Léxico: «fórmula de Blackstone»

Devia ser mais conhecida


      Num livro que estou a rever, e não é a primeira vez que a vejo, aparece a fórmula de Blackstone DIREITO princípio jurídico segundo o qual é preferível absolver vários culpados a condenar injustamente um inocente; exprime a ideia de que a protecção dos inocentes deve prevalecer sobre a punição a todo o custo, sendo frequentemente resumido pela máxima inglesa «It is better that ten guilty persons escape than that one innocent suffer» («É preferível que dez culpados escapem a que um inocente sofra») e associado às garantias fundamentais do direito penal moderno.

[Texto 22 995]

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P. S.: O nome deriva de William Blackstone (1723-1780), que formulou esta ideia na sua obra Commentaries on the Laws of England, publicada entre 1765 e 1769.


Léxico: «contacto»

Já vamos atrasados


      «La agencia europea ofreció ayer una rueda de prensa para informar de las últimas novedades sobre un brote cuyo principal desafío no es solo tratar clínicamente los casos de gravedad, hasta el momento, dos personas permanecen ingresadas en la UCI, sino también controlar nuevos contagios. Con un periodo de incubación que puede alargarse hasta los 42 días, la gestión de los contactos se convierte en una carrera de fondo» («Europa descarta mutación, pero anuncia un rastreo agresivo de contactos», Antonio Villarreal, ABC, 14.05.2026, p. 57). 

      Não é apenas agora, devia estar nos dicionários desde 2020, pelo menos. Assim, proponho contacto EPIDEMIOLOGIA pessoa que, no âmbito da vigilância de uma doença transmissível, é identificada como tendo estado exposta a um caso confirmado, provável ou suspeito, ou a material biológico infectante, durante o período de transmissibilidade e em condições susceptíveis de permitir a transmissão do agente infeccioso, podendo ficar sujeita a avaliação de risco, vigilância, testagem, quimioprofilaxia, vacinação, quarentena ou isolamento preventivo.

[Texto 22 994]

Léxico: «cantarina»

Se também existe


      «Quanto a honorários, a pingar certo e pontual, não contasse. Servia-lhe o bilhete para os teatros, para o Lírico? Agora estavam lá umas cantarinas francesas que traziam o Porto doido» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 12).

[Texto 22 993]

Léxico: «arraia-xingu | coral-de-fogo»

Reais, não inventados


      «Mais de uma centena de espécies passaram a integrar a lista brasileira de peixes e invertebrados aquáticos ameaça-dos de extinção. Entre elas estão as de animais endêmicos, como a arraia-xingu (Potamotrygon leopoldi), que só existe no rio que a batiza, e o coral-de-fogo (Millepora braziliensis), que habita o litoral do Nordeste, e também muito populares, como o tambaqui (Colossoma macropomum), comum na culinária amazônica» («Arraia-xingu e tambaqui integram lista de espécies ameaçadas de extinção», Jéssica Maes, Folha de S. Paulo, 11.05.2026, p. A39).

[Texto 22 992]

Léxico: «prisão-escola | prisão-hospital | prisão-oficina»

Do limbo das promessas


      «O EP de Odemira nasceu em 1995, com um infantário, para responder à demanda da população feminina do sul. O antigo sanatório-prisão da Guarda passou a EP feminino em 1998 para receber, sobretudo, mulheres originárias dos distritos da Guarda, de Castelo Branco, de Portalegre e de Viseu. As reclusas foram em 2017 transferidas dali para a extensão do Mondego, que antes servira de centro educativo» («Reclusas do Sul ficam concentradas em Tires e famílias pagam o preço», Ana Cristina Pereira, Público, 11.05.2026, 7h00). 

      O composto «sanatório-prisão» não figura actualmente no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, apesar de remeter para uma série histórica bem documentada na organização penitenciária portuguesa do século XX. Em documentação oficial do Estado Novo, surgem designações como «prisão-escola», «prisão-hospital», «prisão-sanatório», «prisão-asilo» e «prisão-oficina». Curiosamente, a jornalista emprega a forma «sanatório-prisão», e não a designação histórica oficial «prisão-sanatório», usada sistematicamente na classificação penitenciária da época. A inversão dos elementos parece reflectir uma reorganização espontânea da percepção lexical: em vez de uma prisão com funções sanatoriais, o composto passa hoje a sugerir antes um sanatório adaptado à função prisional. Ainda assim, a Porto Editora prepara — promete: «brevemente disponível» — o acolhimento das formas históricas «prisão-escola», «prisão-hospital» e «prisão-oficina», o que reforça a legitimidade lexical e documental de «prisão-sanatório» e «prisão-asilo», igualmente atestadas na terminologia penitenciária portuguesa.

[Texto 22 991]

Léxico: «rafaélico»

Pois tens — em bilingues


      «O Lima, emoldurado acima da cidade num caixilho de verdura, sem grande relevo mas duma nitidez e encanto pré-rafaélico, deixou-o quase indiferente» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 250).

[Texto 22 990]

Definição: «remontada»

No mundo fabuloso do futebol


      Andava há muito tempo para propor à Porto Editora a dicionarização de «remontada». Ontem, quando a ouvi, mais uma vez, na rádio, meti mãos à obra, mas levei com um balde de água fria: já estava no dicionário! Não está, porém, tudo perdido, já que me parece que a definição é demasiado extensa: «situação (sobretudo num contexto desportivo) em que alguém consegue passar para uma situação de vantagem face ao seu oponente após ter estado em posição adversa ou em desvantagem; reviravolta, virada». Para uma coisa tão simples, é gastar munição. Muito palavrosa. Assim, proponho remontada DESPORTO recuperação espectacular de uma desvantagem no marcador, quando a derrota parecia certa, sobretudo no futebol. 

      Omito a sinonímia final da Porto Editora por duas razões: porque não me parece bem explicar um termo castelhano (está bem: já português quando o estamos a dicionarizar) com um termo brasileiro e porque a própria Porto Editora, embora erradamente, o que dicionariza é «de virada».

[Texto 22 989]

Definição: «alquerque»

Um pedacinho de História


      «Los tableros de juego grabados sobre piedra constituyen uno de los testimonios más curiosos y menos conocidos de la cultura material medieval. Entre ellos destaca el alquerque, un diseño geométrico ampliamente documentado en iglesias, monasterios, castillos y edificios históricos de toda la Península Ibérica. Aunque tradicionalmente se han interpretado como simples juegos utilizados durante los momentos de ocio en el periodo deconstrucción del edificio, investigaciones recientes han demostrado que muchos de estos grabados poseen una dimensión más compleja relacionada con el simbolismo, la protección y la propia concepción medieval del espacio sagrado» («El alquerque, algo más que un juego», Marisa Bueno, La Razón, 13.05.2026, p. 51). 

      Ou seja, temos aqui uma riqueza que os dicionários não nos deixam sequer entreadivinhar. Assim, proponho ➠ alquerque antigo jogo de estratégia de origem árabe, jogado por dois participantes num tabuleiro de linhas intersectadas, geralmente com doze peças para cada jogador, movidas entre pontos adjacentes e capturadas por salto; conheceu ampla difusão medieval na Península Ibérica e é considerado o antecedente histórico directo das damas. 

      Quanto à etimologia, vem do árabe hispânico alqírq, e este do árabe clássico qirq, designação de um jogo de estratégia difundido na Península Ibérica medieval.

[Texto 22 988]

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