Definição: «autólise»

E não queremos isso


      «Ainda que as principais inovações tenham sido, como vimos, no século XIX, durante o século XX houve avanços científicos que ajudaram ao apuro da técnica de produção. O saber sobre o assunto é um work in progress que entra pelo século XXI. Por exemplo, ainda não há conclusões definitivas sobre o uso da carica ou de uma rolha com grampo para conservar a garrafa fechada durante o estágio, atendendo à permeabilidade (entrada de oxigénio) de um e outro vedante; a técnica de contagem de leveduras que ajuda à melhor definição da bolha do vinho; o fenómeno da autólise das leveduras — que ocorre quando as células da levedura morrem e as suas próprias enzimas começam a quebrar as estruturas celulares e a libertar compostos aromáticos» («Para uma história do espumante em Portugal», João Paulo Martins, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 34). 

      Um leitor que vá do artigo para a definição no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora concluirá inevitavelmente que um dos dois está incorrecto: «BIOLOGIA destruição espontânea dos tecidos orgânicos». Está de tal forma incompleto, que só pode gerar dúvidas no leitor leigo que consulta o dicionário. 

      Para evitar isso, proponho ➜ autólise BIOLOGIA degradação de células ou tecidos por acção das enzimas próprias da célula, geralmente após a morte celular ou em condições que comprometem a sua integridade, conduzindo à desagregação dos seus constituintes.

[Texto 22 927]

Léxico: «ané | fante»

Isto interessa-nos


      «Do lado de cá, nas margens de Aného, um braço do rio antecipa-se à foz e, sem pedir licença, faz uma incisão na linha costeira, para se encontrar com o Atlântico. Foi precisamente ali que, no final do século XVII, os anés, originários da antiga Costa do Ouro, procuraram refúgio dos ataques do Império Denkyira, cujos grupos armados procuravam sequestrá-los, fosse para os escravizar, fosse para os vender a mercadores europeus, através de intermediários da etnia fante. Sendo originários do local onde, 200 anos antes, os portugueses haviam construído o Castelo de São Jorge da Mina (no atual Gana), os anés passaram a integrar o conjunto de povos chamados Mina» («Na rota da escravatura», Tiago de Matos Fernandes, «Revista E»/Expresso, 17.04.2026, p. 30).

      Quanto a fante, o Houaiss indica que também tem a variante fânti, o que devemos ter em conta.

[Texto 22 926]

Léxico: «executividade | pré-executividade»

Já nos esquecíamos deste


      «Há, contudo, uma distinção importante a fazer entre as disposições que produzirão efeitos imediatos e aquelas que dependem de regulamentação para ter plena executividade» («Com nova Lei da Nacionalidade, Portugal reescreve o futuro de muitos imigrantes», Amanda Rattes, Público, 4.05.2026, 9h30).

[Texto 22 925]

Léxico: «edipianismo»

Do glossário psicanalítico


      «Na análise a um romance de um autor de renome da sua época, uma leitura sugerida pelo seu círculo mais próximo, Freud percorre muitos dos temas com que definiu o seu próprio trabalho: o edipianismo, o inconsciente, a interpretação dos sonhos e, como o título o indica, o delírio» («Delírios e sonhos na Gradiva de Jensen», Carlos Leone, «Revista E»/Expresso, 24.04.2026, p. 53).

[Texto 22 924]

Léxico: «escorrente»

Já que o prometes, Porto Editora


      «Treplicou a Nação uns dias depois, tempo necessário ao mosqueteiro, que estava na capital, para cevar o trabuco com cacos de pote e sal escorrente das salmouras» (O Romance de Camilo, Vol. 2, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 99).

[Texto 22 923]

Definição: «biruta | manga-de-vento»

É hoje


      De cada vez que passava, e passo várias vezes por semana, por uma biruta na A5, fazia uma nota mental para ir consultar o dicionário da Porto Editora para ler a definição. Aconteceu hoje, agora. A definição suscita, à primeira leitura, duas reservas. Por um lado, revela-se excessivamente extensa e descritiva, com pormenores que pouco acrescentam à identificação do objecto. Por outro, ao circunscrever o uso aos domínios da aeronáutica e da meteorologia, e sobretudo nesta ordem, pode levar a supor que se trata de um dispositivo próprio sobretudo de aeródromos e heliportos, quando, na prática, é igualmente comum em vias rápidas e auto-estradas, onde assinala a presença e intensidade do vento lateral. Assim, proponho ➜ biruta METEOROLOGIA, AERONÁUTICA dispositivo indicador da direcção e intensidade do vento à superfície, constituído por um tubo de tecido em forma de cone truncado, aberto nas duas extremidades, fixo pela boca mais larga a um aro no topo de um mastro e livre na extremidade mais estreita, que se distende e orienta com o sopro do vento, sendo usado em aeródromos, vias rodoviárias e outros locais expostos; manga-de-vento. 

      Quanto à etimologia, vem do francês biroute, de origem incerta, possivelmente relacionado com formas dialectais associadas a «tubo» ou «manga» e, por via semântica, à ideia de direcção (cf. route). 

      Em inglês, o dispositivo designa-se windsock, composto transparente de wind, «vento», e sock, «meia», atestado desde o início do século XX no sentido técnico de cone de tecido usado para indicar a direcção do vento. A imagem é evidente: uma «meia» ou tubo de pano que se enche com o vento. Em português, além de «biruta», ocorre a designação «manga-de-vento», igualmente transparente; trata-se de um composto lexicalizado do tipo nome + preposição + nome, que deve grafar-se com hífen. Apesar disso, o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não regista «manga-de-vento» (nem «manga de vento») como entrada autónoma, limitando-se a apresentá-la como sinónimo na entrada «biruta».

[Texto 22 922]

Léxico: «burkeano»

O tal erro


      «Edmund Burke (1729-1797) é talvez um dos mais marcantes actores e autores políticos — conjuntamente com Winston S. Churchill (1874-1965) — que expressaram e defenderam o espírito pluralista e não-revolucionário (nem contra-revolucionário) que tem sustentado a democracia liberal do Ocidente (ou, como prefere justamente dizer meu amigo Tim Garton Ash, do Mundo Livre)» («Elogio ‘Burkeano’ das eleições autárquicas», João Carlos Espada, Observador, 20.10.2025, 00h17). 

      Mas então, João Carlos Espada, é referente a Edmund Burke ou não? É? Então, esqueça as aspas. E lá está o adjectivo próprio — que nós não temos, mas do que jornalistas, autores, tradutores apressados se esquecem, se é que sabem. A relevância de Edmund Burke no pensamento político ocidental, como crítico da ruptura revolucionária e defensor do gradualismo e do pluralismo institucional, justifica plenamente a dicionarização do adjectivo «burkeano». 

[Texto 22 921]

Léxico: «chaleira nuclear»

Já fumega


      «António Eloy, coordenador do Observatório Ibérico de Energia e antigo membro do grupo consultivo do Plano Energético Nacional, é perentório: “Não há a mínima hipótese de a energia nuclear, nas suas formas atuais nem nas suas formas imaginárias (fusão e pequenos reatores modulares), ser implementada no nosso país, nem na Península Ibérica, onde está estabelecido um calendário escrito, com as empresas proprietárias das centrais, para o seu encerramento”, afirma, por e-mail. “Em meados da próxima década não haverá produção de eletricidade a partir do aquecimento de água em chaleiras nucleares na Península Ibérica”» («Enxadas contra o nuclear», Tiago Carrasco, «Revista E»/Expresso, 13.03.2026, p. 29). 

      Tem, por vezes, um sentido ligeiramente depreciativo, mas se até especialistas na área a usam, quem somos nós para a manter afastada dos dicionários? Assim, proponho ➜ chaleira nuclear figurado designação metafórica de central nuclear de produção de electricidade, empregada para sublinhar que o seu funcionamento assenta, em última análise, no aquecimento de água por calor gerado em reacções nucleares, com produção de vapor para accionar turbinas.

[Texto 22 920]

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