«Camisa-de-sete-varas»

Parece que é igual

      «Muito menos a sua irmã, embora achasse que ela se podia meter numa camisa de sete varas se por acaso voltasse a encontrar o dito homem» (Tiro e Queda, Mafalda Belmonte. Lisboa: Bertrand Editora, 2002, p. 60).
      É a primeira vez que vejo assim. A medida tradicional é onze: camisa-de-onze-varas, hifenizado, como aparece, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. A alva dos condenados a autos-de-fé era feita de pano de varas, um tecido antigo de lã, áspero. Talvez haja aqui relação com o termo «vara» no sentido de circunscrição judicial. Quanto a serem sete ou onze varas, e vara aqui é uma antiga medida de comprimento, talvez seja, como alguns aventam, indiferente, pois são ambos números meramente simbólicos.
[Texto 2968]

Léxico: «alumbramento» e «alumbrado»

Sopro criador, revelação, inspiração

      Outras duas ausências de vulto no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora: alumbrado e alumbramento. Quando Bárbara Guimarães recebeu, no programa Páginas Soltas, em 16 de Novembro de 2006, José Saramago, perguntou ao escritor a que chamava alumbramento. «Alumbramento? Não é uma palavra que eu use muito...» Mas de certeza que era, pois noutra resposta usou-a desenvoltamente duas vezes. Ainda assim, mais falta faz o termo «alumbrado» na acepção de membro da seita surgida no século XVI em Espanha. Porque ainda hoje há muitos alumbrados, muitos hereges...

[Texto 2967]

«Malícia» e «milícia», de novo

Bem me parecia

      «Parece que, no caso de “Aquele único exemplar”, a variante mais significativa se encontra no verso 10 da ode: em grafia actualizada, “No soberbo exercício da malícia”, onde, nas versões conhecidas, se pode ler “No soberbo exercício da milícia”. E vejo surgir uma proposta de leitura no sentido de que a versão agora revelada quereria dizer “no soberbo exercício da medicina ou do tratamento do mal”.
      Não me parece que se possa ir por aí. Camões refere-se a Aquiles, ensinado pelo centauro Quíron (a quem o poeta mais adiante chama “semiviro”) tanto nas artes da medicina como nas artes da guerra. Aquiles (sempre actualizando a grafia) “Não menos ensinado/ Foi nas ervas, e médica notícia,/ Que destro e costumado/ No soberbo exercício da milícia./ Assi que as mãos, que a tantos morte deram/ Também a muitos vida dar puderam”.
      A estrutura da caracterização da aprendizagem de Aquiles é dupla e como tal explorada em paralelo. O sentido da comparação desaparecia se lêssemos “malícia” como correspondendo a medicina ou tratamento do mal. Aquiles teria então sido ensinado tanto nas ervas e médica notícia como no exercício da medicina... E a estética do poema ficaria coxa de todo em passagem de tão inábil redundância...» («O soberbo exercício da malícia?», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 54).

[Texto 2966]

Como se fosse regra do AO

Hífenes, já eram

      Com a adopção das regras do Acordo Ortográfico de 1990, não foram apenas os cc e os pp que passaram a ser ceifados indiscriminadamente, mas também — é especialmente visível no DN —, como já tenho dito, os hífenes. Já hoje tratei do caso de «primeira-bailarina». Ei-lo agora sem hífen no Diário de Notícias: «No ano seguinte, foi convidada por Madalena Perdigão para regressar ao Ballet Gulbenkian, onde permaneceu como primeira bailarina até julho de 1994» («Bailarina teve uma vida dedicada à dança em Portugal», Helder Robalo, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 43).

[Texto 2965]

O AO, em definitivo

Coitados

      «A dois anos da entrada em vigor, em definitivo, do novo Acordo Ortográfico, a Associação de Professores de Português (APP) lamenta que nem todos os professores estejam já a usar a nova ortografia nas provas escritas, algo que, defende a presidente da APP, “penaliza os alunos”, É que a partir do ano letivo de 2014/2015 as provas nacionais já penalizarão o uso incorreto do novo Acordo» («Nem todos os professores de Português usam o novo Acordo», Helder Robalo, Diário de Notícias, 12.06.2013, p. 15).
      É pena não estar previsto penalizar os professores pelo uso incorrecto das novas regras ortográficas. Se até alguns professores de Português não as conhecem, imagine-se o que se passa com os professores de outras disciplinas. Pobres alunos, não queria estar-lhes na pele.

[Texto 2964]

Ortografia: «primeira-bailarina»

Podia estar

      «Em 1974, Madalena Perdigão convida-a a voltar, como primeira-bailarina, ao Ballet Gulbenkian. Pertenceu durante mais de 25 anos a esta companhia, que deixa em 1994. Foi também professora de dança» («Morreu Graça Barroso, “bailarina completa e muito rara”», Joana Amaral Cardoso, Público, 12.06.2013, p. 30).
      Esta ainda não está nos dicionários, onde encontramos primeira-dama, primeiro-cabo, primeiro-grumete, primeiro-marinheiro, primeiro-tenente; segundo-cabo, segundo-furriel, segundo-grumete, segundo-marinheiro, segundo-sargento, segundo-subsargento... E, por isso, por vezes vemo-la sem hífen.

[Texto 2963]

Léxico: «tumorigénico»

Anda lá perto

      «A experiência dos investigadores portugueses, relatado [sic] num artigo publicado recentemente no Journal Cell Biology, atribui ao Bub3 mais importância ainda: de acordo com os resultados obtidos em moscas Drosophila, este gene também representa uma proteína supressora de tumores e “é essencial ao controlo da proliferação tumorogénicas invasivas [sic]”» («O “silêncio” de um gene chamado Bub3 pode dar força a um tumor», Andrea Cunha Freitas, Público, 12.06.2013, p. 27).
      O artigo, em inglês, de certeza que usa a palavra «tumorigenic», que, evidentemente, não se pode aportuguesar como a jornalista fez. Será, como se lê no Dicionário Aulete, tumorigénico. Se optarmos por aportuguesar a palavra francesa («tumorigène»), temos tumorígeno.

[Texto 2962]

Falta de memória

Ötzi e Lucy ou Ötzi e Lucy


«No ano passado, em fevereiro, um estudo genético do Otzi, que foi encontrado conservado no gelo dos Alpes italianos, mais de cinco mil anos depois da sua morte, revelou muitos dos seus segredos» («Homem do Gelo morreu com uma hemorragia cerebral», Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 31).
      Quando escrevem sobre a «nossa avó africana comum», grafam o nome em itálico. De certeza que não é discriminação, apenas falta de memória.
     «Lucy, a nossa avó africana comum, era uma bípede muito competente. Foi esse o veredicto dos estudos de fósseis dos quadris e dos membros inferiores deste hominídeo, o Australopithecus afarensis. Mas uma pergunta persistia há décadas: será que esta antepassada, que viveu entre há 3,9 e 2,9 milhões de anos, também fazia parte da sua vida lá em cima, nas copas das árvores?» («Avó ‘Lucy’ também trepava às árvores», Filomena Naves, Diário de Notícias, 26.10.2012, p. 27).

[Texto 2961]

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