Por acaso não
«A história começa com um daqueles interesses, surgidos ninguém sabe de onde, por um pintor de naturezas-mortas. Um tal de Pieter Claesz (1597-1660), ativo a partir de 1620 em Haarlem (a cidade holandesa, não o bairro de Nova-Iorque)» («Trivialidades de um amante de livros», José Cabrita Saraiva, «Versa»/Nascer do Sol, 6.11.2026, p. 46).
Esperemos que não escreva assim por convicção. Pelo sim, pelo não, recordemos a regra, estabelecida na alínea a) do n.º 2 da Base XV do Acordo Ortográfico de 1990: «Emprega-se o hífen nos topónimos compostos, iniciados pelos adjetivos grã, grão ou por forma verbal ou cujos elementos estejam ligados por artigo.» Ora, Nova Iorque não se enquadra em nenhuma destas situações. Escrevia-se sem hífen antes do AO90 e continua a escrever-se sem hífen depois dele. A alínea b) do mesmo número estabelece, contudo, uma excepção: «Os topónimos compostos que não se enquadram na regra anterior e que, por tradição, se escrevem com hífen, como Guiné-Bissau, mantêm o hífen.»
[Texto 23 827]
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P. S.: A frase logo a seguir era esta: «Claesz especializou-se num género conhecido pela estranha designação de ontbijtjes, que poderíamos traduzir por ‘banquetes’.» Não poderíamos. Ontbijtje é o diminutivo de ontbijt, «pequeno-almoço»: na pintura, designa naturezas-mortas que representam refeições ligeiras, com pão, queijo, arenque e um copo de vinho ou cerveja. Os «banquetes» são os banketjes (à letra, «banquetezinhos»), geralmente mesas mais fartas, com ostras, crustáceos, fruta e peças de prata. Claesz pintou uns e outros. Por sinal, o quadro escolhido para ilustrar a crónica parece representar precisamente um banquete, não um pequeno-almoço.
P. P. S.: Um amante de livros devia saber que a expressão lidimamente portuguesa é «um tal», não «um tal de», construção caracteristicamente brasileira.
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