Sufixos iniciados por z

Quarenta anos

      No primeiro semestre deste ano, foram criadas mais de 20 mil empresas em Portugal, o que representa uma subida de 18 % em relação ao mesmo período de 2012. Uma delas foi a Tales in Details (no rodapé da reportagem no Jornal da Tarde de ontem, lia-se «Tails in Details»), que produz sobretudo artigos para crianças. Mostraram uma almofada em que de um lado o Lobo Mau perguntava: «o que levas na cestinha?» Do outro lado, o Capuchinho Vermelho respondia: «levo bolos para a avózinha!» Assim, com minúsculas e o acento em «avozinha». Há quarenta anos, o artigo único do Decreto-Lei n.º 32/73, de 6 de Fevereiro, estatuía: «São eliminados da ortografia oficial portuguesa os acentos circunflexos e os acentos graves com que se assinalam as sílabas subtónicas dos vocábulos derivados com o sufixo mente e com os sufixos iniciados por z
[Texto 3120]

Léxico: «tramo»

Pode ser

      O maquinista do acidente de Santiago de Compostela saiu em liberdade condicional. O repórter Manuel Meneses, da RTP, foi ouvir o cidadão comum nas ruas de Compostela. «Acho bem porque, além disso, li hoje no jornal que ele terá dito que julgava que estava noutro tramo da linha.» Em todas as outras ocorrências, foi o vocábulo «troço» que se usou, mas em português «tramo» também é a secção de uma estrada ou via férrea.

[Texto 3119]

Como se fala na televisão

Este não é carnívoro

      Um pescador, Carlos Ambrósio, de Cascais capturou um tubarão-frade com meia tonelada. A baía de Cascais encheu-se de curiosos. Também eu teria ido lá ver, mas a essa hora estava a visitar o Palácio-Convento de Mafra, talvez a contemplar a cómoda-retrete ou o bacio de prata batida, com as armas reais, de D. João VI. Mais tarde, no Telejornal, a repórter Diana Palma Duarte disse: «Chegou à hora de almoço, mas não serve para consumo. Os banhos foram interrompidos pela grandeza da pescaria, mas não há razões a temer.»
      No Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora é que ainda não se avista o tubarão-frade.

[Texto 3118]

Prova de avaliação de conhecimentos

E cá, será melhor?

      «O caracol “é um crustáceo”. E “escrúpulo” significa “pôr-do-sol”. Estes foram alguns dos erros cometidos por candidatos a professores primários, em Madrid, num exame realizado em Março, no âmbito de um concurso de professores. No total, 86% dos candidatos chumbaram num teste com perguntas a que é suposto um aluno de 12 anos saber responder» («“Será esta a melhor maneira de seleccionar professores?”», Andreia Sanches, Público, 27.07.2013, p. 8).
      Ah, está bem, agora os dicionários já registam o verbo «chumbar» como intransitivo... Quanto a é suposto + infinitivo, macaqueado do inglês, já se vê menos, felizmente.
[Texto 3117]

Léxico: «desorçamentação»

E está na moda

      «Para a especialista em PPP [Mariana Abrantes de Sousa], um dos principais erros cometidos foi a desorçamentação destes projectos, que levou ao actual endividamento do Estado. Depois, diz, houve “estupidez” e “aproveitamento político”» («“Portugal ainda não aprendeu com as parceiras público-privadas”», Luís Villalobos e Ana Gomes Ferreira, Público, 29.07.2013, p. 14).
      Já está registado, por exemplo, no Vocabulário Ortográfico Português, mas ainda falta em quase todos os dicionários.
[Texto 3116]

Uma acepção de «redundância»

Nada supérfluo

      «Mais, quatro quilómetros antes da mudança nos carris, o mecanismo informático dos comboios de alta velocidade informa o condutor de que deve reduzir a velocidade. E como acontece nos aviões, este tipo de comboios tem um sistema de redundâncias, ou seja, se um sinal falhar, há outro. Também há redundâncias no sistema de travões» («Condutor do comboio descarrilado preso por homicídios por negligência», Ana Gomes Ferreira, Público, 28.07.2013, p. 32).
      Trata-se de um anglicismo semântico. No Merriam-Webster, redundant é o que «serving as a duplicate for preventing failure of an entire system (as a spacecraft) upon failure of a single component».

[Texto 3115]

Léxico: «apoliticismo»

Está-se mesmo a ver

      «Segundo Óscar Lopes e António José Saraiva, “a presença corresponde a um certo ambiente de apoliticismo forçado, depois do colapso da I República em 1926, e, por isso, os presencistas aspiram, em geral, a uma literatura e arte desvinculadas, senão mesmo alheadas, de qualquer posição de carácter político ou religioso”» («José Régio. Memórias de um coleccionador», Raquel Ribeiro, Público, 28.07.2013, p. 17).
      O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista somente «apolitismo» — «carácter de apolítico; atitude do que não apoia nenhuma ideologia política ou que tem aversão a questões políticas» —, mas é claro que correcto é «apoliticismo».
[Texto 3114]

«Para além»

Não interessa a explicação

      Ana Daniela Soares, no programa As Vozes Que Nos Escrevem, entrevistou hoje a escritora Patrícia Reis. Aqui fica um excerto: «E escrevo várias coisas em vários registos, o que quer dizer que sou capaz de escrever um texto para um presidente de uma grande empresa, para incorporar um relatório e contas, como sou capaz de escrever um livro em ghost writing, que é uma coisa que me dá imenso prazer, porque não sou eu, posso escrever à vontade, sem qualquer espécie de problema, escrever os disparates todos, com os erros todos, aqueles que me arrepiam, tipo os advérbios de modo em excesso, o “para além”, sabendo eu que “para além” é metafísica, que se uma coisa que está além não precisa de estar para além...»
      Quando regressar das férias, Montexto vai, tenho a certeza, apreciar muito esta explicação para lá da gramática.
[Texto 3113]

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