Léxico: «vendeano»

Longe do Alentejo


      «Por sua vez, os padres, que passeavam suas éguas rabonas, nos coldres confundidas as pistolas com o crucifixo, à testa das colunas vendeanas de oprimidos e fanáticos, que desejavam?» (O Romance de Camilo, Vol. 1, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 264).

[Texto 22 815]

Léxico: «armadilha de queda»

Eu quero saber


      «A equipa liderada por Jordi Moya-Laraño, investigador da Estação Experimental de Zonas Áridas (EEZA-CSIC), em Espanha, conseguiu documentar em vídeo espécimes de “Cryptodrassus michaeli”, um aracnídeo que até agora só era conhecido de registos isolados. O trabalho de campo foi realizado na zona de Boca de los Frailes, na província de Almería, onde os biólogos utilizam armadilhas de queda, pequenos recipientes de plástico enterrados ao nível do solo, para capturar espécimes vivos» («Nova espécie de aranha com apenas três milímetros descoberta em Espanha», Jesús Maturana, Euronews, 9.04.2026, 11h45). 

      Sendo assim, ➜ armadilha de queda ZOOLOGIA dispositivo passivo de captura de pequenos animais terrestres, especialmente artrópodes, constituído por um recipiente enterrado ao nível do solo no qual os organismos caem ao deslocarem-se pela superfície; é utilizado em estudos ecológicos para recolha de espécimes (frequentemente vivos) e para avaliação da actividade e abundância relativa da fauna do solo.

[Texto 22 814]

Imagem tirada daqui: https://x.com/InsetoLand/

Definição: «rito tridentino»

Regime? Hum...


      «Codifié par le pape Pie V en 1570, le rite tridentin, l’autre nom de la célébration en langue officielle du Vatican, était le standard jusqu’aux réformes liturgiques des années 60. Mais aujourd’hui, contre toute attente, la messe en latin, sa rigueur et ses codes solennels, fait de la résistance. Ou plutôt elle est revigorée: toujours plus nombreux, les fidèles, en particulier les jeunes de moins de 30 ans, se pressent aux offices» («De plus en plus de jeunes se tournent vers la messe en latin», Catherine Cochard, Le Matin Dimanche, 12.04.2026, p. 15). 

      Estás a ver o título, Porto Editora? Onde é que esses jovens vão encontrar missa em latim? Pois nas igrejas, fraternidades que seguem o rito tridentino. Ora, estranho a tua definição, já que nem sequer se fala em Trento nem em Pio V, sendo quase toda construída por oposição. Assim, proponho ➜ rito tridentino RELIGIÃO forma tradicional do rito romano da Igreja Católica, fixada na sequência do Concílio de Trento (séc. XVI) e codificada no Missal de Pio V (1570), caracterizada pelo uso do latim, celebração com o sacerdote voltado para o altar (ad orientem), uma estrutura ritual mais fixa, a presença de ministros assistentes com funções definidas e por um maior uso de silêncio e de gestos codificados; manteve-se como forma dominante até à reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, continuando a ser celebrada, embora de modo mais restrito e minoritário, em diversas comunidades católicas.

[Texto 22 813]

Léxico: «cardioprotecção | cardioprotector | hipoglicemiante»

Vamos lá ver


      Que sorte têm os bacorinhos criados ao ar livre que se alimentam de bolotas, hein? Ao que parece, há fundamentos bioquímicos plausíveis para um efeito cardioprotector das bolotas, sobretudo devido aos ácidos gordos insaturados e aos antioxidantes, mas não há, até ao momento, prova clínica directa suficiente para as considerar um alimento com efeito protector específico sobre o coração. Há isto e depois aquelas merdas de síntese.

[Texto 22 812]

⋅ ── ✩ ── ⋅



P. S.: Ah, e são também (as bolotas, não os porquinhos) hipoglicemiantes. Ora tu, Porto Editora, só registas «hiperglicemiante».

Léxico: «caça-gralhas»

Não percebo


      Então porque é que ouço — e leio — a palavra «caça-gralhas» desde sempre e ela não está nos dicionários? Olha, por exemplo, na correspondência de Luiz Pacheco, que foi também revisor, e muito competente, disse-me uma vez Jaime Salazar Sampaio. Encontramos neles, nos dicionários, até palavras que não deviam estar lá, mas não todas as que existem e se usam.

[Texto 22 811]

Léxico: «ortóstato»

Só pode ser confusão


      «Cualquiera que se sitúe frente al “obelisco” de Avebury, un ortostato de más de 6 metros de altura y 3 de diámetro, se sentirá sobrecogido contemplando aquella piedra alzada hace 5.000 años en el centro de un círculo de piedras de casi 100 metros de diámetro» («Megalitismo: qué sabemos hoy sobre los gigantes de piedra», Diego Suárez Martínez, La Razón, 12.04.2026, p. 50). 

      A Porto Editora regista o termo, com duas acepções. Vamos esquecer a segunda, relativa à medicina, e concentremo-nos na primeira: «ARQUEOLOGIA, ARQUITECTURA laje ou bloco de pedra vertical que forma a parte inferior de um muro, parede ou outra estrutura erigida no solo». Não é assim. Caiu no erro de reunir numa só acepção, sob os domínios Arqueologia e Arquitectura, dois sentidos distintos de «ortóstato»: o da arquitectura antiga, em que o termo designa uma laje vertical usada sobretudo na parte inferior de um muro ou no revestimento de uma parede, e o da arqueologia do megalitismo, em que designa uma grande pedra fincada verticalmente e integrante de uma estrutura monumental. A fusão destes dois valores semânticos gera uma definição híbrida e, no respeitante ao megalitismo, errada. 

      Assim, proponho ➜ ortóstato ARQUEOLOGIA (megalitismo) grande pedra alongada disposta verticalmente e fincada no solo, que constitui elemento estrutural de construções megalíticas, servindo de suporte ou de delimitação, nomeadamente em dólmenes, antas ou outros monumentos afins; 2. ARQUITECTURA (antiga) laje ou bloco de pedra disposto verticalmente, utilizado sobretudo na fiada inferior de muros (basamento) ou no revestimento de paredes em construções da Antiguidade, especialmente na arquitectura grega. 

      E vamos lá deixar a etimologia mais compostinha, porque, na verdade, vem ➜ do lat. orthostāta, e este do gr. ὀρθοστάτης (orthostátēs), comp. de ὀρθός, «direito, vertical», e στάτης (de ἵστημι, «pôr de pé, fazer estar»), «o que está de pé», «pedra erguida».

[Texto 22 810]

Léxico: «sete mares»

País de navegadores...


      Bem sabemos que os mares são mais de cinquenta, mas a expressão que nos acompanha há séculos é outra: sete mares. Nunca designou um conjunto fixo, variou conforme as épocas e as geografias: para os Gregos antigos, incluía, entre outros, o Mediterrâneo, o Adriático, o mar Negro e o mar Vermelho; noutras tradições, podia abranger sequências de águas do golfo Pérsico ao mar da China Meridional. Hoje, porém, a expressão vale sobretudo como forma de dizer «todos os mares» ou mesmo «o mundo inteiro», como em «navegar pelos sete mares». Ora, esta expressão tem de constar de todos os dicionários, pelo que proponho ➜ sete mares conjunto dos mares do mundo; totalidade dos oceanos, sem referência a um número real ou fixo de mares; por extensão, o mundo inteiro, especialmente em expressões como «navegar pelos sete mares».

[Texto 22 809]

Léxico: «tecido técnico»

Na Decathlon, por exemplo


      Aqui a bracelete do meu Citizen Eco-Drive é de tecido técnico, caqui. Ora, de vez em quando encontro isto, e nos dicionários, nada, pelo que proponho ➜ tecido técnico tecido concebido para desempenhar funções específicas, além do uso estético ou de vestuário corrente; caracteriza-se por propriedades como resistência, respirabilidade, impermeabilidade, elasticidade ou secagem rápida, obtidas por tratamento, estrutura ou combinação de fibras, geralmente sintéticas ou mistas.

[Texto 22 808]

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