Definição: «dálita»

Se está fora, nem alta nem baixa


      Num romance, apareceu-me, em boa hora, uma família dálita. Já sabem, oportunidade para corrigir definições. Assim, quando o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora garante que é o «membro da casta mais baixa, no antigo sistema de castas indiano; pária», erra em dois pontos capitais: não apenas os dálitas não são a casta mais baixa, porque se encontram fora desse sistema, como a equivalência a pária é falso. Tudo visto, proponho ➜ dálita SOCIOLOGIA (Índia) membro das comunidades tradicionalmente situadas fora do sistema de castas hindu, historicamente sujeitas a exclusão social e discriminação. 

      Em dois pontos? Talvez em três. É verdade que, juridicamente, a discriminação baseada em castas foi abolida na Constituição da Índia de 1950, e que o Estado indiano adopta políticas de acção afirmativa para as chamadas castas desfavorecidas. Mas isso não significa que o sistema de castas tenha desaparecido enquanto realidade social: continua a influenciar práticas, relações e mentalidades em muitas regiões, com intensidade variável.

[Texto 22 947]

Léxico: «galo-lira | tetraz-lira»

Agora com mais tempo e tento


      «Selon une étude française publiée en 2013, plus de 835 oiseaux sont morts dans les Alpes et les Pyrénées françaises à cause des câbles de remontées mécaniques sur la période 1997-2009. Les téléskis, plus proches du sol (et plus souvent fréquentés, ce qui augmente la probabilité de trouver des cadavres), apparaissent comme les plus meurtriers: ils concernent 78% des collisions fatales. Parmi toutes les espèces impliquées, le tétras-lyre (Lyrurus tetrix), ce gallinacé noir à la queue en panache qui survit l’hiver en se cachant dans un igloo creusé dans la neige, paie le plus lourd tribut» («La vision, talon d’Achille du tétras-lyre», Aurélie Coulon, 24 heures, 2.05.2026, p. 26). 

      Está no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, mas a definição foi claramente feita nos últimos minutos de uma sexta-feira: «ORNITOLOGIA (Lyrurus tetrix) Ave não migratória, com asas pequenas e arredondadas, da família dos Fasianídeos, ordem dos Galiformes». Nem para apontar a sinonímia sobrou tempo: «galo-lira ORNITOLOGIA (Tetrao tetrix) ave galiforme de distribuição eurasiática, da família dos Tetraonídeos, atinge cerca de 55 centímetros de comprimento e apresenta plumagem escura com reflexos azulados, barra branca nas asas, penachos vermelhos sobre os olhos e cauda característica, que recorda o formato de uma lira (instrumento musical)». 

      Estamos perante três problemas. Um é propriamente um erro dos grandes: Tetrao tetrix é uma designação desactualizada, a espécie foi reclassificada, deixando o género Tetrao e passando para Lyrurus. Assim, e exemplificando justamente com este, que está errado, proponho ➜ galo-lira ORNITOLOGIA (Lyrurus tetrix) ave galiforme da família dos Fasianídeos, de médio porte (cerca de 55 cm), não migratória, de distribuição eurasiática, própria de regiões frias e abertas, com dimorfismo sexual acentuado: o macho apresenta plumagem negra com reflexos azulados, barra branca nas asas, carúnculas vermelhas supra-orbitais e cauda em forma de lira; a fêmea é acastanhada e críptica; habita charnecas, turfeiras e orlas de floresta, alimentando-se de vegetais e invertebrados, sendo conhecida pelos rituais colectivos de exibição nupcial (lek); o m. q. tetraz-lira. 

      A definição de tetraz-lira será, sem tirar nem pôr, igual, salvo na remissão, que será «o m. q. galo-lira».

[Texto 22 946]

Léxico: «escama-peixe»

Chamem um pedreiro


      «Nas noites de inverno os ratos e leirões, que emigram dos campos depois de se cevarem nos espigueiros, faziam com grande alarde demorado regabofe das maçarocas em suas camaratas entre o tecto e o escama-peixe» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 108).

[Texto 22 945]

Léxico: «cerra-cabos»

Talvez eu


      «“Faltam cabos de aço inox e um tubo também de inox no corrimão junto à porta principal do teatro. Esta situação, potencialmente perigosa para o público infantil, tem sido reparada pela companhia com recurso a cabos de aço normal e cerra-cabos”, alertava um dos relatórios enviados ao município» («Sete acusados em queda de atriz», Paula Gonçalves, Correio da Manhã, 7.05.2026, p. 33). 

      Quem diria que o dicionário da Porto Editora não acolhe «cerra-cabos»? Pois, ninguém. Aqui vai o ➜ cerra-cabos peça metálica, geralmente em forma de U com uma braçadeira apertada por porcas, usada para fixar, unir ou formar olhais em cabos de aço, comprimindo a extremidade do cabo contra si própria.

[Texto 22 944]

⋅ ── ✩ ── ⋅


P. S.: Para a legião de anglófilos que me segue: caso se encontrem em Londres e precisem de comprar um cerra-cabos, convém saber que os Ingleses lhe chamam “U-bolt cable clamp”. Talvez o encontrem na velha MacCulloch & Wallis, algures entre Lambeth e uma Londres que já quase desapareceu, entre latas de tinta enferrujadas, dobradiças vitorianas e um empregado de avental castanho que responde “right you are” sem sequer levantar os olhos. Arrogante duma figa. Ou mais literário: arrogante do caralho. Se lá estiver um empregado indiano chamado Rajiv Patel, este sim, simpático, digam-lhe que vão da minha parte: «Mr Guégués told us you were the kindest and most helpful employee in Greater London... and we believe him, because Mr Guégués almost always tells the truth.»


Léxico: «locotractor/locotractora»

É só um exemplo


      Faltarão muitos milhares de palavras nos dicionários, isso é certo. Por exemplo, na CP toda a gente sabe o que é ➜ locotractor/locotractora FERROVIA veículo ferroviário motorizado, de dimensões geralmente reduzidas e destinado sobretudo a manobras, deslocação de vagões ou composição de comboios em estações, oficinas e terminais; distingue-se das locomotivas de linha pela menor potência e velocidade, privilegiando o esforço de tracção a baixa velocidade.

[Texto 22 943]

Léxico: «alabardeiro»

Único uso actual


      «Leão XIV presidiu, esta quarta-feira, na Aula Paulo VI, à cerimónia de tomada de posse de 28 novos recrutas da Guarda Suíça Pontifícia. Aos novos alabardeiros, o Papa dirigiu palavras de carinho e agradecimento: “A vós, queridos jovens que prestaram o Juramento, expresso a minha estima e gratidão”. A Guarda Suíça Pontifícia, foi fundada há 520 anos, em 1506, pelo Papa Júlio II. É a força militar mais pequena e antiga no mundo» («Novos guardas suíços prestam juramento no Vaticano», Miguel Marques Ribeiro e Aura Miguel, Rádio Renascença, 6.05.2026, 20h12). 

      Uso que justifica plenamente nos dicionários acrescentar-se, pela sua especificidade e sobrevivência na actualidade, ➜ alabardeiro 2. membro da Guarda Suíça Pontifícia sem funções de comando.

      Actualmente, os alabardeiros são 85 dos cerca de 135 efectivos da Guarda Pontifícia, distribuídos por vários postos e responsáveis, entre outras funções, pela vigilância dos acessos ao Vaticano e pela protecção próxima do papa.

[Texto 22 942]

Como se traduz por aí

Também na costa, mas noutra


      O 4.º e último episódio da 1.ª temporada da série Vigilantes (Brigade Anonyme), na RTP2, andou todo à volta do desaparecimento de um adolescente, Lucas. Depois de ver que a última mensagem de um dos envolvidos fora enviada de Pontaillac, Charlie pergunta à mãe de um deles onde era. «C’est une plage sur la côte. Mon beau-frère a un carrelet là-bas.» Nas legendas (de Susana Serrão), a opção foi por «palheiro». Pouco feliz. «O meu cunhado tem lá um palheiro...» «Descreva o palheiro, se faz favor», pede Castaneda. «C’est une des cabines sur pilotis. C’est vers la pointe, c’est le plus loin quand on vient de la plage et il y a des volets verts.» Fez-me lembrar uma tradução de um romance norte-americano de que falava Jorge Colaço cujo protagonista, nas palavras do tradutor, «sofrera as passas do Algarve». Enfim... Susana Serrão, bastava optar por «cabana de pesca», por exemplo.

[Texto 22 941]

Léxico: «stablecoin»

Já está bem assente


      Está na hora de dicionarizarmos o estrangeirismo «stablecoin». Volta não volta, ele aí está na imprensa: «Portugal passa a ter a partir desta quarta-feira stablecoins, uma aposta do Bison Bank, banco português de investimento que nasceu do Banif. É uma iniciativa pioneira no país. Já existem stablecoins famosas no mercado internacional e na Europa são ainda pontuais as emissões. [...] O que são as stablecoins? “É um token de moeda eletrónica, ou um electronic money token”, explica António Henriques. “Não é uma moeda, mas é equivalente a uma moeda no sentido em que é representado por um token, digital suportado em blockchain, que está depois suportado pela sua equivalência na moeda em que está indexado”, acrescenta» («Primeira stablecoin portuguesa é lançada esta quarta-feira», Sandra Afonso, Rádio Renascença, 6.05.2026, 00h00, itálicos meus). 

      Assim, proponho ➜ stablecoin ECONOMIA, FINANÇAS criptomoeda indexada a um activo estável, geralmente uma moeda fiduciária, concebida para reduzir a volatilidade típica das restantes criptomoedas.

      A etimologia já diz tudo, ou quase ➜ do inglês stablecoin, de stable, «estável», + coin, «moeda».

[Texto 22 940]

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