Léxico: «ecossistema»

Tenho dois


      Vou tendo dois ecossistemas aqui em casa: um da Apple e outro, em crescimento, da Huawei. Apesar de banida do Ocidente pelos EUA, porque temiam a crescente qualidade — não por qualquer outro motivo — dos produtos e serviços desta empresa chinesa, a Huawei continuou a inovar e a fazer produtos com que supera, em alguns casos, toda a concorrência. Bem, «ecossistema», nesta acepção, não está em nenhum dicionário e, contudo, encontramo-la a cada passo. Assim, proponho ➜ ecossistema INFORMÁTICA, ECONOMIA conjunto articulado e interdependente de dispositivos, programas, serviços, plataformas e utilizadores organizados em torno de uma mesma empresa, tecnologia ou ambiente digital, funcionando de modo integrado.

[Texto 22 679]

Definição: «antiteatro | teatro do absurdo»

Um erro absurdo


      No domingo, vi na RTP2 um filme italiano, Obrigado, Rapazes, do cineasta Riccardo Milani, de que gostei molto e tanto. Do que já não gostei nem um pouco foi dos erros na tradução. Ah, già, e come posso astrarre da ciò che sono, dalla mia natura e attività? Antonio Cerami, um actor na casa dos 60, não pisa o palco há mais de três anos. Vive do seu trabalho de locução de filmes porno. («Te piace, porcellona.») Um amigo da onça convida-o para ir dar uma oficina de teatro a uma penitenciária (Casa Circondariale – Nuovo Complesso – Velletri). E ele aceita. Aquilo corre bem, pelo que se oferece para dar uma formação mais longa e muito mais ambiciosa: escolhe À Espera de Godot, que fora precisamente a primeira peça em que ele entrara quando se tornou actor e na qual contracenara com o tal amigo. Ao apresentar a peça ao grupo de reclusos, diz, segundo as legendas: «À Espera de Godot é uma obra-prima do teatro absurdista.» E isto repete-se, outra personagem, um dos reclusos, fala também em «teatro absurdista». Que está errado em português, porque é teatro do absurdo, e em italiano, língua em que se diz teatro dell’assurdo. O termo «absurdista» existe em português, sim senhor, mas pertence ao domínio da Filosofia. Desta vez nem sabemos o nome do legendador/tradutor.

      Na Infopédia, encontramos «teatro do absurdo», mas logo por azar com um erro ortográfico («anti-teatro») e outro, mais grave, conceptual, que é o de apresentar o teatro do absurdo como sinónimo de antiteatro, quando aquele é somente uma das formas de antiteatro. Eu definiria assim ➜ antiteatro TEATRO conjunto de práticas e propostas cénicas que rejeitam ou subvertem deliberadamente as convenções estruturais e estéticas do teatro tradicional, como a intriga coerente, a progressão narrativa, a construção psicológica das personagens ou a ilusão de realidade, privilegiando formas fragmentárias, repetitivas ou não lineares e uma relação crítica com o próprio acto teatral; inclui diversas correntes e experiências do século XX, entre as quais o chamado teatro do absurdo.

      Quanto a ➜ teatro do absurdo TEATRO corrente dramática do século XX que, partindo de uma visão da existência humana como desprovida de sentido ou finalidade, recorre a estruturas não lineares, situações repetitivas, diálogos ilógicos ou circulares e personagens despojadas de profundidade psicológica, frequentemente colocadas em contextos estáticos ou absurdos; desenvolveu-se sobretudo na Europa do pós-guerra, em autores como Samuel Beckett, Eugène Ionesco ou Jean Genet, podendo ser entendido como uma das formas de antiteatro, mas não se confundindo com este.

[Texto 22 678]

Léxico: «pilau | pulau | pilaf(e)»

Prefiro «pilaf(e)»


      «Some of the dishes served here reappear, in simpler form, on Eid tables. A pulao often anchors the meal – sometimes an Afghani-style preparation – served with green chicken rizala (with coriander dominating the dish), mutton korma, kebabs and vegetables. There is no singular “Bhopali biryani”; recipes tend to remain familial, shaped over time» («Proof is in the pulao», Barry Rodgers, The Hindu, 21.03.2026, p. 2). 

      Há dicionários que acolhem as três variantes: pulau, pilaf(e), pilau. A Porto Editora só regista esta última, com esta definição: «CULINÁRIA prato de origem oriental feito com arroz salteado em gordura, a que se acrescenta um caldo bem temperado, legumes, carne, peixe ou marisco». 

     Nunca fiz, mas já vi fazerem arroz pulau, e por indianos, não por alentejanos ou minhotos. A impressão que tenho é que pode haver (não há de tudo?) quem o confunda com arroz chau-chau. Proponho assim ➜ pilau, pulau, pilaf(e) CULINÁRIA prato de origem persa e centro-asiática, amplamente difundido pelo mundo islâmico e além, que consiste em cozinhar arroz previamente envolvido em gordura (manteiga, ghee ou azeite) num caldo temperado, totalmente absorvido durante a cozedura; pode incluir carne, peixe, marisco, legumes, frutos secos e especiarias, variando significativamente conforme a tradição regional.

      Quanto à etimologia, pode e deve dizer-se alguma coisa mais, como isto ➜ do persa pilāu / pulāu, provavelmente por via do turco pilav; remotamente relacionado com o sânscrito pulāka, «bola de arroz cozido».

[Texto 22 677]

Definição: «totalitarismo»

Mas ainda assim


      «Des décennies durant, un terme est parvenu à englober les trois grands régimes de terreur et d’oppression qu’a engendrés le XXe siècle: le totalitarisme. Adossés aux analyses de Hannah Arendt, le fascisme, le nazisme et le communisme s’associaient dans ce terme condensant leur ambition présumée de tenir en coupe réglée les populations à travers un contrôle bureaucratique systématique et doté d’instruments de violence sophistiqués. Ces mouvements furent appelés “totalitaires”, dans la mesure où ils étaient considérés comme mus par la volonté de “posséder” l’individu dans sa “totalité”, dans son comportement et dans sa sphère privée» («Le “totalitarisme”, un concept à oublier?», Olivier Meuwly [jurista e historiador especializado na Suíça do século XIX e nos partidos políticos suíços], Le Temps, 23.03.2026, p. 7). 

      Não é um conceito para esquecer, não senhor, antes para definir melhor nos dicionários. Mas vamos lá com calma, o mundo ainda não acabou e os exemplos só podem ser isso, exemplos, já que o conceito não se esgota neles. Há larga margem para melhorar as definições nos dicionários, mas, apesar de tudo, está mais bem definida nos nossos do que nos dicionários brasileiros. Assim, proponho ➜ totalitarismo POLÍTICA sistema de organização política caracterizado pela concentração absoluta do poder no Estado, geralmente sob a direcção de um partido único e de uma ideologia oficial, que visa controlar e mobilizar a totalidade da vida social — política, económica, cultural e privada — mediante propaganda, vigilância e repressão, exigindo a subordinação integral dos indivíduos e das instituições; historicamente associado a regimes como o fascismo italiano, o nazismo alemão e o estalinismo soviético.

[Texto 22 676]

Léxico: «fraca-chichas»

Fora dos dicionários?!


      «Ainda nesta atitude temos de ver uma forma do compleicional de Camilo: estar sempre pronto a arremeter contra quem se lhe punha pela frente ou lhe lançava a luva. Em artigo de fortaleza, era um fraca-chichas, mas bravura e denodo não lhe faltavam. De ímpeto, para a primeira arrancada, lá estava sempre na dianteira, o contrário do que seria aliás desmentir a sua natureza de comicial» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 226). 

      Tem de figurar em todos os dicionários a par de «fraca-figura» e «fraca-roupa», tanto mais que, quanto a este último, nunca vi que alguém o usasse.

[Texto 22 675]

Léxico: «amazigue»

Segunda passagem


      «A Igreja no Magrebe tem uma história complexa: a fundação, com os primeiros mártires, em finais do século I; a prosperidade entre os séc. II e V, com três papas (Vítor I, Melquíades e Gelásio I), um imperador em Roma (Lício Sétimo Severo) e grandes pensadores, como Tertuliano, todos de origem amazigue; o desaparecimento gradual com a chegada do Islão, entre os séculos VII e VIII; o regresso e a problemática coabitação com o colonialismo francês, a partir de 1830 e durante 132 anos; a perda de património e de influência, o êxodo em massa de fiéis, quando a Argélia conquistou a independência após a revolução de 1954-1962; o brutal impacto da guerra civil de 1992-2002, com numerosos massacres de civis, incluindo o de 19 religiosos de oito congregações» («Argélia: a Igreja «quase invisível» que não esconde a fé», Margarida Santos Lopes, Além-Mar, Abril de 2026, p. 27). 

       Esquecemo-nos na altura desta acepção, que é, em todos os sentidos, a primeira, de ➜ amazigue ETNOLOGIA indivíduo pertencente aos povos indígenas do Norte de África que se denominam a si mesmos imazighen («homens livres»); berbere.

[Texto 22 674]

Definição: «landgrave»

Vão sempre aparecendo


      A definição de «landgrave», palavra que vejo agora aqui usada num texto sobre o compositor alemão Heinrich Schütz, está muito mal-enjorcada nos nossos dicionários. Mas no Houaiss, que não é nosso, mas deles, em certo sentido ainda está pior. Nós é que não nos alegramos com a miséria alheia, temos, isso sim, de fazer melhor. Para começar, Porto Editora, absolutamente nada justifica que o verbete tenha duas acepções, já que não estamos perante dois sentidos distintos, mas antes dois aspectos do mesmo referente histórico: por um lado, o estatuto (título nobiliárquico); por outro, uma das funções que esse estatuto implicava (jurisdição em nome do imperador). Assim, proponho ➜ landgrave HISTÓRIA título nobiliárquico do Sacro Império Romano-Germânico atribuído a certos condes investidos directamente pelo imperador, dotados de jurisdição territorial alargada e de poderes senhoriais próprios — administrativos, judiciais e militares — exercidos sem intermediação de outros senhores; distinguia-se do conde comum pelo estatuto elevado e pela autonomia política, aproximando-se em vários casos da dignidade ducal.

[Texto 22 673]

Definição e etimologia: «eczema»

Sobretudo a etimologia


      «L’eczéma ou dermatite atopique, la plus fréquente des maladies inflammatoires de la peau, touche environ 20% des enfants en Suisse et 5% des adultes. Elle se caractérise par l’apparition sur la peau de plaques rouges et de lésions, de démangeaisons et de sécheresse de l’épiderme. Il s’agit d’une pathologie chronique, qui se manifeste par des pics de symptômes, entrecoupés de périodes de rémission» («Comment le stress exacerbe l’eczéma», Pascaline Minet, Le Temps, 20.03.2026, p. 10). 

      Os nossos dicionários definem muito mal «eczema», e a etimologia que indicam tem ampla margem para melhorar. Assim, proponho ➜ eczema MEDICINA designação genérica de dermatoses inflamatórias, de evolução aguda ou crónica, caracterizadas por eritema, prurido e lesões cutâneas variáveis, incluindo vesículas, crostas e descamação, frequentemente associadas a causas alérgicas, irritativas ou a predisposição atópica; dermatite. 

      Quanto à etimologia, vem do grego ékzema, «erupção cutânea», de ekzéō, «ferver, irromper», de ek, «fora» + zéō, «ferver».

[Texto 22 672]

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