numa sobrecadência, num sinal de que se está para lá dessas convenções de alta sociedade.» Há teorias sobre o que possa significar, mas nada de definitivo. Outra: «Contudo, para aproveitar-se do espírito dos lugares cincunvalantes, quando se queria prometer a uma temporada de escrita, recorria regularmente às casas de amigos e conhecidos ricos, que lhe emprestavam os seus refúgios no estrangeiro enquanto ele compunha, e recompunha, os inúmeros rascunhos dos seus romances.» Aqui, não é apenas o nunca visto «circunvalantes», temos uma coisa bem mais estranha: «quando se queria prometer a uma temporada de escrita». As palavras são portuguesas, sem dúvida, mas a construção é inglesa: when he wanted to commit himself to a period of writing. Em português de Camões, de Saramago ou do mais obscuro falante, é tão-só «quando queria dedicar-se à escrita». 
      O texto apresenta ainda frases que foram fortemente abanadas pelos vendavais do início do ano: «Em 1976, Not a Penny More, Not a Penny Less, aparece Archer publica o seu primeiro romance, depois de o aliviarem da fortuna que tinha acumulado, tendo por essa altura sido obrigado a abandonar a política.» A pontuação também não se recomenda: «Era uma introdução à sociedade de vigaristas que tem os seus tentáculos por toda a parte, e Archer contava como quatro homens que se viram na mira de um vigarista, depois se aliavam para o vigarizar de volta, procurando recuperar cada um o milhão de dólares que perdera.» Também temos (à poeta?) expressões desconstruídas, como «no ponto mais baixo, deixou todo o decoro entregue às malvas», que só podemos suspeitar o que possam significar.

[Texto 23 671]

Como se traduz por aí

Fora da realidade


      «— A senhora está bem? — perguntou a mulher que estava ao lado dela. Estava a olhar para o fio de emergência. Se o puxasse, Roz não conseguiria apanhar o comboio» (Crime no Expresso de Natal, Alexandra Benedict. Tradução de Nuno Carvalho e revisão de Maria Ferro. Lisboa: Guerra & Paz, 2023, p. 22). 
      Tão pouco idiomático... Desde quando é que dizemos «fio de emergência»? «‘Are you okay?’ the woman next to Roz said. She was eyeing the emergency cord. If she pulled it, Roz would never catch the train.» Mesmo que fisicamente seja um cordão — cordão, não fio —, isso é secundário. O tradutor não está a fazer o inventário material da carruagem; está a traduzir uma situação que o leitor português deve reconhecer imediatamente. Logo: «— Está bem? — perguntou a mulher ao lado de Roz. Estava de olho no sinal de alarme. Se o puxasse, Roz nunca apanharia o comboio.»

[Texto 23 670]

Erros de sempre e para sempre

Nem bem explicado


      «Um violento despiste de um motociclo, ocorrido ao final da noite de terça-feira, na Ponte 25 de Abril, sentido Sul-Norte, causou a morte de um subchefe de 2.ª classe do Regimento de Sapadores Bombeiros (RSB) de Lisboa» («Sapadores de Lisboa perdem subchefe», Miguel Curado, Correio da Manhã, 10.09.2026, p. 16).

[Texto 23 669]

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