Léxico: «audimetria»

Não peçam tanto

      Ah, os dicionários... Como é que se pode pretender que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registe o vocábulo «audimetria» se nem sequer acolhe o muito mais vulgar «audiometria», o estudo metrológico da audição? A audimetria é o sistema de recolha electrónica de informação sobre o comportamento de determinado público em relação aos programas de televisão através de um aparelho denominado audímetro. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «audiometria».

[Texto 95]


Aspas e maiúscula

Águias, Leões, Dragões

      «FC Porto e Benfica decidem hoje quem conquista o título de campeão nacional de basquetebol. O sétimo e derradeiro encontro da final do play-off realiza-se esta noite (20h30, SPTV1), no terreno dos “dragões”. “Está tudo nas mãos do FC Porto e há muito tempo que não perdemos um jogo no Dragão Caixa”, sublinhou o treinador dos “azuis e brancos”, Moncho López, referindo-se à invencibilidade caseira da equipa nesta época. […] Por seu lado, o técnico do Benfica acredita que a maior experiência dos “encarnados” em jogos decisivos poderá desequilibrar a eliminatória» («Dragão Caixa recebe hoje a “negra” que decide o título», T. P., Público, 2.06.2011, p. 36).
      Um leitor pergunta-me se as aspas em «negra» se justificam. Não justificam. O termo pertence à gíria desportiva e está dicionarizado, o que, de qualquer modo, não é condição para se usar sem aspas. Como não se justificam em «dragões», «azuis e brancos» e «encarnados». Estes nomes, aliás, deviam ser grafados com maiúscula inicial: Dragões, Leões, Águias...

[Texto 94]

Tradução

Árvore Ellen!?

      Os tempos ainda pediam que se encontrassem nomes portugueses para as personagens, escrevi eu, mas vejam agora. Grace e Amy estão a descansar depois de uma corrida à volta do campo — «liderada por Ned», diz a tradução recente; «com Nuno à frente», lê-se na tradução antiga.
      «— Não gosta de andar a cavalo? — perguntou Grace a Melita, que estava a descansar, depois de uma corrida em volta do campo com as outras, com Nuno à frente.
      — Sou doida por isso. A minha irmã Gui costumava montar quando o pai era rico, mas agora não temos cavalos, a não ser a Ellen Tree.
      — Conte-me tudo a respeito da Ellen Tree. É um burro? — perguntou Grace cheia de curiosidade» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Maria da Graça Moura Brás. Lisboa: Portugália Editora, s/d, p. 167).
      «— Não gosta de montar? — perguntou Grace a Amy, enquanto repousavam depois de uma corrida à volta do campo com os outros, liderada por Ned.
      — Tenho talento para tal. A minha irmã, a Meg, costumava montar quando o nosso Pai era rico, mas agora já não nos resta nenhum cavalo, excepto a Árvore Ellen — acrescentou Amy, rindo.
      — Fala-me de Árvore Ellen. É uma mula? — perguntou Grace, curiosa» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Ana Mendes da Silva. Alfragide: Edi9, 2010, p. 128).

[Texto 93]

Tradução

Não se conheciam os picles

      «— Não acredito que qualquer de vocês sofra o que eu aturo — exclamou Melita —, porque não têm de ir para a escola com raparigas insuportáveis, que põem um rótulo de acusado de qualquer crime ao nosso pai, se ele não é rico, como elas pretendem.
      — Se disseres só acusado de qualquer crime, está bem; mas não nos fales em rótulos, como se o nosso pai fosse um frasco de conserva — aconselhou Zé com uma risada» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Maria da Graça Moura Brás. Lisboa: Portugália Editora, s/d, p. 11).
      «— Não acredito que nenhuma de vocês sofra tanto como eu, — chorou Amy — nenhuma de vocês tem de ir à escola com raparigas impertinentes que nos moem a paciência se não sabemos a lição, que fazem troça dos nossos vestidos, rotulam o nosso Pai por não ser rico e ainda por cima fazem pouco de quem não tem um nariz bonito.
      — Se te referes às más línguas*, diria que sim, e não a rótulos, como se o Papá fosse um frasco de picles — recomendou Jo, rindo» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Ana Mendes da Silva. Alfragide: Edi9, 2010, p. 8).

A nota a «más línguas» (má ortografia), diz: «Trocadilho entre as palavras libel (más línguas) e label (rótulo). [N. de T.]» Maria da Graça Moura Brás esqueceu-se do insulto ao nariz, «and insult you when your nose isn’t nice», e os tempos ainda pediam que se encontrassem nomes portugueses para as personagens. Na tradução mais recente, a nota de rodapé não é muito clara. Digam-me que tradução preferem.
[Texto 92]

 

Léxico: «enteremorrágico»

Tem mais uma tentativa

      Depois de Ana Maia, com o seu inconcebível «enterohemorrágica», hoje foi a vez de Ana Gerschenfeld tentar — e errar: «E as E. coli entero-hemorrágicas (EHEC) como a que tem provocado o surto de infecções alimentares na Alemanha?» («Perguntas e respostas», Ana Gerschenfeld, Público, 1.06.2011, p. 3). Bem, mas melhorou, pelo menos não ofende gravemente. O texto tem, porém, outros erros. Um exemplo: «Estas bactérias morrem a temperaturas superiores aos 70.ºC ou inferiores aos –20.ºC.»
[Texto 91]

«Deduzir acusação contra»

Nem por decreto

      «O Ministério Público deduziu acusação de crime de homicídio qualificado à mulher suspeita de ter afogado o filho de dois anos na ribeira do parque da Serra das Minas, concelho de Sintra, anunciou a Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa» («Mãe será julgada por afogar o filho», Público, 1.06.2011, p. 29).
      Deve ter sido também o Ministério Público que ordenou a mudança de regência verbal.

[Texto 90]

Léxico: «inemprestável»

Também podia ter acertado

      «Eis uma novidade na coexistência dos formatos. Li, no meu Kindle, um livro que eu queria emprestar e dar a ler, sem ter de prescindir do meu Kindle para que o lesse. […] Seja: o livro, impresso e enviado de Inglaterra, custou metade da versão e-book, electrónica e inimprestável, que eu tinha comprado» («Que grande corte», Miguel Esteves Cardoso, Público, 1.06.2011, p. 39).
      Trata-se então de não ser susceptível de se emprestar, é isso? Mas a segunda frase (como diria Fernando Venâncio) range. In + emprestável = inemprestável. Espero que Miguel Esteves Cardoso não tenha pretendido reduplicar o sufixo de «imprestável» (que não presta; inútil). E a mesma preposição, «de», a reger dois adjectivos que pedem preposições diferentes também deixaria os mais puristas arrepiados.

[Texto 89]

 

«Saco de gatos»

E podia ter acertado

      De «O Público errou»: «Escrevemos na edição de ontem que António Vitorino usara, num comício do PS em Setúbal, a expressão “saco de ratos”, quando o que foi dito foi “saco de gatos” (“quando cheira a poder aparecem todos juntos, para logo a seguir voltarem a ser um saco de gatos”)» (Público, 1.06.2011, p. 38). Apenas com a transposição de uma letra e troca de outra: «quando cheira a podre aparecem todos juntos, para logo a seguir voltarem a ser um saco de ratos». No D. Quixote também há, lembra-se, Fernando Venâncio?, um saco de gatos, não para dar a ideia, agora transmitida quando se usa a expressão, de desorganização, mas literal.
[Texto 88]

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