Abuso de «devido a»

Devidos indevidos e outras coisinhas

      «A conclusão, que foi publicada na revista científica Ecology Letters por um grupo de investigadores liderado por Jonathan Bennie, da Universidade de Exeter, surge numa altura em que a espécie está a passar por apuros, devido justamente às temperaturas baixas para esta época do ano. A borboleta Hesperia comma, que já foi comum em Inglaterra, passou por um período difícil há algumas décadas devido a uma perda acentuada de habitat, mas recuperou devido a medidas de conservação implementadas no país. Só que, nos últimos anos, os invernos têm-se prolongado pela primavera dentro, afetando a atividade da espécie, que precisa de 25 graus Célsius para se sentir confortável» («Borboleta sensível em apuros com o frio em Inglaterra», Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 31).
[Texto 2958]

Léxico: «dropar»

É melhor duas

      «“Este fato foi idealizado pela SURFaddict e a Janga fê-lo. É o primeiro fato adaptado do mundo, tem velcros em baixo para permitir vesti-lo como um calção”, explica à Lusa Nuno Vitorino, acrescentando: “Tem também um velcro que permite segurar as pernas, para que quando vamos a dropar a onda as pernas não abram e não criem um foco de desequilíbrio”» («Primeiro fato de ‘surf’ adaptado é português», Diário de Notícias, 11.06.2013, p. 15).
      Está no Aulete e no Houaiss. Deste lado do Atlântico, ainda não chegou aos dicionários. E aquele «calção» está mesmo a pedir outro, gémeo, para se poderem vestir — calções. É o que em latim se chamava pluralia tantum e os Brasileiros adaptaram para «pluralício», termos que só ocorrem no plural. Na página na Internet da SURFaddict, Associação Portuguesa de Surf Adaptado, lá está, para os interessados, o «contato».
[Texto 2957]

«Caubói»?

Agora eu era o herói

      «Caubói»? «Ao ministro Vítor Gaspar, que mencionou as “condições meteorológicas” como uma das causas do pouco investimento na construção civil e do permanente atraso da recuperação económica, quem deu a melhor resposta foi Clint Eastwood, num velho filme de caubóis chamado O Rebelde do Kansas: “Não me mijem pelas costas abaixo para depois me dizerem que está a chover.”» («O preço da chuva mijona», Rui Tavares, Público, 10.06.2013, p. 48).
      Os Brasileiros é que aportuguesaram cowboy em caubói; nós é cobói que usamos. Já tinha lido numa obra de José Eduardo Agualusa, mas este escritor é angolano. E Rui Tavares não tem a escapatória de dizer que estava a escrever para os Brasileiros, porque, no Brasil, o filme tem o título Josey Wales — O Fora-da-Lei.
[Texto 2956]

«Autodesignar-se», de novo

Quase português

      «Num dos discursos recentes, Erdogan chegou mesmo a clarificar: “Esses que se autodesignam como jornalistas, ou artistas...”. Essa gente. Os çapulcu» («A força dos çapulcu é combaterem Erdogan no seu território», Paulo Moura, Público, 10.06.2013, p. 20).

[Texto 2955]

«Malícia» e «melícia»

Também camoniano

      «A alteração das palavras é “malícia” por “melícia”, “mas ambas podem fazer sentido, porque se fala de um deus guerreiro que curava e que era chefe de guerra, ora era perito em melícia como militar e em malícia no sentido de curar o mal”, explicou o historiador [João Alves Dias]» («Inédito de Camões na exposição que celebra os 450 anos da sua obra», Público, 9.06.2013, p. 36).
      Não será demasiado forçada esta interpretação? De um mero lapsus calami do pobre copista erige-se uma tese. E esta dissimilação está atestada? É que actualmente, «melícia» é apenas uma espécie de morcela doce (mel + ícia) feita com amêndoas doces, banha de porco, canela, mel, etc.

[Texto 2947]

Ortografia: «interétnico»

Com elementos de formação, cuidado

      «Em 1960 grava os primeiros discos de 45 rotações, sob o nome de Eddie Salem, uma vaga proposta inter-étnica que misturava sons do Mediterrâneo e que não chega para fazer história» («O vagabundo das canções de paz», Viriato Teles, «Q»/Diário de Notícias, 1.06.2013, p. 20).
      Só há uma maneira — seja lá qual for o acordo ortográfico — de escrever esta palavra, e não é desta.

[Texto 2908]

Léxico: «superlua»

Ou perigeu


      «Nesse dia [23 de Junho] vai ser possível contemplar a maior e mais brilhante lua cheia do ano, que vai ser entre 14% maior e 30% mais brilhante do que o habitual. [...] Se a meteorologia ajudar e não houver nuvens a cobrir o horizonte, será motivo para vir à janela espreitar a superlua, como é conhecido este fenómeno» («Maior e mais brilhante lua do ano a 23 de junho», Ana Bela Ferreira, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 27).
      Superlua ou, como é mais conhecido, perigeu. Mas poderá ver-se se não houver nuvens no horizonte ou no céu?
[Texto 2899]

Um toque de italiano

O sabor seria o mesmo

      «Mario De Biasi foi o grande repórter fotográfico do levantamento de Budapeste, em 1956, mas foi outra foto sua que me ficou estampada na memória. De Biasi é o autor da foto que teve o mesmo papel das alcachofras alla giudia, os contos de amores difíceis de Italo Calvino e as cores velhas de Roma – o de formar a minha ideia de Itália» («Olhares em vias de extinção», Ferreira Fernandes, Diário de Notícias, 29.05.2013, p. 56).
      Até na poesia de Jorge de Sena há alcachofras à judia. Porquê só umas tinturas de italiano? Já agora, carciofi alla giudia. Ou a frase toda: «De Biasi è l’autore della foto che ha avuto lo stesso ruolo dei carciofi alla giudia, di storie d’amore difficile da Italo Calvino e dei colori vecchi di Roma – per formare la mia idea di Italia.» Ou toda a crónica: «Mario De Biasi è stato il grande fotoreporter della sollevazione di Budapest nel 1956, ma, etc.»
[Texto 2898]

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