Léxico: «detentivo»

Esperem um pouco


      Não sei quê e tal e «que, como não tinham carácter detentivo, levaram o juiz de instrução a libertar os quatro detidos no domingo passado», dizia o Público, mas depois o texto desapareceu, mas já se sabe, nothing ever truly disappears from the Internet. Como viram que a Porto Editora assegura que detentivo estará «brevemente disponível», recuaram.

[Texto 22 688]

Definição: «intersexualidade»

Mais comum do que se pensa


      Num artigo recente no La Razón sobre um documentário dedicado à intersexualidade, lê-se que se trata de indivíduos «que nascem com características biológicas que não encaixam nas categorias tradicionais de masculino ou feminino», formulação que corresponde ao entendimento científico actual da questão e contrasta — chega a chocar, na verdade — com a definição de «intersexualidade» do dicionário da Porto Editora. No mesmo artigo, estima-se que cerca de 1 em cada 2000 nascimentos apresente variações das características sexuais, o que evidencia que não se trata de um fenómeno marginal, mas de uma realidade biológica com expressão mensurável. A definição da Porto Editora divide-se em duas acepções, ambas problemáticas. A primeira descreve a «qualidade do indivíduo de um sexo com características […] que o faz parecer do outro», o que reduz o fenómeno a uma questão de aparência ou de percepção externa, ignorando a sua base biológica. A segunda afirma que o indivíduo «inicia o seu desenvolvimento com um sexo e termina com outro», ideia que não encontra apoio na biologia contemporânea e reflecte antes concepções antigas, entretanto abandonadas e denunciadas no documentário (The Secret of Me) realizado por Grace Hughes-Hallett. Não há aqui duas acepções legítimas, mas duas tentativas de apreender um mesmo fenómeno. A própria estrutura da definição parece ainda ecoar concepções hoje ultrapassadas, associadas a uma visão desenvolvimentista e normalizadora do sexo — como a que foi defendida pelo psicólogo neozelandês John Money —, e que esteve na origem de práticas médicas hoje amplamente criticadas. 

      Impõe-se, por isso, uma reformulação que tenha em conta o conhecimento científico actual. Assim, proponho ➜ intersexualidade BIOLOGIA, MEDICINA condição caracterizada pela presença de variações nas características sexuais (cromossómicas, gonadais, hormonais ou anatómicas) que não correspondem às definições típicas de masculino ou feminino, podendo manifestar-se de diversas formas ao nascimento ou ao longo do desenvolvimento. 

      A questão é referida na literatura médica e em dicionários recentes com diferentes formulações («variações», «diferenças» ou «perturbações do desenvolvimento sexual»), correspondendo, em geral, ao inglês differences/disorders of sex development (DSD), e nunca aí se fala em aparência.

[Texto 22 687]

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P. S.: Já se deixa adivinhar que também a definição de «intersexo» padece dos mesmos problemas. E a solução é simples: alinhar a sua definição com a de «intersexualidade», descrevendo-a em termos de variações das características sexuais, e não como mera combinação de traços masculinos e femininos.


Definição: «secretário-geral»

Dá-me lúmen


      «As medidas de coação da Operação “Lúmen” foram conhecidas esta terça-feira. O secretário-geral da Câmara de Lisboa, Laplaine Guimarães, fica suspenso de funções, determinou o Tribunal de Instrução Criminal (TIC) do Porto» («Laplaine Guimarães suspenso de funções na Câmara de Lisboa», Ricardo Vieira, Rádio Renascença, 24.03.2026, 16h58).

      Numa rádio, uma comentadora, jurista, e dessas mais espevitadas, confessou que não sabia que existia este cargo na Câmara Municipal de Lisboa. Os dicionários até sabem, mas deviam caracterizá-lo melhor, ninguém iria sentir-se triste ou ofendido. Assim, proponho ➜ secretário-geral cargo de direcção superior, em instituições públicas ou privadas, exercido por quem assegura a coordenação e o funcionamento dos serviços, promovendo a articulação entre unidades orgânicas e o cumprimento das orientações definidas pelos órgãos dirigentes, podendo incluir funções de apoio directo à direcção e de supervisão administrativa e organizacional.

[Texto 22 686]

Léxico: «sala de guerra»

Pode ser a mais importante


      Até aparece nos meios de comunicação social — «Taiwan assiste à COP30 numa “sala de guerra”…» (Salomé Fernandes, Expresso, 12.11.2025, 13h30) —, mas vou citar o filme Dr. Estranhoamor, que vi ontem. Quando o general Buck Turgidson se envolve à pancada com o embaixador russo, diz o presidente: «Gentlemen, you can’t fight in here! This is the War Room!» Comédia é comédia, ainda que negra. Então temos tantas salas nos dicionários e não encontramos lá esta? Assim, proponho ➜ sala de guerra MILITAR, POLÍTICA espaço físico ou virtual onde se centralizam e expõem informações relativas a um ou mais teatros de operações ou a uma situação crítica, e no qual se reúnem os elementos de comando (nomeadamente o estado-maior) para analisar dados, planear, decidir e acompanhar a execução de acções; por extensão, estrutura de coordenação intensiva usada em contextos não militares para gerir crises ou projectos complexos.

[Texto 22 685]

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P. S.: Estranho, lamentável, é que se encontre de quando em quando a forma «Dr. Estranho-amor», com hífen, como se se tratasse de uma simples combinação adjectivo + substantivo. Ora, no filme Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb, o nome é apresentado como uma unidade lexical, tradução directa (e já de si humorística) do pseudo-alemão Merkwürdigliebe, forjado para imitar a composição germânica. Tal como em inglês se fixou Strangelove e não Strange Love, também em português a forma coerente é Estranhoamor, aglutinada e assumida como apelido, não «Estranho-amor».


Definição: «arsenopirite»

Nem que fosse apenas pela fórmula


      «Em 2019, investigadores da Universidade do Porto avaliaram os riscos do consumo de água contaminada por arsénio na região, documentando o despejo de centenas de toneladas de arsenopirita decorrentes da extracção de volfrâmio em décadas anteriores» («Minas da Panasqueira: Quercus denuncia risco de contaminação tóxica no rio Zêzere», Andrea Cunha Freitas, Público, 24.03.2026, 8h17). 

      A jornalista falha — falham sempre em alguma coisa — é em adoptar a variante brasileira: em Portugal diz-se «arsenopirite». Falha também a Porto Editora, que, entre outros aspectos, não indica a fórmula deste mineral. Assim, proponho ➜ arsenopirite MINERALOGIA (FeAsS) mineral de ferro e arsénio do grupo dos sulfuretos, cristalizando no sistema monoclínico, frequentemente com hábito pseudo-ortorrômbico; ao ser quebrado pode exalar odor a alho; constitui o principal minério de arsénio.

[Texto 22 684]

Léxico: «calpaque»

Avancemos


      Várias imagens e depois: «Na página anterior, um homem usando o calpaque, chapéu típico quirguiz» («Manas é melhor do que Lenine», Paolo Moiola, Além-Mar, Abril de 2026, p. 35). Ora, vejo a palavra num vocabulário publicado em 1967 e agora que aparece na imprensa, nada, fora dos dicionários. Faz lembrar o caso de «herança indivisa» (menos auto-explicativo do que se julga), que andamos a encontrar nos meios de comunicação vai para três semanas, e que também está fora dos dicionários, ao passo que «herança jacente», que creio jamais ter encontrado no uso vivo (e já li mais textos de natureza jurídica do que a maioria dos meus leitores), tem lugar nos dicionários. Enfim, critérios muito discutíveis.

[Texto 22 683]

Definição: «gilbertês»

Mais do que o estrito, esquelético, básico


      «Kiribati (em gilbertês lê-se Kiribas, porque o “ti” tem som de “s”) compõe-se de três grupos de ilhas, as Gilbert, as Fénix e as Espórades Equatoriais ou ilhas da Linha, espalhadas pelo oceano Pacífico e por quatro hemisférios, caso único no planeta» («Kiribati, o pais-mar: preservar o oceano que lhes corre nas veias», António Rodrigues, Público, 23.03.2026, 21h30). 

      Até pode encontrar-se de quando em quando a referência a «quatro hemisférios», mas isso não legitima o seu uso. Isso daria duas Terras. Claro que percebo a ideia por detrás, mas se se usar o termo «quadrante», não há imprecisões nem desnecessárias extensões de sentido. Quanto a «gilbertês», para evitar uma definição excessivamente esquemática como aquela que encontramos nos nossos dicionários, proponho ➜ gilbertês LINGUÍSTICA língua austronésia do ramo micronésio, falada no Quiribáti, onde é língua oficial a par do inglês; apresenta grande homogeneidade dialectal entre as ilhas, apesar da dispersão geográfica do arquipélago; caracteriza-se por um sistema fonológico relativamente simples e por uma morfologia predominantemente analítica, com uso de partículas para marcar relações gramaticais.

[Texto 22 682]

Definição: «factor»

Sim e não


      No 8.º episódio («As Cidades dos Ferroviários») da excelente série documental Passagem de Nível, que passa na RTP2, falou-se mais de uma vez numa das profissões ferroviárias, a de factor. Não se pode dizer que esteja muito bem definido nos dicionários, longe disso, pelo que proponho ➜ factor FERROVIA antiquado (em Portugal) empregado encarregado da gestão administrativa e comercial do tráfego de mercadorias e encomendas numa estação ferroviária; regista expedições e chegadas, calcula fretes e taxas, emite documentação de transporte e assegura a escrituração associada ao movimento de cargas, sendo frequentemente, em estações de menor movimento, o responsável principal pelo funcionamento da estação. 

      Antiquado, decerto; mas houve factores em Portugal até às portas do século XXI. E continuam a existir em Angola. Portanto, antiquado em Portugal. Aqui, por exemplo, em relação ao Caminho-de-Ferro de Luanda (CFL), vejo a notícia de abertura de um curso para formação de factores de estação que decorreu em 2024.

[Texto 22 681]

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