Léxico: «cadouço»

Desta vez, foram às origens

      
      Este fim-de-semana, um adolescente de 15 anos morreu afogado na ribeira do Cadouço, no concelho de Loulé. Repórter Helena Figueiras no Telejornal de ontem: «A ribeira do Cadouço nasce a norte de Loulé e passa debaixo da cidade através de um túnel. Com o Verão, o mais certo é secar, mas percebe-se o nome. “Cadouço” quer dizer esconderijo de peixes grande e profundo, uma cavidade no rochedo.»

      Exactamente. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista que cadouço é um regionalismo e significa «escondeijo (de peixes) grande e profundo». Para o dicionário de Cândido de Figueiredo, é o «aloque vasto e fundo». (E «aloque» o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista.) Em castelhano existe cadozo, remoinho que fazem as águas, considerado por alguns autores o étimo do nosso «cadouço».

[Texto 2984]

Tradução: «release»

É deles que tenho pena

      Miguel Soares, jornalista da Antena 1: «Esta notícia [de os serviços de informação britânicos terem espiado os trabalhos da Cimeira do G20 em 2009, realizada em Londres] é libertada, ainda por cima, a poucas horas de o Reino Unido acolher a Cimeira do G8.»
      Como nos dicionários bilingues «soltar, libertar, largar» costuma ser a primeira acepção de to release, vá de largar a asneira. Pobres ouvintes, vão desaprender o pouco que aprenderam.
[Texto 2983]

Léxico: «arquiavô»

Os nossos arquiavôs merecem melhor

      «Mas, por entre as estantes, espreitavam com afectuosa curiosidade retratos de família — desde o retrato a óleo de um arquiavô até o retrato a pastel de uma menina de seus onze anos, com as faces magras sumidas entre catadupas de cabelos louros» (Cinza do Lar, João de Araújo Correia. Régua: Imprensa do Douro Editora, 1970, p. 118).
      Arquiavô: ascendente, antepassado, antigo. Falta, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Não falta na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.
[Texto 2982]

Infeliz verbo «haver»

Nem queremos acreditar

      Sílvia Machado, engenheira da DECO, responsável pela área alimentar, a propósito do bacalhau com natas que afinal tem peixe-caracol: «Nós temos, enquanto DECO, alguma preocupação nesse sentido, dado que, com a crise que se vive, provavelmente haverão mais casos que irão acontecer.»
[Texto 2981]

«Estadio»!

Imitar maus modelos

      Jornalista Carla Costa, no noticiário das 10h00 na Antena 1: «Um estudo revelou recentemente que no primeiro estadio da doença, em 60 % dos casos o Tamafidis é totalmente eficaz; em 40 % das situações, atrasa o desenvolvimento da paramiloidose [doença dos pezinhos].» Como os médicos, vá-se lá saber porquê, falam assim, os jornalistas acham que os devem imitar.
[Texto 2980]

Depois do «ayatollah» o «hodjatolislam»

Quase um curso de Teologia

      «Nascido numa família de opositores ao Xá, Rouhani estudou Teologia em Qom, mas fez o doutoramento em Direito na universidade de Glasgow, na Escócia. Grande apoiante do ayatollah Khomeini, o hodjatolislam – abaixo de ayatollah na hierarquia do clero xiita – chegou a ser preso por criticar o xá e defender os ideias da Revolução Islâmica em 1979» («Um ‘xeque diplomata’ para levar moderação ao Irão», Helena Tecedeiro, Diário de Notícias, 16.06.2013, p. 33).
      Hodjatolislam. Esta é nova, pelo menos para mim. Quanto ao mais, a jornalista não sabe bem onde há-de usar as maiúsculas, e por isso nem sempre acerta.
[Texto 2979]

Como fala o PR

Segundo o cínico Alberto

      «Votei em Cavaco Silva para a presidência. Duas vezes. Dadas as alternativas, ainda não me arrependi. Convinha era que o prof. Cavaco não forçasse a nota. Mesmo que os seus antecessores não fossem estetas da língua, as recentes inovações lexicais do “fazerei” e dos “cidadões” confundem» («Ninguém ensina os professores?», Alberto Gonçalves, Diário de Notícias, 16.06.2013, p. 55).
[Texto 2978]

Léxico: «amansardado»

Mas não o verbo

      «O hotel então viabilizado terá seis pisos acima do solo (como tinha o projecto de Cassiano Branco), mais o piso amansardado na zona da cobertura e três pisos subterrâneos» («Prédio de Cassiano Branco demolido em violação do projecto aprovado», José António Cerejo, Público, 15.06.2013, p. 12).
      Sim, eu sei que «mansarda» vem do francês, mas não é disso que vou tratar. «Amansardado» pressupõe o verbo «amansardar»? Talvez, mas deste nem rasto.
      «Elas tinham vivido perto uma da outra e contemplado juntas a cena de Judite e Holofernes. Miss Cossart, à noite, no dormitório amansardado, tinha medo de Judite e dos seus olhos cheios de fogo» (A Corte do Norte, Agustina Bessa-Luís. Lisboa: Guimarães Editores, 1987, p. 99).

[Texto 2977]

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