Etimologia: «lemiste»

Quase uma história


      «Quando se foi embora, esqueceu-se dum colete. Um colete, àquela altura dos tempos, de fino lemiste, largas golas e largo decote, com abotoadura de madrepérola incrustada em prata ou oiro, era uma peça sumptuosa de vestiaria» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 252). 

      Infelizmente, a melhor parte, a mais interessante, da etimologia desta palavra é omitida pelos nossos dicionários. Não sei onde querem que os falantes vão saber. Do castelhano lemiste, «pano preto de lã», do inglês antigo lemster, e este de Lemster, grafia arcaica de Leominster, nome da cidade inglesa, no Herefordshire, onde se fabricava esse tecido.

[Texto 22 727]

Definição: «K»

O uso estendeu-se


      No Correio da Manhã de sexta-feira, eram dois os casos: a corrida para festejar os vinte anos do El Corte Inglés de Gaia-Porto e, duas páginas mais à frente, a Lisbon EcoMarathon. Em ambos os casos, sempre as distâncias foram indicadas com o uso do K: corrida 10K, caminhada 7K, 42K, 21K, 13K. E não, não me parece que a Porto Editora tenha razão: «coloquial (principalmente falando de dinheiro) mil ⟨Isso vale 3K€⟩». 

      Esse uso há muito que se autonomizou claramente do domínio monetário. O K como símbolo de «mil» vem, em última análise, de «quilo-» (do grego khílioi, «mil»), mas a sua difusão recente deve-se sobretudo aos ambientes digitais: primeiro em métricas de plataformas (subscritores, seguidores, visualizações), depois generalizando-se a outros contextos quantificáveis. Assim, proponho ➜ K informal símbolo usado para representar mil (10³), posposto a numerais para indicar quantidades arredondadas ou de grandeza, em contextos não técnicos, nomeadamente em métricas digitais (subscritores, seguidores, visualizações) e em designações convencionais de distâncias desportivas (10K, 21K, 42K). ⟨O canal já tem 15K subscritores⟩ ⟨Prova de 10K realiza-se ao fim da tarde⟩.

[Texto 22 726]

Definição: «sobremortalidade»

Também o risco


      «Entendre “Happy Birthday to you” aurait donc bien un avant-goût de “Destination Finale”. Cela gâche un peu la fête? Qu’on se rassure quand même, la surmortalité observée chez celles et ceux qui franchissent un an de plus “reste modeste, bien qu’elle soit statistiquement significative”, relève Christophe Büla, professeur honoraire de l’Université de Lausanne et chef du Service de gériatrie du CHUV entre 2007 et 2023» («C’est lors de notre jour d’anniversaire qu’on risque le plus de mourir», Nicolas Poinsot, 24 heures, 28.03.2026, p. 28). 

      Isto está tudo certo, mas acontece que a definição de «sobremortalidade» nos nossos dicionários não dá conta do recado, já que só se refere a fenómenos colectivos e a picos grandes. Assim, proponho ➜ sobremortalidade DEMOGRAFIA, EPIDEMIOLOGIA excesso de mortes ou aumento do risco de morte, verificado num dado período, situação ou condição específica, em relação ao valor esperado com base em dados de referência, podendo exprimir-se em termos absolutos ou relativos.

[Texto 22 725]

Definição: «prefeitura»

Nada justifica essa distinção


      «Mas tanto Iwo Jima (também conhecida por Iwoto) como Minamitorishima pertencem à subprefeitura de Ogasawara, composta por cerca de 30 ilhas, que é administrada pelo Governo Metropolitano de Tóquio» («Japão vai instalar mísseis antinavio em ilha do Pacífico», António Saraiva Lima, Público, 30.03.2026, p. 18). 

      Eu é que não percebo porque é que a Porto Editora tem duas acepções, e nem sequer seguidas, de «prefeitura» no sentido de subdivisão administrativa. O leitor sabe? Parabéns, é muito mais esperto do que eu. Tudo podia ser resolvido com uma só acepção — afinal não se trata do mesmo? Ou separamos o que é igual e juntamos o que é diferente? Proponho então ➜ prefeitura ADMINISTRAÇÃO subdivisão administrativa de um território, de nível e competências variáveis conforme o país, geralmente dirigida por um prefeito; pode designar quer a circunscrição em si quer o conjunto dos serviços administrativos que nela funcionam e, por extensão, o edifício onde esses serviços estão instalados; em certos contextos históricos ou específicos, designa também o cargo ou a jurisdição do prefeito.

[Texto 22 724]

Definição: «peixinho-da-horta»

Isso era dantes


      No sábado, comi peixinhos-da-horta, que estavam óptimos. Eu sei, não têm nada que ver com isso. Mas talvez a Porto Editora tenha porque define assim este acepipe: «CULINÁRIA petisco preparado com feijão-verde envolto em polme e frito em óleo a temperatura elevada». Era assim antigamente, era, agora é mais desta maneira ➜ peixinho-da-horta CULINÁRIA petisco constituído por vagens de feijão-verde envoltas em polme e submetidas a cozedura rápida que lhes confere textura estaladiça, tradicionalmente por fritura em óleo, mas também por outros métodos como forno ou fritadeira de ar.

[Texto 22 723]

Léxico: «patarrega»

É a terriola, o lugarejo


      «De forma que Sebastião, um dia, depois de haver consultado o seu donguinha, que é o bom diabo familiar de cada um, presentes as duas mulheres e ambas em silêncio segundo a subalternidade que era de lei observarem com os maridos ao tempo e na patarrega, disse para o genro» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 154). Pois é, mas está na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

[Texto 22 722]

Léxico: «efeito de Coriolis»

Pelo contrário


      No programa E o Resto É Ciência, na Rádio Observador, Miguel Miranda, geofísico que foi presidente do IPMA durante dez anos, no episódio de ontem mencionou o ➜ efeito de Coriolis FÍSICA desvio aparente da trajectória de um corpo em movimento quando observado num sistema em rotação; resulta da rotação desse sistema e manifesta-se perpendicularmente à direcção do movimento, sendo responsável, por exemplo, pelo desvio de ventos e correntes na Terra. 

      Até pode ser um fenómeno complexo, mas a definição não tem de ser complexa, ou intrincada, ou impenetrável para o leigo. Pelo contrário.

[Texto 22 721]

Léxico: «água mineral»

Não é o que diz a legislação


      «Mineral water is water that naturally contains dissolved minerals and trace elements. It comes from a protected underground reservoir, like a spring or aquifer, and has a specific composition of minerals. Unlike ordinary tap water, which treatment plants produce by filtering and purifying water drawn from rivers or groundwater, mineral water retains the natural minerals it has acquired from geological processes it has been a part of over years, decades or even centuries» («What is mineral water and how does it naturally contain dissolved minerals?», Vasudevan Mukunth, The Hindu, 26.03.2026, p. 9). 

      Todos a bebemos, ninguém a define bem. Os dicionários não a definem bem. Para a Porto Editora, é a «água natural com elevada percentagem de substâncias minerais em dissolução, utilizada geralmente para fins terapêuticos». Seria como definir Coca-Cola como bebida terapêutica. O próprio artigo lembra que, nalguns países, a designação «água mineral» depende de critérios legais específicos. Ora, também entre nós, por via da legislação europeia, essa designação não é livre: exige origem subterrânea protegida, pureza natural e composição estável. Não basta, portanto, ter «muitos minerais», nem muito menos servir supostos «fins terapêuticos». Pelo que proponho ➜ água mineral água de origem subterrânea, proveniente de nascente natural ou captada em aquífero protegido, naturalmente pura à saída e caracterizada por uma composição mineral própria e estável ao longo do tempo, resultante da dissolução de sais minerais durante o seu percurso geológico, distinguindo-se da água potável comum por essa identidade hidroquímica.

[Texto 22 720]

Arquivo do blogue