Definição: «absinto | absintismo» Léxico: «tujona»

Falhas e faltas

      «L’histoire raconte que l’idée de faire macérer l’Artemisia absinthium dans de l’alcool revient à une figure locale, la Mère Henriod. Raphael Gasser, directeur de la Maison de l’absinthe, note qu’il n’y avait pas de réelle exclusivité. D’autres artisans en faisaient de même. [...] L’absinthisme est traité comme un syndrome clinique en soi. Le vent de la prohibition se lève. Un familicide survenu à Commugny (VD) en 1905 et attribué à la thuyone (la molécule signature de l’absinthe) achève de diaboliser l’eau-de-vie» («Ce Pernod que la fée verte a offert à la France», Stéphane Gachet, Le Temps, 8.08.2026, p. 13). 
      A definição de «absinto» da Porto Editora, de todos os dicionários, contém várias imprecisões, erros e lacunas. O primeiro erro é desde logo, quanto à bebida, afirmar-se que é feita com folhas, quando são usadas folhas basais, sumidades floridas com algumas folhas, ou uma mistura destes órgãos, secos, inteiros ou cortados. Primeiro, mas não último. Assim, proponho ➠ absinto 1. BOTÂNICA (Artemisia absinthium) planta herbácea perene da família das Asteráceas, nativa da Europa, da Ásia temperada e do Norte de África, muito aromática e de sabor intensamente amargo, com caules ramificados, folhas verde-acinzentadas profundamente recortadas e pequenos capítulos florais amarelos, cujo óleo essencial contém tujona, usada em preparações medicinais e no fabrico de bebidas espirituosas; alosna, losna, sintro; 2. bebida espirituosa de elevado teor alcoólico, tradicionalmente obtida pela maceração e destilação de absinto, anis-verde, funcho e outras plantas aromáticas, de sabor predominantemente anisado, incolor ou verde e com teor variável e legalmente limitado de tujona. 
      Na definição de «absintismo», o problema é outro, e mais grave. A segunda acepção apresenta como facto uma entidade clínica cuja existência autónoma está desacreditada. No século XIX, atribuíam-se à tujona do absinto convulsões, alucinações, perturbações mentais e outros efeitos específicos. Porém, não há provas de que o absinto histórico contivesse tujona em quantidade suficiente para produzir semelhante quadro. Assim, proponho ➠ absintismo nome masculino 1. consumo habitual e excessivo de absinto; 2. HISTÓRIA DA MEDICINA conjunto de perturbações nervosas, psíquicas e digestivas outrora atribuído especificamente ao consumo excessivo de absinto, mas hoje considerado manifestação da intoxicação alcoólica aguda ou crónica, e não uma doença distinta do alcoolismo. (Quanto à etimologia, vem do francês absinthisme, «idem».) 
      E, finalmente, a lacuna, ➠ tujona nome feminino QUÍMICA cetona monoterpénica bicíclica (C₁₀H₁₆O), existente principalmente sob as formas alfa e beta, que ocorre nos óleos essenciais de plantas como a tuia, o absinto e a salva e que, em doses elevadas, actua sobre o sistema nervoso central, podendo provocar convulsões. (Quanto à etimologia, vem do francês thuyone, «idem», derivado de thuya, «tuia».)

[Texto 23 815]
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