«Frente-a-frente»: plural

Deixem assentar mais a poeira

      «O disparate, neste episódio, é que se a lei regula e impõe tempos de antena, não regula (nem pode fazê-lo), os frente-a-frentes, porque são iniciativas estritamente editoriais, tal como não regula notícias, reportagens ou entrevistas» («A democracia não é imposta por tribunais», Público, 2.06.2011, p. 38).
      Não sei se é doutrina se é gralha — o certo é que não falta quem pluralize este neologismo. A tendência da língua, já o escrevi mais de uma vez, é para fazer os plurais desta forma regular. Lembrem-se de um caso semelhante, «sem-abrigo». De vez em quando, lá nos escorrega a língua ou a tecla e sai o plural «sem-abrigos».
[Texto 98]

«Enfermeiro sénior»

Para eles, é fácil

      «Ao perceber que ninguém fez nada, Bryan, um enfermeiro sénior com três décadas e meia de experiência, decidiu recorrer à BBC» («Tortura de deficientes em hospital choca britânicos», Patrícia Viegas, Diário de Notícias, 2.06.2011, p. 33).
      Mr. Bryan... Digo, o Sr. Bryan é senior nurse — e nós, decerto por influência anglo-saxónica, agora também temos enfermeiros seniores (espero que estes saibam pronunciar correctamente a palavra). Os antigos enfermeiros especialistas, enfermeiros-chefes e enfermeiros supervisores passaram a ter a categoria de enfermeiros seniores.
      Apesar de a nossa língua dever muito mais ao latim do que o inglês (que, ainda assim, tem no latim mais de 50 % dos seus étimos), não podemos fechar sempre os olhos e, complacentes, reconhecermos que antes importarmos anglicismos de matriz latina do que de matriz germânica. Mas não é tão simples. Pense-se só no caso do vocábulo «media» para designar os meios de comunicação social. Para o inglês, que também tem plurais que não somente em s, é fácil integrar todos estes neologismos.

[Texto 97]

Tradução

Poesia e prosa

      Maria Leonor Nunes entrevistou José Bento para o JL («José Bento. Afición e poesia», JL, 1060, Maio de 2011). Quando o poeta e tradutor afirmou que «temos a impressão de que é mais difícil traduzir poesia», a entrevistadora não deixou passar a oportunidade: «E não é?» Respondeu o tradutor de D. Quixote: «Não. Por vezes, a prosa até pode ser mais difícil. Os valores que estão em jogo na poesia não são os mesmos da prosa. Posso dar um exemplo supremo, D. Quixote de la Mancha. Ainda hoje, não tenho a certeza do que Cervantes queria dizer com certas expressões. Por exemplo, palavras que caíram em desuso, cujo significado mudou ou que simplesmente não se sabe o que queriam dizer ou que num sítio têm um significado e a 40 quilómetros querem dizer uma coisa diferente.»
[Texto 96]

Léxico: «audimetria»

Não peçam tanto

      Ah, os dicionários... Como é que se pode pretender que o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa registe o vocábulo «audimetria» se nem sequer acolhe o muito mais vulgar «audiometria», o estudo metrológico da audição? A audimetria é o sistema de recolha electrónica de informação sobre o comportamento de determinado público em relação aos programas de televisão através de um aparelho denominado audímetro. O Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora só regista «audiometria».

[Texto 95]


Aspas e maiúscula

Águias, Leões, Dragões

      «FC Porto e Benfica decidem hoje quem conquista o título de campeão nacional de basquetebol. O sétimo e derradeiro encontro da final do play-off realiza-se esta noite (20h30, SPTV1), no terreno dos “dragões”. “Está tudo nas mãos do FC Porto e há muito tempo que não perdemos um jogo no Dragão Caixa”, sublinhou o treinador dos “azuis e brancos”, Moncho López, referindo-se à invencibilidade caseira da equipa nesta época. […] Por seu lado, o técnico do Benfica acredita que a maior experiência dos “encarnados” em jogos decisivos poderá desequilibrar a eliminatória» («Dragão Caixa recebe hoje a “negra” que decide o título», T. P., Público, 2.06.2011, p. 36).
      Um leitor pergunta-me se as aspas em «negra» se justificam. Não justificam. O termo pertence à gíria desportiva e está dicionarizado, o que, de qualquer modo, não é condição para se usar sem aspas. Como não se justificam em «dragões», «azuis e brancos» e «encarnados». Estes nomes, aliás, deviam ser grafados com maiúscula inicial: Dragões, Leões, Águias...

[Texto 94]

Tradução

Árvore Ellen!?

      Os tempos ainda pediam que se encontrassem nomes portugueses para as personagens, escrevi eu, mas vejam agora. Grace e Amy estão a descansar depois de uma corrida à volta do campo — «liderada por Ned», diz a tradução recente; «com Nuno à frente», lê-se na tradução antiga.
      «— Não gosta de andar a cavalo? — perguntou Grace a Melita, que estava a descansar, depois de uma corrida em volta do campo com as outras, com Nuno à frente.
      — Sou doida por isso. A minha irmã Gui costumava montar quando o pai era rico, mas agora não temos cavalos, a não ser a Ellen Tree.
      — Conte-me tudo a respeito da Ellen Tree. É um burro? — perguntou Grace cheia de curiosidade» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Maria da Graça Moura Brás. Lisboa: Portugália Editora, s/d, p. 167).
      «— Não gosta de montar? — perguntou Grace a Amy, enquanto repousavam depois de uma corrida à volta do campo com os outros, liderada por Ned.
      — Tenho talento para tal. A minha irmã, a Meg, costumava montar quando o nosso Pai era rico, mas agora já não nos resta nenhum cavalo, excepto a Árvore Ellen — acrescentou Amy, rindo.
      — Fala-me de Árvore Ellen. É uma mula? — perguntou Grace, curiosa» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Ana Mendes da Silva. Alfragide: Edi9, 2010, p. 128).

[Texto 93]

Tradução

Não se conheciam os picles

      «— Não acredito que qualquer de vocês sofra o que eu aturo — exclamou Melita —, porque não têm de ir para a escola com raparigas insuportáveis, que põem um rótulo de acusado de qualquer crime ao nosso pai, se ele não é rico, como elas pretendem.
      — Se disseres só acusado de qualquer crime, está bem; mas não nos fales em rótulos, como se o nosso pai fosse um frasco de conserva — aconselhou Zé com uma risada» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Maria da Graça Moura Brás. Lisboa: Portugália Editora, s/d, p. 11).
      «— Não acredito que nenhuma de vocês sofra tanto como eu, — chorou Amy — nenhuma de vocês tem de ir à escola com raparigas impertinentes que nos moem a paciência se não sabemos a lição, que fazem troça dos nossos vestidos, rotulam o nosso Pai por não ser rico e ainda por cima fazem pouco de quem não tem um nariz bonito.
      — Se te referes às más línguas*, diria que sim, e não a rótulos, como se o Papá fosse um frasco de picles — recomendou Jo, rindo» (Mulherzinhas, Louisa May Alcott. Tradução de Ana Mendes da Silva. Alfragide: Edi9, 2010, p. 8).

A nota a «más línguas» (má ortografia), diz: «Trocadilho entre as palavras libel (más línguas) e label (rótulo). [N. de T.]» Maria da Graça Moura Brás esqueceu-se do insulto ao nariz, «and insult you when your nose isn’t nice», e os tempos ainda pediam que se encontrassem nomes portugueses para as personagens. Na tradução mais recente, a nota de rodapé não é muito clara. Digam-me que tradução preferem.
[Texto 92]

 

Léxico: «enteremorrágico»

Tem mais uma tentativa

      Depois de Ana Maia, com o seu inconcebível «enterohemorrágica», hoje foi a vez de Ana Gerschenfeld tentar — e errar: «E as E. coli entero-hemorrágicas (EHEC) como a que tem provocado o surto de infecções alimentares na Alemanha?» («Perguntas e respostas», Ana Gerschenfeld, Público, 1.06.2011, p. 3). Bem, mas melhorou, pelo menos não ofende gravemente. O texto tem, porém, outros erros. Um exemplo: «Estas bactérias morrem a temperaturas superiores aos 70.ºC ou inferiores aos –20.ºC.»
[Texto 91]

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