Léxico: «biscoito champanhe»

Não gosto muito, mas ei-los


      «Se você pensa em biscoito champanhe e não pensa em tiramisú, você precisa saber que faz parte de uma minoria. Base de uma das sobremesas mais amadas do mundo, esse biscoito leve, aerado e delicadamente adocicado é curinga na confeitaria» («Confeiteiros renomados avaliam requinte crocante do biscoito champanhe», Fernanda Meneguetti, O Estado de S. Paulo, 19.04.2026, p. C7). 

      Estão outros biscoitos nos dicionários, pelo que proponho ➜ biscoito champanhe CULINÁRIA biscoito seco e leve, de forma alongada, preparado à base de ovos, açúcar e farinha, com interior areado e superfície seca e crocante, frequentemente polvilhado com açúcar; caracteriza-se pela estrutura porosa que lhe permite absorver líquidos sem se desfazer de imediato, sendo usado sobretudo em sobremesas como tiramisu, pavês e charlottes, ou servido acompanhado de café, chá ou bebidas alcoólicas.

[Texto 22 839]

Léxico: «memrístor»

Esta é prometedora


      E ali está, no texto sobre a sinapse, um termo que promete muito para a evolução da inteligência artificial. Afinal, não temos «transístor» e «termístor», por exemplo? No teu caso, Porto Editora, também prometes, e espero que seja promessa de político, «termistor» e «transistor». Assim, proponho ➜ memrístor ELECTRÓNICA dispositivo electrónico passivo cuja resistência varia em função da corrente eléctrica que o atravessou anteriormente, conservando essa variação mesmo na ausência de alimentação; funciona assim como um elemento com memória incorporada, sendo por isso considerado análogo funcional das sinapses biológicas e estudado no âmbito da computação neuromórfica.

[Texto 22 838]

Léxico: «diamante-mandarim»

Nas nossas gaiolas


      «Um pequeno pássaro nativo da Austrália – o diamante-mandarim – é famoso pela sua capacidade de aprender novas canções e é um dos favoritos dos cientistas para estudar a forma como os animais conseguem assimilar novas capacidades» («Regeneração cerebral em algumas aves pode inspirar reparações no cérebro humano», Rádio Renascença, 18.04.2026, 1h30). 

      Pois, é o Taeniopygia guttata, e como tem vários nomes e está nas gaiolas de algumas casas portuguesas, Porto Editora, já sabes o que tens de fazer. 

[Texto 22 837]

Como se fala por aí

Ou é a prosa que é adormecente?


      «Quanto à difusão, Bacelar Gouveia enfrenta sentimentos contraditórios. Por um lado, está satisfeito, porque o livro (lançado em Fevereiro, com chancela da Almedina) “tem vendido bem”, mas por outro está convencido de que este tema “não interessa às pessoas”: “Nós não temos em Portugal uma questão linguística, reconheço, mas temos pequenas questões linguísticas: o acordo [ortográfico] é uma questão controversa; o modo de escrever; a linguagem inclusiva, que tem muito que se lhe diga; ou a parte da informática, que aqui não está tratada. O problema é que em Portugal há pouco diálogo científico e as elites universitárias, aqui tenho uma visão muito pessimista, são muito frágeis e estão muito adormecentes.” Há, segundo Bacelar Gouveia, razões para isso: “O processo de Bolonha veio burocratizar o trabalho universitário, os professores gastam metade do seu tempo a preencher relatórios e a fornecer estatísticas, e não têm tempo para ler, escrever e pensar”» («“O uso generalizado e até abusivo do inglês começa a ser inadmissível”», Nuno Pacheco, Público, 17.04.2026, p. 30). 

      As elites universitárias, seja lá isso o que for, «são frágeis e estão adormecentes»... O que me parece é que é muito má ideia usarmos palavras que não conhecemos bem.

[Texto 22 836]

Definição: «sinapse»

Qual teoria...


      «The human brain takes a different approach. Every synapse – the junctions where neurons communicate – both stores and processes information locally, which means memory and processing are fused inside the same biological hardware. This is one reason the human brain can run roughly 10¹⁴ synaptic operations per second on about 20 W of power (less than a dim household light bulb), but an Al model running in a data centre will need at least hundreds to thousands of times more power for the same number of operations» («New brain-inspired ‘memristors’ promise to reduce AI energy use», Shamim Haque Mondal, The Hindu, 16.04.2026, p. II). 

      É um bom contributo para uma nova definição de «sinapse». Já a do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora padece de vários problemas, como a formulação ser datada («teoria neurónica»), o núcleo funcional da noção não estar bem captado e a divisão em duas acepções ser totalmente artificial. Apenas a referência à região de contacto e à transmissão apontam na direcção certa. Aprofundemos um pouco apenas dois aspectos. Primeiro, a teoria neurónica é uma formulação do fim do século XIX, hoje tão básico, que deixou de ser teoria no sentido activo, é conhecimento estabelecido. Segundo, para teres duas acepções, Porto Editora, separas neurónio-neurónio de neurónio-músculo. Mas a segunda não é um significado diferente: é apenas um caso particular da primeira. Trata-se sempre do mesmo tipo de entidade, uma junção funcional especializada entre um neurónio e outra célula excitável ou efectora. Logo, induz em erro, mas não é meramente dispensável: é errado. 

      Assim, proponho ➜ sinapse ANATOMIA região especializada de comunicação entre um neurónio e outra célula (geralmente outro neurónio, mas também uma célula muscular ou glandular), onde o impulso nervoso é transmitido por mecanismos electroquímicos, com libertação de neurotransmissores e modulação da intensidade do sinal; desempenha papel essencial na integração, no processamento e na plasticidade da actividade nervosa.

[Texto 22 835]

Definição: «desporto»

É que nem pensar, Pepe


       De manhã, estavam dois badamecos comentadores na Cadena COPE a discutir acaloradamente o que é, como se define desporto. Um defendia uma posição, digamos, próxima da que expressa a definição da Porto Editora: «exercício físico praticado de forma metódica, individualmente ou em grupo, e com diversos objectivos (competição, recreação, terapia, etc.)». É que nem pensar. O que justificava até a irritação do outro, que subscreveria, tenho a certeza, esta minha proposta ➜ desporto actividade correspondente à prática de modalidades codificadas, geralmente de natureza física (podendo, em certos casos, ter componente predominantemente mental), realizada individual ou colectivamente, de forma informal ou em contexto competitivo, segundo regras estabelecidas, que exige treino, destreza e controlo técnico.

[Texto 22 834]

Tradução: «lactante»

Vê-se de tudo


      «Dos agentes de la Guardia Civil fuera de servicio salvaron la vida a una niña de 16 meses que se encontraba en parada cardiorrespiratoria en el municipio de Alhama de Murcia. Los agentes practicaron primeros auxilios, aplicando la maniobra de Heimlich adaptada para lactantes. Gracias a ello, la niña comenzó a ventilar de forma autónoma antes de la llegada de la ambulancia. En la imagen, los guardias, con la menor» («Dos guardias civiles fuera de servicio salvan la vida a una niña», La Razón, 16.04.2026, p. 45). 

      Vamos pôr as coisas assim: muitos desses que julgam que estão habilitados a traduzir do castelhano apenas porque, antes do 25 de Abril, os avós iam comprar caramelos a Badajoz iam espalhar-se aqui. É que em castelhano lactante tanto designa o bebé, a criança que mama, como a mulher que amamenta. Em português, precisamos de duas palavras: lactante é a mulher que amamenta, e à criança que mama damos o nome de lactente. Por um daqueles acasos em que a minha vida (ou a de todos?) é pródiga, justamente na semana passada revi uma obra em que a autora usava o termo errado.

[Texto 22 833]

Maiúsculas e minúsculas, a origem

Foi assim


      Já alguma vez pensaram porque são tão diferentes algumas letras nas maiúsculas e nas minúsculas — por exemplo, o a e o g — enquanto outras, como o c ou o s, quase não mudam? A resposta está na sua origem distinta. As maiúsculas vêm da tradição epigráfica romana, isto é, das inscrições gravadas em pedra, de traço geométrico e regular. As minúsculas, pelo contrário, nasceram de escritas cursivas, usadas no dia-a-dia com tinta, em que a rapidez levou à simplificação e transformação das formas. Foi entre os séculos VIII e IX, no contexto das reformas de Carlos Magno, que essas formas se estabilizaram na chamada minúscula carolíngia. Mais tarde, no Renascimento, os tipógrafos combinaram essas minúsculas com capitais inspiradas na epigrafia romana, fixando o alfabeto tal como hoje o usamos.

[Texto 22 832]

Arquivo do blogue