Léxico: «zua»

Ficamos a saber, para sempre


      «Ana de Jesus, que encontraremos durante a tarde na Obélix, a sua loja de minerais, decoração e bijutaria, confirma através de um regionalismo. “As pessoas são muito zuas”, comenta a mulher brasileira, que aqui vive há 18 anos e por isso já sabe que zua é o nome que se dá aos habitantes da praia de Mira. “Mas mesmo que não sejam da praia, mesmo que sejam de outra freguesia do concelho, as pessoas são muito zuas, muito viradas para a terra”, analisa» («Nunca perdeu a bandeira azul. Mira é “praia-modelo” pelo “empenho de todos”», Sandra Silva Costa, Público, 11.05.2026, p. 18).

[Texto 22 987

Léxico: «orientação»

Orientem-se


      É isso, aquela orientação da Direcção-Geral da Saúde não está nos dicionários, pelo que sugiro orientação SAÚDE PÚBLICA conjunto de instruções, recomendações ou medidas transmitidas, por autoridade sanitária ou por profissionais de saúde, a um indivíduo, grupo, instituição ou serviço, no âmbito da vigilância epidemiológica, da prevenção ou do controlo de doenças, relativas a avaliação de risco, procedimentos clínicos, isolamento, vigilância de sintomas, profilaxia, encaminhamento ou outras formas de actuação sanitária.

[Texto 22 986]

Léxico: «não-caso»

Façam caso


      «A Direção-Geral da Saúde (DGS) publicou esta segunda-feira orientações para a gestão de possíveis casos suspeitos do surto de hantavírus e indicou que o risco em Portugal “mantém-se muito baixo”, sem necessidade de implementar medidas preventivas. “Esta Orientação enquadra as medidas a adotar, pelos profissionais do sistema de saúde português, para gestão de eventuais contactos no âmbito do surto da Hantavírus no navio cruzeiro MV Hondius, na eventual possibilidade de darem entrada em Portugal indivíduos que foram contactos de casos com relação a este surto”, explicou a DGS em comunicado publicado na sua página na Internet» («Hantavírus: DGS publica normas para possíveis casos suspeitos», Rádio Renascença, 11.05.2026, 23h19). 

      Decerto ainda se lembram de termos sugerido a dicionarização de «não-dito» e «não-assunto» no ano passado. Bem, nesta orientação (acepção também fora dos dicionários) da DGS usa-se, e é habitual em epidemiologia, o termo «não-caso», que passaremos a definir assim não-caso EPIDEMIOLOGIA indivíduo inicialmente sujeito a vigilância, investigação ou avaliação clínica por suspeita de determinada doença, exposição ou condição sanitária, mas que, após aplicação dos critérios epidemiológicos, clínicos ou laboratoriais estabelecidos, é excluído da classificação de caso confirmado, provável ou suspeito; pessoa que não preenche os critérios definidos para ser considerada caso numa investigação epidemiológica ou sistema de vigilância sanitária.

[Texto 22 985]

Léxico: «rusgata»

Mais um regionalismo


      «Pelo contrário, nunca ele se mostrou mais atreito às mundanidades da terra e em particular às rusgatas de que era pródigo o velho carrocel de Vandoma» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 50).

[Texto 22 984]

Definição: «conta-rotações»

Mede, indica ou mostra


      «O grande destaque está num detalhe inesperado: o TZ pode ser conduzido ao som do lendário V10 do Lexus LFA. Através do sistema Interactive Manual Drive, o SUV simula uma caixa manual com recurso às patilhas atrás do volante, incluindo conta-rotações no painel de instrumentos e uma banda sonora inspirada no supercarro japonês» («Novo SUV elétrico da Lexus soa como o V10 do LFA», Mariana Teles, Razão Automóvel, 11.05.2026, 9h41). 

      Sabemos exactamente o que é um conta-rotações? A Porto Editora define-o assim: «aparelho que determina a velocidade de rotação do motor». Podemos ter a certeza de que não é um aparelho, não se refere apenas a motores e que não determina nada: mede, indica ou mostra. «Determinar» faz lembrar cálculo ou inferência, não leitura instantânea de um parâmetro mecânico. Hoje em dia, um conta-rotações é essencialmente um indicador, sem autonomia funcional, já nem tanto um dispositivo, mas ainda se podia usar o termo. 

      Tudo visto, proponho ➠ conta-rotações MECÂNICA indicador do número de rotações por minuto de um sistema rotativo (por exemplo, um motor ou uma turbina).

[Texto 22 983]

Léxico: «formiga-ceifeira | tomar a árvore pela floresta»

Nome comum de várias


      «Há um mercado negro a crescer dedicado a traficar formigas, usando métodos como seringas. De acordo com uma reportagem do “The Guardian”, há umaespécie específicahabitante do este de África conhecida como Messor cephalotes, o maior tipo de formiga-ceifeira do mundo» («Formigas traficadas em seringas no mercado negro», João Malheiro, Rádio Renascença, 13.05.2026, 8h10, itálicos meus).

      O que a Porto Editora está a fazer ao indicar que o nome científico da formiga-ceifeira é Messor barbarus é, no fundo, tomar a árvore pela floresta. Acontece que «formiga-ceifeira» não é, em rigor, um nome exclusivo dessa espécie: é antes um nome comum aplicado a várias espécies granívoras do género Messor, e até a outros géneros noutras regiões do mundo, o que o artigo do Guardian confirma. Não vamos tratar um hipónimo como se fosse equivalente ao hiperónimo. Assim, proponho formiga-ceifeira ZOOLOGIA nome comum de diversas formigas sociais granívoras, sobretudo do género Messor, caracterizadas pelo hábito de recolher e armazenar sementes em ninhos subterrâneos, onde estas podem ser trituradas e consumidas; apresentam forte polimorfismo entre castas operárias, com indivíduos maiores dotados de cabeça larga e mandíbulas poderosas; em Portugal, a designação aplica-se frequentemente à espécie Messor barbarus.

[Texto 22 982]

Léxico: «anomalia»

Nem perto nem longe


      «Le petit monde de la physique des particules est en émoi. Une “anomalie” observée dans les détecteurs LHCb et CMS du LHC, le plus grand accélérateur de particules au monde, situé au Cern, à Genève, est à l’origine de ce trouble. Une particule fugace, le méson “B zéro”, écrit B°, s’y désintègre de manière très légèrement différente aux prédictions théoriques. Cet écart n’est pas encore pleinement confirmé, mais il pourrait constituer la première trace, subtile, d’une nouvelle physique. Ce pourrait être la première fois que le modèle standard, qui décrit avec une précision redoutable la manière dont fonctionne le monde étrange des particules en mécanique quantique, est mis en défaut» («Une “anomalie” détectée dans le LHC enthousiasme la communauté des physiciens», Tristan Vey, Le Figaro, 13.05.2026, p. 12). 

      A única acepção de «anomalia» do dicionário da Porto Editora minimamente próxima do uso do artigo é a 4.ª, «excepção à regra; singularidade». Mas «singularidade» é demasiado vaga; «excepção à regra» é demasiado genérica e nenhuma das duas exprime a ideia essencial de discrepância entre observação e previsão teórica. Mas alegrem-se: o tão decantado Houaiss não anda perto nem longe. (Não que o caso nos desperte propriamente Schadenfreude lexicográfica, mas se querem comparações...) Não anda. Assim, dado o panorama, proponho anomalia CIÊNCIA resultado, observação, fenómeno ou conjunto de dados que diverge do previsto por um modelo teórico, por uma hipótese ou pelo comportamento esperado, podendo indicar limitação do modelo existente, erro experimental ou necessidade de nova explicação científica. 

      Se bem que esteja implícito, quero deixar claro aqui neste espaço pós-definição: a anomalia não reside necessariamente no fenómeno em si, mas na relação entre os dados e a teoria que procura explicá-los. É isso que distingue este uso científico moderno da mera irregularidade tradicional.

[Texto 22 981]

Erros de sempre e para sempre

Antes que se consolide


      «Em comunicado enviado posteriormente às redações, a GNR explica que a fuga “foi facilitada pela intervenção de cerca de duas dezenas de cidadãos que se encontravam no local e que criaram uma barreira física, impedindo o encalce imediato por parte dos militares”, os quais ainda fizeram “disparos de advertência para o ar”, mas não lograram travar o fugitivo» («Tiros para o ar durante fuga de tribunal», João Carlos Rodrigues, Correio da Manhã, 14.05.2026, p. 39). 

      Claro que já vi demasiadas vezes este erro, mas hoje, João Carlos Rodrigues, vai aprender. Vai aí uma grande confusão nessa cabeça. A expressão é uma e só uma, sem variantes, ir no encalço de, que significa «seguir a pista de; perseguir». Era o caso. Quanto a «encalce», que não fique por esclarecer, é simplesmente uma forma do verbo encalçar, que significa «ir no encalço de; seguir de perto». Basta seguir aqui o seu colega: «O detido, algemado, fugiu pela porta principal do tribunal. Os militares arrancaram no seu encalço, mas, já no exterior, voltaram a ser agarrados por pessoas que ali permaneciam» («Invadiram tribunal para permitir fuga de cadastrado detido», Roberto Bessa Moreira, Jornal de Notícias, 14.05.2026, p. 16).

[Texto 22 980]

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