«Teraelectrão-volt». Plural

Se não for, está mal


      Filomena Naves entrevistou o director do CERN, Rolf Heuer, para o Diário de Notícias. Eis a primeira pergunta: «O LHC está a operar desde Março a um nível de energia nunca antes atingido por uma máquina: 7 teraelectrão-volt (TeV). Está para breve a descoberta do bosão de Higgs (a chave para explicar a origem da massa das outras partículas elementares)?» («‘Dentro de dois anos podemos ter grandes novidades’», Filomena Naves, Diário de Notícias, 20.12.2010, p. 30).
      Não faltam fontes em que se lê precisamente o mesmo. Contudo, o plural de electrão-volt não é electrões-volt? Então o plural de teraelectrão-volt terá de ser teraelectrões-volt.
      No recentíssimo Decreto-Lei n.º 128/2010, de 3 de Dezembro (cuja referência agradeço ao leitor Fernando Ferreira), diploma que actualiza o sistema de unidades de medida legais, transpondo a Directiva n.º 2009/3/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 11 de Março, alterando pela segunda vez o Decreto-Lei n.º 238/94, de 19 de Setembro, no uso da autorização legislativa concedida pela Lei n.º 18/2010, de 16 de Agosto, não se lê, naturalmente, nada sobre o plural de «electrão-volt». Nem fala de «teraelectrão-volt», nem seria necessário, pois publica uma tabela com os múltiplos e os submúltiplos e uma alínea estatui: «Os nomes dos múltiplos e submúltiplos são formados pela simples junção do prefixo ao nome da unidade.» Nem uma palavra sobre o plural das unidades, que, salvo melhor opinião, devem seguir as regras gerais da língua. Sobre plurais, somente isto, questão para a qual já aqui chamei a atenção bastas vezes: «Os símbolos das unidades ficam invariáveis no plural.» Os símbolos, não as unidades.

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2 comentários:

Anónimo disse...

Não quis alongar-me demasiado no meu anterior comentário, mas a verdade é que há razões ainda mais profundas para defender o plural «electrão-volts» contra o mais usado «electrões-volt». Assim, por exemplo, nunca poderíamos traduzir 7,5 eV como a energia cinética de 7,5 electrões após atravessarem uma diferença de potencial de 1 V, porque não existem 7,5 electrões. E nem sequer podemos admitir a possibilidade de outras partículas, porque a carga eléctrica está quantizada, sendo o seu valor absoluto mínimo, precisamente, a carga "e", e só se encontrando na Natureza múltiplos inteiros desta carga (nunca foram detectadas experimentalmente partículas livres com carga inferior à de um electrão). Logo, a única tradução natural de 7,5 eV é como sendo a energia cinética de um electrão após atravessar uma diferença de potencial de 7,5 V.
Independentemente destas reflexões, basta ouvir algumas pessoas da área para se perceber que «electrões-volt» não é mais comum do que «electrão-volts». Ou seja: a predominância no registo escrito não tem correspondência na oralidade.

Fernando Ferreira

Anónimo disse...

No que respeita aos plurais de unidades derivadas de cientistas, o Fernando Ferreira tem razão. Lembro-me de dois ou três professores que tive que estavam sempre bastante atentos a esta questão. E ai do aluno que dissesse "pascais" ou "newtons"!

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