Léxico: «crista | geopotencial»

Incongruente, disse ele


      «Como já foi referido anteriormente noutras previsões da Meteored Portugal, o estado do tempo nos próximos dias vai mudar radicalmente em Portugal graças à rápida aproximação de uma poderosa crista anticiclónica subtropical que se instalará sobre toda a Península Ibérica» («Uma crista subtropical aproxima-se a toda a velocidade de Portugal: eis os fenómenos mais marcantes desta semana», Alfredo Graça, Meteored Portugal, 13.04.2026, 12h41). 

      A Porto Editora acolhe «crista anticiclónica», mas, como não acolhe «crista» na acepção meteorológica, não se pode dizer que esteja bem. Aliás, as cristas estão inerentemente associadas a anticiclones; logo, basta dicionarizar esta acepção de «crista». Além de que a definição não está inteiramente bem, em vários aspectos, mas sobretudo por dar ideia de que é o apêndice de um ciclone. Assim, proponho ➜ crista METEOROLOGIA região alongada de valores relativamente elevados de pressão atmosférica ou de altura geopotencial, correspondente a uma ondulação do campo de pressão com curvatura anticiclónica, associada, em geral, a subsidência do ar e a condições de tempo estável; opõe-se ao cavado.

[Texto 22 823]

Definição e etimologia: «apparatchik»

Último episódio


      Nos primeiros minutos do primeiro episódio da série Na Sombra, que passou na RTP2, o protagonista César Casalonga é apresentado, nas legendas, como burocrata — mas no original a palavra usada foi apparatchik. Nos últimos minutos do sexto e último episódio nas legendas já apareceu apparatchik. Não, não é o mesmo. Vamos pôr as coisas desta maneira subjectivíssima: não me importava de ser apparatchik; morreria de tédio se me visse na pele de burocrata. Se quiserem, sim, o apparatchik é uma espécie, mas muito particular, de burocrata. Não deve ter sido sem razão que a palavra, russa, veio para as línguas ocidentais. 

      Em geral, nos dicionários dessas línguas, aparece com UMA acepção, e serve bem para todos os fins. Se quisermos, e devemos querer sempre, ajudar o falante, duas. Está assim no dicionário da Porto Editora: «1. HISTÓRIA membro do aparelho do partido comunista da antiga União Soviética; 2. figurado indivíduo pertencente à estrutura burocrática de organização ou partido político; 3. depreciativo membro de organização política e/ou partidária que segue a linha oficial de forma acrítica e assume uma postura submissa face à estrutura de poder interno, geralmente com o objetivo de preservar e/ou conquistar vantagem pessoal». A minha primeira dúvida é que aquele seja um sentido figurado. Parece-me uma extensão de sentido, o que é diferente. Abreviando razões, essa carga depreciativa, que pode ou não haver, está presente desde o início, e lá onde surgiu o termo. Ninguém ganha nada em multiplicar, complicando, sentidos e acepções, quando está tudo lá logo na essência. Assim, proponho ➜ apparatchik POLÍTICA membro do aparelho de um partido, sobretudo no contexto da antiga União Soviética; por extensão, membro de organização política ou institucional que actua segundo a linha oficial de forma acrítica, com fidelidade à hierarquia e inserção na lógica interna do aparelho, geralmente com conotação pejorativa de submissão, conformismo ou oportunismo.

      Quanto à etimologia, vem do russo аппаратчик (apparátchik), de аппарат (apparát, «aparelho») + -чик (-čik, sufixo de agente), difundido nas línguas ocidentais através do inglês (e também do francês) durante a Guerra Fria.

[Texto 22 822]

Léxico: «confiança política»

Estão a ver mal a coisa


      Vi o vídeo da reunião de câmara em que Ana Abrunhosa, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, diz retirar a confiança ao jornalista da Lusa. A confiança, não a «confiança política», como vejo escrito na imprensa e ouço, como na segunda-feira, na Rádio Observador. Basta que tenha dito «confiança» e já é um disparate, mas se dissesse «confiança política» ia parecer-me simplesmente uma parvoíce. A primeira conclusão é que se sobrevaloriza muito a experiência. Aproveitando este triste incidente, proponho, porque se usa com muitíssima frequência, e não são meras duas palavrinhas justapostas, a seguinte definição de ➜ confiança política POLÍTICA relação de natureza político-institucional que se estabelece entre titulares de cargos no interior de um órgão executivo, fundada na convergência de orientação política, na lealdade e na expectativa de execução das directrizes governativas, e que constitui fundamento para a nomeação, manutenção em funções ou exoneração de membros desse órgão. 

      Prescinde-se, em honra dos preceitos dicionarísticos — e para salvaguarda da minha sanidade mental —, de dizer o que não é.

[Texto 22 821]

Léxico: «síndrome do sobrevivente»

Então são duas


      Na sequência de um despedimento colectivo de grande escala na Oracle, que atingiu uma parte significativa da sua força de trabalho, a empresa manteve apenas os trabalhadores considerados essenciais, gerando um clima interno de incerteza e pressão acrescida entre os que permaneceram. É neste contexto que se enquadra o fenómeno descrito no excerto seguinte. «Organisational psychologists have a name for it: survivor syndrome. Research pioneered by Joel Brockner at Columbia Business School shows that layoff survivors consistently develop negative reactions like reduced productivity and creativity, erosion of trust in manage-ment, and significantly higher intentions to leave» («The 'survivor syndrome' in those left behind after a layoff», John Xavier, The Hindu, 12.04.2026, p. 12). 

      Mas, como se sabe, há um conceito prévio e mais difundido do que este de ➜ síndrome do sobrevivente 1. PSICOLOGIA (clínica) conjunto de reacções emocionais de quem sobrevive a um acontecimento traumático em que outros morreram, caracterizado sobretudo por sentimentos de culpa, ansiedade e tristeza persistente; 2. PSICOLOGIA (organizacional) reacção psicológica de trabalhadores que permanecem numa organização após despedimentos colectivos, caracterizada por insegurança, desmotivação e quebra de confiança, com impacto no desempenho e no envolvimento profissional.

[Texto 22 820]

Léxico: «albedo | flavedo»

De onde menos se espera


      Aqui uma autora (a que usou uma acepção de «botica» que o dicionário da Porto Editora não acolhia), numa receita, usa dois termos relativos (no caso) à casca da laranja que andam arredados de todos os dicionários, albedo e flavedo. Ora esta... Bem, é melhor acolhê-los, pelo que proponho ➜ albedo BOTÂNICA camada interna do pericarpo dos frutos cítricos (hesperídios), situada entre o flavedo e a polpa, de cor branca e textura esponjosa, constituída essencialmente pelo mesocarpo e geralmente pouco rica em óleos essenciais | ➜ flavedo BOTÂNICA camada externa do pericarpo dos frutos cítricos (hesperídios), correspondente à casca visível e colorida, rica em glândulas de óleos essenciais e responsável pelo aroma característico dos citrinos. É isso: quem não vê, não sabe. É melhor estar (quase) tudo nos dicionários, e depois logo se vê se é necessário.

[Texto 22 819]

Definição: «barcaça»

Mas podemos tratar do caso


      Não serve de desculpa, evidentemente, mas a verdade é que «barcaça» também não está rigorosamente definida nos nossos dicionários. De tudo o que sei e leio e vejo, diria assim ➜ barcaça embarcação de fundo chato, larga e robusta, geralmente sem propulsão própria ou de fraca autonomia, usada em rios, estuários e zonas portuárias para transporte de carga pesada ou para apoio a operações de carga e descarga de navios.

[Texto 22 818]

Tradução: «péniche»

O contrário do que ali se intuía


      Quinto episódio da série Na Sombra. O mais electrizante até agora, a faltar um para o fim. Le Major, claramente nervoso, confessa a César e a Marylin: «C’est moi qui suis allé à la péniche où j’ai retrouvé le fils Pinguet.» Nas legendas: «Fui à barcaça, onde me encontrei com Pinguet Filho.» Ora, a embarcação está atracada em Issy-les-Moulineaux, um daqueles troços do Sena onde abundam péniches habitadas, muitas delas permanentemente atracadas e integradas no tecido urbano. São batelões convertidos, alguns luxuosíssimos. Chamar barcaça a isto... Há-de ser a pior escolha, muito, muito atrás, pela conotação, de «batelão», «barco», «casa-barco», e em último caso — oh, sim, dêem-me um tiro! — o termo original, péniche, que encontro em algumas traduções, para dar a cor local. Não há volta a dar, a palavra «barcaça» torna-se mesmo desajustada no contexto, já que remete de imediato para rudeza, trabalho pesado, até alguma degradação material, tudo o contrário do que se sabe (César fora lá antes, de noite) e do que se intui.

[Texto 22 817]

Léxico: «clipping»

Usada todos os dias, em todo o país


      «A Oposição quer que o Governo esclareça os moldes do uso da ferramenta NewsWhip, que permite monitorizar a importância de temas na opinião pública e identificar os jornalistas com “as vozes mais influentes e com maior presença numa crise”, através da análise de meios de comunicação online e das redes sociais. A Secretaria-Geral do Governo, estrutura criada para prestar aconselhamento ao Executivo da AD, argumenta que o serviço contratado por 40 mil euros é um tipo de “clipping [recolha seletiva de notícias] moderno” e não serve para vigiar jornalistas» («Governo chamado a explicar compra de serviço capaz de monitorizar jornalistas», Rita Neves Costa, Jornal de Notícias, 14.04.2026, p. 15). 

      Qualquer dia é uma ferramenta semelhante, mas para influenciadores e, quem sabe, autores de blogues. Lembremos o que escreveu o pastor luterano Martin Niemöller: «Primeiro vieram buscar os comunistas, e eu não falei — porque não era comunista. Depois vieram buscar os social-democratas, e eu não falei — porque não era social-democrata. Depois vieram buscar os sindicalistas, e eu não falei — porque não era sindicalista. Depois vieram buscar os judeus, e eu não falei — porque não era judeu. Depois vieram buscar-me a mim — e já não havia ninguém para falar por mim.» Entretanto, tempo para mais uma estranheza: no meu avatar de funcionário autárquico, tratava, entre outros assuntos, da organização e distribuição do material que recebíamos do serviço de clipping. Como é que a Porto Editora (vejam vocês noutros dicionários, façam qualquer coisinha) ainda não acolhe este estrangeirismo? 

      Vamos lá nós redigir uma boa definição de clipping, porque a jornalista não dispunha de mais caracteres. Assim, proponho ➜ clipping COMUNICAÇÃO, JORNALISMO serviço de recolha, selecção e organização de conteúdos publicados em meios de comunicação (imprensa, rádio, televisão, plataformas digitais), geralmente sobre determinado tema, entidade ou pessoa, com vista ao acompanhamento da cobertura mediática e à avaliação do seu impacto e relevância, podendo incluir análise quantitativa e qualitativa da presença e influência dessas menções.

[Texto 22 816]

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