Outro «contato»!

Não é um caso isolado

      «Dentro da loja [Fnac do CascaiShopping], nos escritórios e armazéns a iluminação foi toda substituída por luzes LED, com sensores de movimento fora do espaço de contato com o público» («Fnac reduz custos e ganha prémio com ambiente», Ana Rita Guerra, Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 33).
      Cara Ana Rita Guerra, acha mesmo que a palavra, segundo as regras do Acordo Ortográfico de 1990, se escreve sem c? Está enganada.
[Texto 2960]

«Resiliente», uma palavra na moda

Da psicologia para o dia-a-dia

      Uma palavra que está na moda — e, por isso, é usada a torto e a direito, aqui e ali, a propósito e a despropósito ­— é «resiliente». «“Achamos que é altura de atacar outros mercados e temos vindo a realizar viagens anuais a cada um destes países. Mas esta é uma área que exige, sempre, um longo namoro antes do casamento. Basta ter em conta que, no caso dos caminhos de ferro dinamarqueses, andamos dez anos a namorá-los. Mas nós somos resilientes”, frisa Ernesto Morgado, fundador e sócio gerente ao DN/Dinheiro Vivo» («Siscog quer vender o seu ‘software’ às ferroviárias de China e EUA», Ilídia Pinto, Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 33). 
      E quem não se lembra logo de seis sinónimos mais expressivos para dizer o mesmo?

[Texto 2959]

Abuso de «devido a»

Devidos indevidos e outras coisinhas

      «A conclusão, que foi publicada na revista científica Ecology Letters por um grupo de investigadores liderado por Jonathan Bennie, da Universidade de Exeter, surge numa altura em que a espécie está a passar por apuros, devido justamente às temperaturas baixas para esta época do ano. A borboleta Hesperia comma, que já foi comum em Inglaterra, passou por um período difícil há algumas décadas devido a uma perda acentuada de habitat, mas recuperou devido a medidas de conservação implementadas no país. Só que, nos últimos anos, os invernos têm-se prolongado pela primavera dentro, afetando a atividade da espécie, que precisa de 25 graus Célsius para se sentir confortável» («Borboleta sensível em apuros com o frio em Inglaterra», Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 31).
[Texto 2958]

Léxico: «dropar»

É melhor duas

      «“Este fato foi idealizado pela SURFaddict e a Janga fê-lo. É o primeiro fato adaptado do mundo, tem velcros em baixo para permitir vesti-lo como um calção”, explica à Lusa Nuno Vitorino, acrescentando: “Tem também um velcro que permite segurar as pernas, para que quando vamos a dropar a onda as pernas não abram e não criem um foco de desequilíbrio”» («Primeiro fato de ‘surf’ adaptado é português», Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 15).
      Está no Aulete e no Houaiss. Deste lado do Atlântico, ainda não chegou aos dicionários. E aquele «calção» está mesmo a pedir outro, gémeo, para se poderem vestir — calções. É o que em latim se chamava pluralia tantum e os Brasileiros adaptaram para «pluralício», termos que só ocorrem no plural. Na página na Internet da SURFaddict, Associação Portuguesa de Surf Adaptado, lá está, para os interessados, o «contato».
[Texto 2957]

«Caubói»?

Agora eu era o herói

      «Caubói»? «Ao ministro Vítor Gaspar, que mencionou as “condições meteorológicas” como uma das causas do pouco investimento na construção civil e do permanente atraso da recuperação económica, quem deu a melhor resposta foi Clint Eastwood, num velho filme de caubóis chamado O Rebelde do Kansas: “Não me mijem pelas costas abaixo para depois me dizerem que está a chover.”» («O preço da chuva mijona», Rui Tavares, Público, 10.06.2013, p. 48).
      Os Brasileiros é que aportuguesaram cowboy em caubói; nós é cobói que usamos. Já tinha lido numa obra de José Eduardo Agualusa, mas este escritor é angolano. E Rui Tavares não tem a escapatória de dizer que estava a escrever para os Brasileiros, porque, no Brasil, o filme tem o título Josey Wales — O Fora-da-Lei.
[Texto 2956]

«Autodesignar-se», de novo

Quase português

      «Num dos discursos recentes, Erdogan chegou mesmo a clarificar: “Esses que se autodesignam como jornalistas, ou artistas...”. Essa gente. Os çapulcu» («A força dos çapulcu é combaterem Erdogan no seu território», Paulo Moura, Público, 10.06.2013, p. 20).

[Texto 2955]

«Malícia» e «melícia»

Também camoniano

      «A alteração das palavras é “malícia” por “melícia”, “mas ambas podem fazer sentido, porque se fala de um deus guerreiro que curava e que era chefe de guerra, ora era perito em melícia como militar e em malícia no sentido de curar o mal”, explicou o historiador [João Alves Dias]» («Inédito de Camões na exposição que celebra os 450 anos da sua obra», Público, 9.06.2013, p. 36).
      Não será demasiado forçada esta interpretação? De um mero lapsus calami do pobre copista erige-se uma tese. E esta dissimilação está atestada? É que actualmente, «melícia» é apenas uma espécie de morcela doce (mel + ícia) feita com amêndoas doces, banha de porco, canela, mel, etc.

[Texto 2947]

Ortografia: «interétnico»

Com elementos de formação, cuidado

      «Em 1960 grava os primeiros discos de 45 rotações, sob o nome de Eddie Salem, uma vaga proposta inter-étnica que misturava sons do Mediterrâneo e que não chega para fazer história» («O vagabundo das canções de paz», Viriato Teles, «Q»/Diário de Notícias, 1.06.2013, p. 20).
      Só há uma maneira — seja lá qual for o acordo ortográfico — de escrever esta palavra, e não é desta.

[Texto 2908]

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