Definição: «chicha» | Léxico: «milho-roxo»
4.11.26
Não têm grande ajuda, diga-se
«Na origem da situação de extrema violência esteve, sabe o CM, o consumo excessivo, por parte dos dois reclusos, de chicha. Trata-se de uma espécie de bagaço, feita de forma artesanal com diversas frutas» («Espanca companheiro de cela após beber chicha», Miguel Curado, Correio da Manhã, 4.11.2026, p. 15).
É claro que o jornalista escreve de outiva: o bagaço é aguardente destilada, e «feita com diversas frutas» descreve uma fermentação. Ou o jornalista não sabe o que é bagaço, ou não sabe como se faz a chicha. Tudo indica que recolheu a informação em segunda mão e lhe juntou uma comparação de efeito. Pode ter colhido a informação no dicionário da Porto Editora: «bebida alcoólica de fabrico artesanal, obtida pela fermentação de determinados cereais, raízes, sementes (milho, mandioca, etc.) ou frutas». Só que lhe falta uma acepção, e, sem ela, o dicionário não serve precisamente quem mais o consulta por causa desta palavra. São bebidas diferentes, a da América do Sul e — com este mesmo nome — a das cadeias portuguesas e espanholas, como as da América hispânica.
De volta à definição da Porto Editora, diga-se que apresenta várias deficiências. Desde logo, restringe indevidamente o vocábulo a uma bebida alcoólica, quando existem variedades não alcoólicas e não fermentadas, como a chicha morada, preparada com milho-roxo. Também a referência ao fabrico artesanal é demasiado restritiva, pois a bebida é também produzida comercialmente. A enumeração das matérias-primas é confusa, misturando cereais, raízes e sementes, com exemplos cuja correspondência com essas categorias não é esclarecida. Falta ainda uma indicação geográfica que permita situar esta bebida tradicional da América Central e do Sul. Mais importante ainda, o dicionário omite a acepção documentada na imprensa portuguesa e na gíria prisional: a bebida alcoólica que os reclusos produzem clandestinamente nas cadeias, por fermentação de cascas de fruta, açúcar, pão ou outros alimentos. Esta acepção, também associada à grafia xixa, justifica um registo autónomo. Por último, a nota etimológica apresenta como certa uma origem que permanece discutida. Será mais prudente indicar que o vocábulo provém do castelhano chicha, de origem ameríndia, talvez da língua de Cueva, falada no território do actual Panamá.
Assim, proponho ➠ chicha nome feminino 1. bebida tradicional da América Central e do Sul, geralmente fermentada e alcoólica, obtida a partir de milho ou de outros cereais, de raízes (como a mandioca) ou de frutos; designa também bebidas semelhantes não fermentadas, como a chicha morada, de milho-roxo; 2. gíria prisional bebida alcoólica que os reclusos produzem clandestinamente nas cadeias, por fermentação de cascas de fruta, açúcar, pão ou outros alimentos. (Do castelhano chicha, de origem ameríndia, talvez da língua de Cueva, Panamá.)
[Texto 23 813]
edit
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