Léxico: «estribo»

Dois séculos decorreram


      «Há ainda um afrouxamento peculiar: no apeadeiro de Porta Nova as UTE passam a 10 km/h para os estribos não baterem na plataforma de embarque. E na linha 3 da estação d Olhão descobriu-se que as novas automotoras também não cabiam e estão agora a decorrer obras para corrigir as plataformas» («Comboios eléctricos chegam ao Algarve: “Isto é muito melhor. É incomparável”», Carlos Cipriano e Ruben Martins, Público, 20.07.2026, p. 24). 
      Infelizmente, os estribos da Porto Editora ainda são anteriores ao comboio e a qualquer outro tipo de veículos modernos: «degrau à entrada de carruagens ou coches; estribeira». Portanto, não menos de 201 anos atrasada. Assim, proponho ➠ estribo degrau exterior que facilita a entrada ou a saída de um veículo; estribeira.

[Texto 23 313]

Léxico: «ciclosporíase»

Não andas muito longe


      «Os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos anunciaram que o surto de diarreia que afeta o país se deve a um parasita encontrado na alface vendida pela cadeia de ‘fast-food’ Taco Bell. [...] Mais de 1.600 pessoas em Indiana, Kentucky, Michigan, Ohio e Virgínia Ocidental contraíram ciclosporíase, uma doença que provoca, entre outros sintomas, “diarreia explosiva”, esclareceu a agência» («Parasita em alface gera surto de diarreia nos EUA», Rádio Renascença, 18.07.2026, 9h57).
       Fora dos nossos dicionários, logo ➠ ciclosporíase nome feminino MEDICINA doença parasitária intestinal causada pelo protozoário Cyclospora cayetanensis, transmitida principalmente pela ingestão de água ou alimentos contaminados, em especial frutas e hortaliças frescas, caracterizada geralmente por diarreia aquosa prolongada, cólicas abdominais, náuseas, fadiga e perda de peso.

[Texto 23 312]

Léxico: «tubarão-gato-listrado | esciliorrinídeo | Esciliorrinídeos»

Esqueçam lá o pijama


      Porto Editora, agora que até já temos livros infanto-juvenis em que o termo aparece, além de o Oceanário de Lisboa saber que é este o nome comum, proponho tubarão-gato-listrado ZOOLOGIA pequeno tubarão marinho ovíparo da família dos Esciliorrinídeos (Poroderma africanum), de cerca de 1 m de comprimento, endémico das águas costeiras da África do Sul, caracterizado pelo corpo robusto com listas longitudinais escuras, que permanece escondido durante o dia e sai à noite para caçar, vivendo sobretudo junto de recifes rochosos e florestas de kelp.

[Texto 23 311]

Ainda as travessas, dormentes, sulipas, chulipas

Quatro, não cinco


      «O pequeno empreiteiro minhoto, que foi ganhando concurso aqui, concurso acolá em obras de reparação para a PJ, que depois foi deixando de ir a concurso — certamente porque, solícito, ia resolvendo os problemas que se arrastam nas sedes da polícia —, acabou a desenrascar uns serviços ao “dôtor”, deslocando-se de Barcelos a São Teotónio quando havia vagar. Umas vezes para dar um jeito no alpendre, outras para fazer do tanque uma piscina e outras ainda, parece, para pegar numas solipas que vinham das Infraestruturas de Portugal e montar uma mesa para almoçaradas» («A Judiciária, o empreiteiro, o tanque e o atrelado da droga», Pedro Adão e Silva, Público, 19.07.2026, p. 32). 
      Acabámos de o ver, temos quatro termos (duas variantes), não cinco. São travessa, dormente, sulipa/chulipa. Infelizmente, é confusão em que também cai a Porto Editora, que no seu Dicionário da Língua Portuguesa regista «solipa»: «espécie de sandália com base de madeira em vez de sola, chulipa». Mesmo admitindo que «solipa» pudesse designar tanto a sandália como a travessa ferroviária, a redacção do verbete continuaria a ser defeituosa, por ambígua, já que uma remissão global deixa o leitor sem saber se está perante uma variante gráfica, um homónimo ou duas palavras distintas. Claro que se percebe de onde vem o erro.

[Texto 23 310]

Têm nome específico

Que são quatro


      «Só numa semana, até chegarmos ao atrelado, ficámos a saber que Luís Neves contratou um empreiteiro que faz obras em edifícios da PJ para obras particulares; que esse empreiteiro vive a 550 quilómetros e tem um longo historial de falências; que não há comprovativo dos únicos cinco mil euros que alegadamente pagou após dois anos de obras; que não tinha contrato, nem orçamento; que chamou tanque a uma piscina que nunca licenciou; que as obras não são apenas num monte, mas em dois; que incumpriu o dever de exclusividade enquanto director da PJ e não declarou a empresa da mulher; que as contas dessa empresa têm contabilidade criativa e que uns barrotes das Infra-Estruturas de Portugal acabaram no seu monte transformados em mesa e bancos» («Crime? Mas como, se o monte é tão pindérico?», João Miguel Tavares, Público, 19.07.2026, p. 48).
      Barrotes? Noutros jornais, são «vigas de comboios», «traves», «madeira», «placas de madeira»... Têm pelo menos quatro nomes: travessas, dormentes, sulipas, chulipas.

[Texto 23 309]

Léxico: «fonte-cal»

Esquecida de todos


      «Usando material retirado das vinhas centenárias da quinta, criou um campo de clones que permitiu avaliar qual é a melhor casta para cada um dos talhões da propriedade. Terá sido aí que nasceu a primeira linha da casta Fonte Cal, que até então só se encontrava misturada nas vinhas mais antigas» («Tradição e mudança a partir da Beira Interior», João Cortesão, «Domingo»/Correio da Manhã, 7.06.2026, p. 30). 
      Vejo que ainda não descobriste todo o País, Porto Editora. Isso é bom, dá-nos menos certezas. Assim, proponho ➠ fonte-cal 1. BOTÂNICA casta de videira de uva branca, autóctone da Beira Interior, de maturação tardia e grande vigor vegetativo, que apresenta cacho médio e muito compacto e bago verde-amarelado, sendo utilizada sobretudo na produção de vinhos brancos, geralmente de lote; 2. uva dessa casta, utilizada na elaboração de vinhos brancos.

[Texto 23 308]

Plural de «acordo»

Ora bolas


      «Mergulhemos no verão, descobrindo lugares que se abram aos nossos sentidos como um fruto apetecível. Que entretanto assessores diligentes possam explicar ao primeiro-ministro e a muitos senhores deputados, prontos para irem a banhos, que o plural de “acordo” se pronuncia “acôrdos” e não “acórdos”» («Mergulhemos no verão», Fernando Alves, TSF, 17.07.2026). Assim é. Só é pena que ao longo do texto ora se sigam as regras do Acordo Ortográfico de 1990, ora as do Acordo Ortográfico de 1945, ora nenhumas.

[Texto 23 307]

Léxico: «passo de ganso»

Bem anterior


      Corresponde ao inglês goose step, ao alemão Stechschritt e ao italiano passo dell’oca, vemo-la em dicionários bilingues (até da Porto Editora), mas a expressão não foi acolhida no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora. Assim, proponho ➠ passo de ganso MILITAR forma de marcha militar em que os participantes avançam com as pernas estendidas e elevadas rigidamente, sem dobrar os joelhos, característica de desfiles e cerimónias de alguns exércitos. 
      Eu evitaria qualquer referência ao nazismo ou ao fascismo na própria definição. Embora a imagem pública da expressão esteja fortemente ligada ao Terceiro Reich, o passo é bastante anterior, foi desenvolvido no exército prussiano e depois adoptado por numerosos exércitos, incluindo o russo, o soviético e vários actuais, como o norte-coreano, sem ligação ao nazismo.

[Texto 23 306]

Arquivo do blogue