Definição: «bruxo | bruxa»

Ganham as mulheres

      Porque é que, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, um bruxo é simplesmente «aquele que faz bruxarias», ao passo que uma bruxa é uma «mulher a quem se atribuem capacidades sobrenaturais de origem demoníaca que, supostamente, lhe permitem prever o futuro, causar malefícios, produzir encantamentos, etc.»? Terão os bruxos perdido os seus poderes sobrenaturais, ou serão as bruxas as únicas que os conservam? E há ainda outro problema: a definição de «bruxo» é praticamente circular, pois limita-se a remeter para uma palavra da mesma família, «bruxaria», enquanto a de «bruxa» é desenvolvida e minuciosa. Ora, bastaria substituir «mulher» por «homem» nesta última para obter uma definição igualmente válida de «bruxo». A imagem tradicional da bruxa, com o seu chapéu pontiagudo, a vassoura e o gato preto, foi-se formando ao longo dos séculos. A mais antiga representação conhecida de uma bruxa a voar numa vassoura encontra-se num manuscrito de 1451 de Le Champion des Dames, do poeta francês Martin Le Franc. A associação aos gatos pretos consolidou-se durante as perseguições por bruxaria na Europa, sobretudo entre os séculos XV e XVII, quando se acreditava que estes animais podiam servir de auxiliares sobrenaturais das bruxas. Quanto ao chapéu pontiagudo, a sua origem é mais incerta, havendo várias explicações possíveis. Seja como for, esta tradição iconográfica acabou por fixar uma imagem predominantemente feminina da bruxaria. Mas não parece haver razão para que essa diferença histórica e cultural se traduza numa diferença tão acentuada entre as definições de «bruxo» e «bruxa». Pois bem, Porto Editora, fica-te com esta: a primeira pessoa de que há notícia ter confessado que voara numa vassoura foi um homem. Chamava-se Guillaume Edelin, era sacerdote francês e corria o ano de 1453. É verdade que a confissão foi obtida sob tortura, mas isso já é outra história. Que fica para outro dia ou para nunca.
[Texto 23 801]
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