Assim se escreve nos jornais

Nada de novo

      Ainda me enganaram durante cinco minutos. No Correio da Manhã lê-se que Eusébio tem estado internado no «Hospital Odozial Ratunkowi, em Poznan». Trapalhada. Szpitalny Oddział Ratunkowy — é assim que se escreve — significa «urgência hospitalar» em polaco. Como é natural, há urgências em vários hospitais. O Pantera Negra, que devia ter ficado em casa, está internado no Wielospecjalistyczny Szpital Miejski im. Józefa Strusia (Hospital Municipal Multidisciplinar Jozef Strus).
[Texto 1731]

Assim se fala na Selecção

Sem (mais) comentários

      Em declarações à imprensa, Henrique Jones (nas legendas do Jornal da Tarde de ontem, contudo, lia-se «Enrique Jones»), médico da Selecção, afirmou: «E portanto [os médicos em Poznan] acham por bem que ele deva ser evacuado num avião aeromédico.» E pronto, lá temos o legendarny Eusebio w szpitalu w Poznaniu.
[Texto 1730]

Plural de «campus»

Vejam lá isso

      Não sei quê, tal, «em campus universitários». O plural de campus, porém, é campi. Plural abominável, exclamam certas almas sensíveis. O vocábulo chegou-nos através do inglês, logo, argumentam outros, o plural não se faz como na língua latina. Se consultarmos o Vocabulário Ortográfico Português, lá está: «singular: campus; plural: campus». E depois, na última linha, naquela linguagem alienada de máquina (que Turing me desculpe): «estrangeirismo de latim». Estou esclarecido.
[Texto 1729]

«Moto próprio»

Conforme o mote

      «A história do projeto europeu mostra que a Europa avançou como desafio unitário mais por necessidade do que por mote próprio» («Desafio Europa é desafio global», Nilza Mouzinho de Sena, Público, 25.06.2012, p. 47).
      Já temos visto este erro aqui e ali. Neste caso, é menos desculpável, pois o texto onde aparece é da autoria de uma doutora em Ciências Sociais. Em português, é de (ou por) moto próprio. Em latim, donde provém, é motu proprio­ — sem preposição.
[Texto 1728]

«Aguarda-se conclusões»!

Aguardam-se notícias

      João Adelino Faria no Telejornal de ontem: «Esta reunião de todos os governantes terminou há minutos. Aguarda-se a qualquer minuto, então, as conclusões desta reunião, em domingo, do Governo.»
      Vamos pôr o duque de Palmela a ensinar-lhe como deve ser: «Não se perdeu ainda a esperança de induzir os turcos a retractarem-se das ameaças contidas no seu manifesto, e de ter mão por outro lado na Rússia; e aguardam-se ansiosamente as primeiras comunicações de S. Petersburgo» (Despachos e Correspondência do Duque de Palmela, tomo III, coligidos por J. J. dos Reis e Vasconcellos. Lisboa: Imprensa Nacional, 1854, p. 433 [ortografia actualizada por mim]).
[Texto 1727]

Plural: «néon»

Mehr Licht!

      Não sei quem foi, e talvez nem um rigoroso inquérito fosse concludente, mas não aceitou o plural «néones». Quer «néons». Vá para o Brasil e escreva «neons», o mais aproximado. Rebelo Gonçalves, na segunda coluna da página 704 do seu Vocabulário da Língua Portuguesa: «néon, s. m. Pl.: néones.»
      «Tudo numeroso: os néones intermitentes, as letras que escorrem dos lumes coloridos, o frio pesado» (Gente Feliz com Lágrimas, João de Melo. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2003, 17.ª ed., p. 332).

[Texto 1726]

Tradução: «watering hole»

No buraco

      O jornalista descrevia então «the trendiest watering holes» daquela cidade. O tradutor, alguém, aposto, como o leitor e como eu, com duas pernas, dois braços e uma cabeça, verteu assim: «descreveu os furos mais em voga». O Dicionário Merriam-Webster, por exemplo, define a locução como «a social gathering place, such as a bar or saloon, where drinks are served».
[Texto 1725]

Ainda ontem

Um erro valente

      «Agora, a mais de meio caminho, talvez seja a altura para falar das perplexidades que me trouxe o Euro 2012. Não que não tenha visto os jogos de Portugal com um relativo prazer e até com uma certa ansiedade; e não também que não se tenha já escrito centenas de páginas sobre o assunto» («Rir ou chorar?», Vasco Pulido Valente, Público, 23.06.2012, p. 56).
      É melhor chorar. Se até Vasco Pulido Valente já escreve assim, que nos resta nesta triste vida? Qual padre António Vieira... Pode ser o cunhado de Jorge de Sena a responder: «Com efeito, e em que pese a todas as Imitações de Cristo que se tenham escrito ou exemplarmente vivido, nem mesmo um crente católico pode considerar como sendo já definível um Modelo acabado (ou, em termos psicanalíticos, um Superego) daquela plenitude humana moral e estética acessível a qualquer pessoa, quando as próprias estruturas de relação social humana permanecem instáveis, sabe-se lá por quantos séculos ainda» (Entre Fialho e Nemésio, Óscar Lopes. Lisboa: INCM, 1987, p. 534).
[Texto 1724]

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