Léxico: «corrilório»

Correria, tropel de pessoas


      «Assim pôde aproveitar-se duma brecha e despedir no meio do corrilório de povo que acudia “ao matadouro”» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 356).

      Se não acolhermos nos dicionários estes termos, dentro de pouco ninguém conseguirá ler com total proveito estes autores. E temos de nos apressar.

[Texto 22 783]

Definição: «glúten»

Mais claro e informativo


      Há um aspecto da máxima importância omitido na definição de «glúten»: quanto mais cozido o pão estiver, menos glúten terá. Essa e outras melhorias levam-me a propor ➜ glúten mistura viscosa de proteínas de reserva (gliadina e glutenina) presente no endosperma de certos cereais, como o trigo, a cevada e o centeio, que forma uma rede proteica responsável pela elasticidade, coesão e retenção de gases nas massas panificáveis, determinando a sua textura; a sua proporção e estado influenciam o grau de firmeza ou maciez do pão, sofrendo desnaturação e degradação estrutural durante a cozedura; a ingestão pode provocar reacções adversas em indivíduos com intolerância ou doença celíaca.

[Texto 22 782]

Vejam se não erram também

Sô Josino sabia


      «Durante muitos anos, uma das principais ocupações daquele advogado aposentado [Josino Ismar de Conti Pereira] era ler os jornais à procura de erros. “Onde já se viu escrever ‘zona rural da cidade de...’? Cidade é a parte urbana do município, o certo é ‘zona rural do município’!”, esbravejava Ismar cada vez que encontrava um de seus erros prediletos. Outra diversão era ler dicionários aleatoriamente —o seu preferido era do professor Pasquale Cipro Neto, cuja coluna, quando publicada nesta Folha, era recortada e guardada cuidadosamente» («Escreveu em jornais do interior de SP por 65 anos», Fábio Grellet, Folha de S. Paulo, 17.05.2025, p. A42).

[Texto 22 781]

Definição: «salmão-do-atlântico»

Para perderem o norte


      «Seules 23 des 349 espèces de poissons migrateurs menacées font l’objet de strictes protections dans le cadre de la CMS. Il s’agit notamment de poissons-chats (Mékong, Amazone), de l’anguille européenne et de 19 espèces d’esturgeons – trois autres pourraient être prochainement ajoutés à la liste, dont l’esturgeon de la Baltique, en danger critique d’extinction. Le saumon d’Atlantique pourrait lui aussi bénéficier d’une protection de la CMS si ses populations ne parvenaient pas à rebondir en dépit des efforts de restauration de leurs routes migratoires, notamment en Irlande, France, Grande-Bretagne, Espagne et Portugal» («Près de 350 espèces sous surveillance», Denis Delbecq, Le Temps, 8.04.2026, p. 3). 

      Calha bem sabermos ler. Porto Editora, afinemos (para não ficarmos meramente por corrigir os dois «nortes» minúsculos) a definição, até para explicitar que é uma espécie migradora (sim, eu sei o que significa «anódromo»*), assim ➜ salmão-do-atlântico ICTIOLOGIA (Salmo salar) espécie de peixe anádromo e migradora da família Salmonídeos, distribuída pelo Atlântico Norte, que sobe os rios para desovar, ocorrendo em Portugal em alguns rios do Norte; apresenta corpo alongado, podendo atingir cerca de 1,5 m de comprimento, com pequena barbatana adiposa entre as barbatanas dorsal e caudal e manchas escuras na parte superior do corpo; carne rosada, muito apreciada comercialmente.

[Texto 22 780]


* É que «migrador» é um termo geral, ao passo que «anádromo» designa especificamente as espécies que vivem no mar e sobem os rios para se reproduzir, pelo que não há redundância entre ambos.


Etimologia: «região»

Para dizer um pouco mais


      «Certains élus voudraient que l’Alsace redevienne une région autonome. Le mot vient du verbe latin regere, qui signifie diriger» («Région», Étienne de Montety, Le Figaro, 8.04.2026, p. 33). 

      O mesmo é dizer que os dicionários, ao indicarem que «região» vem do latim regiōne-, «idem», pouco adiantam. Assim, proponho ➜ do latim regio, -onis, «direcção, linha traçada, território delimitado», e este de regere, «dirigir, governar; traçar em linha recta».

[Texto 22 779]

Léxico: «kernel | núcleo»

O sistema foi-se abaixo


      Na terça-feira, vi na RTP2 o primeiro episódio da série francesa Na Sombra (Dans L’Ombre), de Pierre Schoeller e Guillaume Senez. A primeira cena passa-se no 1.º de Dezembro de 2024 e decorre numa sala de guerra (aparece mesmo uma folha colada na porta: «War room»), onde uma equipa de informáticos e assessores acompanha o escrutínio para as primárias do Partido Conservador. Às tantas, o sistema vai-se abaixo. «On perd le kernel.» «Estamos sem kernel», diz um dos informáticos. E o termo inglês até aparece em itálico nas legendas, extraordinário. Infelizmente, apesar de ser um termo comum no campo da informática, não o vamos encontrar nos nossos dicionários. Não está na Infopédia, por exemplo. Encontramos lá, isso sim, o termo sinónimo português núcleo, muito menos usado: «INFORMÁTICA componente básico de um sistema operativo, que assegura a interacção desse sistema com outros programas e com o hardware do dispositivo». Só que «componente básico» é vago e pode induzir em erro: parece sugerir uma peça essencial do hardware (como o processador ou a memória), quando na verdade se trata da camada central de gestão do sistema operativo. 

      Assim, sugiro, com a recomendável remissão mútua, ➜ kernel/núcleo INFORMÁTICA parte central do sistema operativo que gere os recursos do sistema (memória, processos, dispositivos) e assegura a comunicação entre o hardware e o software

      Voltando às legendas, o tradutor/legendador, Karim Vieira Mesmoudi, devia ter optado por «núcleo» ou, até melhor: «O sistema foi-se abaixo.» Fidelidade como princípio absoluto, só nas relações conjugais e outras que tais, não na tradução.

[Texto 22 778]

Léxico: «glicirrízico | desglicirrizado»

Raiz doce


      Sabiam que o alcaçuz é rico em ácido glicirrízico? E sabiam que alguns dicionários não registam o termo? Vai daí, proponho ➜ glicirrízico QUÍMICA que diz respeito ou é relativo ao ácido glicirrízico ou aos seus derivados; que contém ou é constituído por glicirrizina, saponina triterpénica extraída sobretudo da raiz do alcaçuz (Glycyrrhiza glabra), com propriedades edulcorantes e actividade biológica diversa, nomeadamente anti-inflamatória e expectorante. 

      Para quem sofre de hipertensão arterial, o melhor é passar pelo Celeiro e comprar uma embalagem de alcaçuz desglicirrizado. Por menos de 20 euros, vai sair de lá satisfeito. Ora, de nada, por quem sois. A propósito, quem sois mesmo? Há-de haver de tudo, como em todos os lados: bons, maus e simplesmente desprezíveis, e estes sempre louvaminheiros e sevandijas, para assim alcançarem os seus baixos objectivos. Bem, mas que se lixe, desde que eu não lhes ponha os olhos em cima...

[Texto 22 777]

Definição: «jovem»

Olhemos para isto como deve ser


      «“El uso tan restringido de ‘joven’ (para una franja que ahora se define mejor como adolescente) supone una limitación importante a la hora de aportar información”, afirma Javier Salas, redactor jefe de Sociedad. “Se produce un cortocircuito entre lo que expresa esa palabra según el Libro de estilo y lo que entiende ahora el lector, que con seguridad amplía hasta los 30 la horquilla de años que engloba el término”» («“Joven” se expande y “anciano” ofende», Soledad Alcaide, El País, 5.04.2026, p. 16). 

      No caso, é tão-só o cumprimento do livro de estilo do jornal que está em causa, que estabelece que jovem é a pessoa que tem entre 13 e 18 anos. Ora, muito mudou nos últimos quarenta anos, e agora já não é assim. Nas sociedades modernas ocidentais, a alguém que tem entre 13 e 18 anos mais comummente chamaremos adolescente, e jovem será da maioridade até à plena maturidade, o que agora, consensualmente, estará próximo dos 30 anos. Quando não mais. Ainda anteontem de manhã, na Rádio Observador, a propósito das negociações dos Estados Unidos com o Irão, que vai contar com a participação do vice-presidente dos EUA, Francisco Proença Garcia augurava um bom futuro para J. D. Vance, porque é «um jovem». Tem 41 anos. É este conceito actualizado, mais sociológico do que linguístico, que está arredado dos nossos dicionários, e ninguém ganha nada com esse imobilismo. Acrescente-se também que a União Europeia, por exemplo, define frequentemente «jovens» como as pessoas entre os 15 e os 29 anos, sendo comum, em programas e políticas de juventude, o prolongamento até aos 30 anos. Esta delimitação confirma que o uso de «jovem» não se restringe à adolescência e abrange, de forma estável, o início da idade adulta. 

      Ora, quando um termo ganha densidade sociológica («juventude» como categoria de políticas públicas, de mercado de trabalho, de cultura), a língua não fica à margem: incorpora esse uso e estabiliza-o. Os dicionários não criam a realidade, registam-na. Assim, proponho ➜ jovem pessoa de idade pouco avançada, situada entre o fim da adolescência e a plena maturidade; em uso corrente, abrange geralmente indivíduos até cerca dos 30 anos, podendo este limite variar conforme o contexto; por extensão, pessoa considerada nova numa actividade, grupo ou função, independentemente da idade cronológica.

[Texto 22 776]

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