Risco de vida/risco de morte

Na fronteira


      Risco de vida/risco de morte. São ambas elípticas, isso é claro: risco de perder a vida e risco de encontrar a morte. Mas qual é a mais comum na língua portuguesa? Sem qualquer espécie de dúvida, a primeira, mas com a segunda a impor-se graças (parece) aos que antepõem a lógica à linguística. Entre eles, num dado passo mal dado, Camilo Castelo Branco. Noutras línguas, porém, também existem (mas com isso podemos nós bem) as duas formas: risk of life e risk of death, em inglês, riesgo de vida e riesgo de muerte em espanhol, risque de vie e risque de mort em francês. Posto isto, será razoável perder tempo a tentar descortinar a legitimidade de uma em detrimento da outra?

[Post 4216]

Redacção

Onde fica o não


      Imaginem que alguém escrevia esta frase: «Agora temos de analisar cuidadosamente as razões a favor de x.» Reflectia e acrescentava: «O problema é que não parece haver muitas.» Aparecia o cônjuge e alterava: «O problema é que parece não haver muitas.» Quem tem razão? Há aqui matizes a considerar? Está aberta a antena.

[Post 4215]

Recursos

Queremos saber

      Renasceu o Clube de Matemática da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM), projecto que devemos acompanhar de perto. Até porque, afinal, como revela Nuno Crato, da SPM, «o primeiro clube deste género em Portugal foi fundado em 1942. E o mais curioso é que não foi lançado numa faculdade de ciências, nem numa escola de engenharia. Apareceu na Faculdade de Letras de Lisboa, porque os estudantes de Línguas e Literatura achavam interessante completar a sua formação — por isso não se queriam esquecer da Matemática e desejavam estar a par dos grandes temas de ciência».
[Post 4214]

Ortografia espanhola

Reformas aqui ao lado

      Depois de oito anos de trabalho aturado, a Real Academia Española publicou a nova edição da Ortografía, coordenada por Salvador Gutiérrez Ordóñez. Doravante, em espanhol, os substantivos que designam títulos nobiliárquicos, dignidades e cargos ou empregos de qualquer categoria (civis, militares, religiosos, públicos ou privados) devem escrever-se com minúscula inicial por serem nomes comuns. A nova edição tem, como seria de esperar, muitas outras alterações nas suas 746 páginas. Outra é a opção da grafia Catar em vez de Qatar. E mais: monossílabos como guion e truhan deverão escrever-se sem acento; o o entre números tão-pouco levará acento («será 5 o 6» e não, como até agora, «5 ó 6»); exmarido escrever-se-á junto, mas ex capitán general, separado.
[Post 4213]

«Teraelectrão-volt». Plural

Se não for, está mal

      Filomena Naves entrevistou o director do CERN, Rolf Heuer, para o Diário de Notícias. Eis a primeira pergunta: «O LHC está a operar desde Março a um nível de energia nunca antes atingido por uma máquina: 7 teraelectrão-volt (TeV). Está para breve a descoberta do bosão de Higgs (a chave para explicar a origem da massa das outras partículas elementares)?» («‘Dentro de dois anos podemos ter grandes novidades’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 30).
      Não faltam fontes em que se lê precisamente o mesmo. Contudo, o plural de electrão-volt não é electrões-volt? Então o plural de teraelectrão-volt terá de ser teraelectrões-volt.
      No recentíssimo Decreto-Lei n.º 128/2010, de 3 de Dezembro (cuja referência agradeço ao leitor Fernando Ferreira), diploma que actualiza o sistema de unidades de medida legais, transpondo a Directiva n.º 2009/3/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de Março, alterando pela segunda vez o Decreto-Lei n.º 238/94, de 19 de Setembro, no uso da autorização legislativa concedida pela Lei n.º 18/2010, de 16 de Agosto, não se lê, naturalmente, nada sobre o plural de «electrão-volt». Nem fala de «teraelectrão-volt», nem seria necessário, pois publica uma tabela com os múltiplos e os submúltiplos e uma alínea estatui: «Os nomes dos múltiplos e submúltiplos são formados pela simples junção do prefixo ao nome da unidade.» Nem uma palavra sobre o plural das unidades, que, salvo melhor opinião, devem seguir as regras gerais da língua. Sobre plurais, somente isto, questão para a qual já aqui chamei a atenção bastas vezes: «Os símbolos das unidades ficam invariáveis no plural.» Os símbolos, não as unidades.

[Post 4212]

Como se escreve nos jornais

Tirem um curso

      «Os investigadores do GPIAA [Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves] detectaram que os flaps “estavam na posição UP”. “Aguarda-se o depoimento do piloto [Diogo Cantinho, de 19 anos] para saber se foi intencional este acto ou se foi consequência da acção dos populares aquando do resgate da aeronave”» («Piloto vai ter de explicar o que aconteceu ao avião que caiu», Luís Fontes, Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 20).
      Talvez Luís Fontes saiba o que são flaps na posição UP, mas decerto que não o leitor médio, arredado da aeronáutica. Quanto a «flap», os Brasileiros dizem «freio aerodinâmico», ou dão-lhe feição portuguesa: flape. E o Dicionário Houaiss regista que flape é a «parte da asa de um avião que pode ser deslocada por rotação em torno de um eixo paralelo à envergadura, a fim de alterar a forma geral e as características aerodinâmicas».

[Post 4211]

Tradução

Eh lá

      Não podemos é desatar a aportuguesar tudo quanto nos aparece pela frente. Um exemplo. Durante a II Guerra Mundial, o Governo japonês distribuía pelas famílias um cereal castanho-avermelhado anteriormente dado apenas como ração aos cavalos. A este grão era dado o nome de koren ou korian (na transliteração inglesa). Não vamos agora aportuguesar o vocábulo, como acabei de ver, para «coreano». A única solução passava por saber qual o nome científico e então procurar conhecer se há designação comum em português. Até porque aportuguesar daquela maneira, se fosse legítimo e correcto, acarretaria igualmente o problema de se gerar confusão com o gentílico «coreano» (Korean), e naquela época ainda o Japão era uma potência em expansão e eram levados coreanos para o Japão e reduzidos à escravatura. Tudo junto, o cereal coreano e os cidadãos coreanos, na mesma obra seria demasiado.

[Post 4210]

Topónimo: «Cardife»

É pena

      «A polícia britânica prendeu ontem 12 homens suspeitos de estarem a preparar um ataque terrorista, numa série de operações policiais ao amanhecer em Inglaterra e no País de Gales. A polícia de West Midlands informou que cinco dos suspeitos foram detidos na cidade galesa de Cardiff, quatro em Stoke-on-Trent e três em Londres» («Polícia prende 12 suspeitos de planear ataque terrorista», Patrícia Susano Ferreira, Destak, 21.12.2010, p. 13).
      Durante décadas e décadas, na imprensa o que se lia era Cardife. Até Eça de Queirós usava com esta grafia. É ver também as portarias do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Estado Novo. Agora consultamos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora e que vemos? Isto: «cardife nome masculino designação da hulha proveniente de Cardiff, capital do País de Gales».

[Post 4209]

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