Léxico: «ordinariedade»

Se é para breve


      «Gila Sher diz que a queda da verdade não é nova, já vem de Nietzsche, “o que distingue a corrente crise da verdade é a sua ordinariedade e universalidade. Surgiu a partir de circunstâncias comuns. Não está ligada a um qualquer regime corrupto ou acontecimento catastrófico. Nem está limitada a uma sociedade ou ideologia particular. A vida comum, sem extremismo, está a perder a sua ligação à verdade”» («Desumanidade», António Rodrigues, Público, 6.03.2026, 7h00).

[Texto 22 591]

Uma ida ao teatro

Tudo na mesma


      Fui ver a peça O Quarto, de Harold Pinter, no Teatro Experimental de Cascais. Uns minutos antes de a peça começar, e até parecia que andavam ainda a carpintejar no palco, porque se atrasaram, um espertalhão ao meu lado, acompanhado de duas mulheres, dizia esperar que nenhuma delas sofresse de estroboscopia. E eu só espero que a criatura não seja professor e não ande por aí a ensinar parvoíces. Quanto à peça, os erros do costume. Na ficha técnica, do tradutor ao frente-de-casa (termo que em boa hora levámos para o dicionário da Porto Editora em Abril de 2024), aparece o nome de toda a gente — menos do revisor, porque os responsáveis acham que as peças de teatro não precisam de revisão. Como estão enganados... 

[Texto 22 590]

Definição e etimologia: «plateresco»

Falta a terceira influência


      «Com os filhos pequenos, foi-se instalando em várias cidades, de acordo com as necessidades da governação e, às vezes, com a preocupação de evitar epidemias. Uma das cidades em que mais tempo se deteve foi Valladolid onde, em Maio de 1527, nasceu o seu primogénito. Ainda se conserva o Palácio Real, onde se deu o real nascimento, que hoje serve de sede da Deputação Provincial de Valladolid, o governo da província, e onde ainda se encontra uma bela janela plateresca, um estilo de transição do princípio do século XVI, entre o mudéjar e o gótico flamejante. Não muito longe está a Igreja de São Paulo onde o príncipe recém-nascido foi baptizado, no mesmo dia em que o pai recebeu a terrível notícia de que os seus exércitos tinham saqueado Roma de forma brutal» («Da corte portuguesa a terras de Espanha: no encalço da rainha Isabel», Maria João Martins, Público, 8.03.2026, 10h22).

      Ora bem, é essa influência mudéjar que está ausente de quase todos os dicionários. No caso da Porto Editora, o pior é a nota etimológica ser mera excrescência. Assim, proponho ➔ plateresco ARQUITECTURA estilo arquitectónico espanhol do final do século XV e da primeira metade do século XVI, caracterizado por ornamentação extremamente rica e minuciosa que lembra o trabalho da ourivesaria, combinando elementos do gótico tardio, da tradição mudéjar e do Renascimento italiano.

      Quanto à etimologia, vem do castelhano plateresco, derivado de platero, «ourives», de plata, «prata», com o sufixo -esco, que exprime relação ou semelhança («à maneira de ourives»).

      Até pode ficar fora da definição, mas deve acrescentar-se que a ornamentação plateresca aplicava-se sobretudo às fachadas, portais e janelas dos edifícios e, muitas vezes, era acrescentada a construções já existentes, frequentemente de estrutura gótica, funcionando como revestimento decorativo muito elaborado.

[Texto 22 589]


Definição: «quirguiz»

Logo por azar


      «Em Bishkek, a herança soviética vê-se por toda a parte. E, no que nos diz respeito, também muito de perto. Alexander, o nosso motorista, não só nasceu na Rússia (em Volgogrado), como fala exclusivamente russo. Chegou aqui em criança, casou-se e teve três filhos sem nunca ter aprendido quirguiz» («Manas é melhor do que Lenine», Paolo Moiola, Além-Mar, Abril de 2026, p. 44). 

      A Porto Editora não se quis cansar muito e no verbete de «quirguiz», depois de mencionar que é o natural do Quirguistão, na acepção de língua limita-se a indicar que é a «língua falada neste país». Ora obrigadinho. Logo por azar, a definição do tão decantado Houaiss também não saiu grande coisa. Sendo assim, proponho ➔ quirguiz LINGUÍSTICA língua túrquica do ramo kipchak, falada sobretudo no Quirguistão e também por comunidades no Oeste da China (Xinjiang), Afeganistão, Tajiquistão e Usbequistão; apresenta forte proximidade estrutural com o cazaque e, desde o período soviético, escreve-se predominantemente com alfabeto cirílico, embora existam também sistemas baseados no alfabeto árabe (na China) e tentativas de latinização; é língua oficial do Quirguistão.

[Texto 22 588]

Definição e etimologia: «viburno»

Alimento no Paleolítico


      «Ese fruto es el de la Viburnum opulus, que tiene varios nombres comunes: rosa de Guelder, bola de nieve, mundillo... “La rosa de Guelder, su fruto, es astringente, antioxidante y tiene un montón de propiedades medicinales que debían hacerla interesante para estas comunidades, pero es tóxica; cuando te las comes crudas, te pones bastante malo, sabe fatal, yo las he probado, y el olor también es horrible”, recuerda la investigadora [da Universidade de York, Reino Unido]. González las cocinó de muchas maneras, durante distintos tiempos y a varias temperaturas. “Luego las mezclé con dos tipos de pescado, barbos y carpas, y ahí cambia todo. Su sabor se vuelve dulce. El pescado le da otro registro al sabor”, comenta. En muchas zonas de Polonia, Ucrania o Rusia aún se consume esta especie de gelatina fermentada» («No solo de carne vivía el hombre paleolítico», Miguel Ángel Criado, El País, 8.03.2026, p. 44).

      Dada a importância que teve, e visto que a etimologia é largamente melhorável, proponho ➔ viburno BOTÂNICA (Viburnum opulus) arbusto caducifólio da família das Adoxáceas, originário da Europa e da Ásia temperada e cultivado como ornamental; atinge geralmente 2-4 m de altura, tem folhas opostas palmatilobadas e inflorescências em corimbo com pequenas flores férteis centrais rodeadas por flores exteriores maiores e vistosas; produz pequenas drupas globosas, vermelhas e translúcidas, que amadurecem no fim do Verão e persistem frequentemente no arbusto durante o Outono; conhecido também por bola-de-neve, viburno-bola-de-neve, noveleiro e rosa-de-gueldres.

      Quanto à etimologia, vem do latim viburnum, nome de um arbusto flexível usado para vimes, aplicado pelos autores clássicos sobretudo ao lantaneiro (Viburnum lantana) e adoptado na botânica moderna como nome do género Viburnum.

[Texto 22 587]

Léxico: «chumbador»

Levem isto na bagagem


      «O túnel é construído pela técnica NATM (novo método austríaco de tunelamento, na tradução), em que a escavação é feita de forma sequencial —o maciço rochoso é o suporte principal da obra, com reforço de concreto projetado, cambotas metálicas e chumbadores» («Túnel do metrô sob a Paulista entra em fase crítica com corte de fundações», Fábio Pescarini, Folha de S. Paulo, 8.03.2026, p. A32). 

      Convém que, quando chegarem ao Brasil, os nossos engenheiros saibam o que é ➔ chumbador ENGENHARIA CIVIL barra ou haste metálica introduzida em perfuração feita no maciço rochoso ou no betão e fixada por chumbagem com argamassa, cimento ou resina, utilizada para reforçar e estabilizar o terreno ou a rocha envolvente, funcionando como elemento de ancoragem que consolida o maciço ou prende elementos estruturais, usado sobretudo em obras subterrâneas, escavações e taludes, frequentemente em conjunto com betão projectado, cambotas metálicas ou outros sistemas de sustentação.

[Texto 22 586]

Léxico: «cinessérie»

Isto não pára


      «Num departamento que remete à cinessérie Star Wars, os EUA colocaram em ação armas a laser» («Guerra expõe situações e armamentos inéditos», Igor Gielow, Folha de S. Paulo, 8.03.2026, p. A12).

[Texto 22 585]

Definição: «tromba»

Ainda mais relevante


      Já aqui falámos nas vibrissas na tromba dos elefantes, que antes nem sequer eram mencionadas. Sabe-se agora que desempenham um papel ainda mais relevante: «La trompe d’un éléphant peut à la fois soulever un arbre et saisir une chips sans la casser, un alliage de force et de délicatesse possible grâce à ses moustaches, a dévoilé en février dernier une étude parue dans la revue américaine “Science”. Celle-ci détaille comment les propriétés uniques des poils qui couvrent les trompes des éléphants leur permettent une dextérité hors du commun. Ils naissent avec environ 1000 vibrisses, ces organes sensoriels que l’on appelle plus communément moustaches, détaille à l’AFP le principal auteur de l’étude, Andrew Schulz. La plupart de ces poils sont ancrés dans les rides de la trompe et agissent comme des antennes, aidant ces animaux à appréhender leur environnement» («Le secret de la dextérité des éléphants réside dans leurs moustaches», Le Matin Dimanche, 8.03.2026, p. 21). 

      É alguns destes aspectos que temos de mencionar na definição de ➔ tromba ZOOLOGIA órgão muscular alongado, tubular, flexível e preênsil que resulta do prolongamento e fusão do nariz com o lábio superior dos elefantes; constituído por feixes musculares muito numerosos e dotado de vibrissas sensoriais distribuídas ao longo da superfície que reforçam a sensibilidade táctil; desempenha funções de respiração, olfacto, tacto, sucção, manipulação de objectos e expressão comportamental; probóscide.

[Texto 22 584]

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