O verbo «faltar»

Só não aprendem se não quiserem

      «Ainda faltam vender perto de cinco mil bilhetes para domingo» («Camarim de Madonna esterilizado», Paula Carmo, Diário de Notícias, 22.06.2012, p. 49).
      Erro muito comum, este, e não apenas na imprensa, é claro. O sujeito do verbo faltar, que é pessoal, é outro verbo, o verbo vender, que está no infinitivo. O valor nominal do verbo no infinitivo exige assim que o verbo faltar esteja no singular. Difícil?
[Texto 1715]

Tradução: «rastrello»

Falta de experiência

      «Em volta, os jogadores, homens e mulheres, velhos e novos, de todos os países e de todas as condições, uns sentados, outros de pé, apressavam-se nervosamente a dispor pequenos montículos de luises, de francos e de notas nos números amarelos dos quadrados; os que não conseguiam aproximar-se, ou o não queriam, diziam ao banqueiro os números e as côres em que queriam jogar, e logo o destro banqueiro, com a sua rasoira, dispunha maravilhosamente as jogadas» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 61).
      Aqui o filósofo, o tradutor, digo, errou. No original, está rastrello. Em inglês diz-se rake; em francês, râteau; em castelhano, rastrillo. Talvez se hesitasse entre rodo e ancinho, mas o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora regista como acepção de «rodo» o utensílio semelhante para aproximar e recolher o dinheiro nas bancas do jogo. Agora «rasoira»... Só quem nunca viu nenhuma é que pode confundir.
[Texto 1714]

Léxico: «medianímico»

Poucas vezes a vemos

      «Antes mesmo de saber que tinha faculdades medianímicas, já ela comunicava com o espírito de Max» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 162).
      Esta pouco aparece, o que se compreende, pois não se refere a nada propriamente do nosso dia-a-dia. Medianímico: relativo a médium; que tem a qualidade ou a faculdade de médium.

[Texto 1713]

Léxico: «percevejo»

Não é o insecto hemíptero

      «Na porta do quarto andar havia duas placas: Paleari, de um lado, Papiano, do outro; por baixo desta última, um cartão de visita, prêso com dois percevejos de cobre dizendo: Silvia Caporale» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 105).
      É raro, mas já tenho visto: o vernáculo percevejo em vez do galicismo pionés. No original, está «due bullette di rame». Rame, «cobre» em italiano, partilha com o nosso «arame» o mesmo étimo latino, aeramen.
[Texto 1712]

Tradução: «dress code»

Vá lá

      «Este ano, Royal Ascot, que se realiza no condado de Berkshire desde 1711, começou na segunda-feira, mas com mais decoro do que em edições passadas. Isto porque a organização decidiu reformular o código de vestuário» («Ascot. Desfile de extravagância», Diário de Notícias, 21.06.2012, p. 2).
      Não terem usado a locução inglesa dress code — que há já quem julgue intraduzível, arreigada, etc. — já foi, por si só, extraordinário. E é claro que há outras formas de dizer o mesmo que não passam pela tradução do inglês. É só querermos.
[Texto 1711]

Tradução: «croupier»

É outra forma

      «A bola, por fim, caía, e o banqueiro, na mesma voz morta, repetia a fórmula usual e anunciava o número e a côr» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 62).
      Será o proprietário de um banco? Não: é aquele que, no jogo, maneja as cartas. Croupier, crupiê. Nunca José Marinho usa outra palavra que não seja «banqueiro».
[Texto 1710]

Tradução: «rosolio»

Mais genérico

      «Bebi o rossolis de que Malagna e a mãe beberam também» (O Falecido Matias Pascal, Luigi Pirandello. Tradução de José Marinho. Lisboa: Inquérito, s/d [mas de 1945], 2.ª ed., p. 35).
      Ah, sim, sim, conheço bem, rossolis, «le liqueur fabriquée en Italie et Turquie principalement, à base d’eau-de-vie, de sucre, d’aromates et d’une macération de pétales de roses, de fleurs d’oranger (ou parfois de jus de fruits)», diz o Trésor. Em português, é rosólio. De qualquer maneira, no original lê-se rosolio, que é qualquer licor, e não somente rosólio.
[Texto 1709]

Género de «entorse»

Ainda um dia

      «Ora sabemos que Sousa Coutinho, depois do gesto incendiário a que terá sido levado por uma questão pessoal com aqueles (e que ele mesmo descreve num poema em latim), se deslocou a Madrid, para se acolher à protecção real de Filipe III, a quem dedicou em 1600 as obras coligidas de Jaime Falcão. E ali terá permanecido dois anos. Garrett não hesitou em ajustar a História às suas conveniências dramáticas, justificando teoricamente esse entorse» («A morte de Simão», Vasco Graça Moura, Diário de Notícias, 20.06.2012, p. 54).
      Ainda um dia, hão-de ver, a pedido de tanta e tão importante gente, a palavra «entorse» muda de género.
      Mas entretanto: «Ele, de métodos drásticos, curava definitivamente uma chaga, uma entorse, um inocente furúnculo, de serrote em punho» (Fogo na Noite Escura, Fernando Namora. Lisboa: Publicações Europa-América, 1988, p. 205).
[Texto 1708]

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