Definição: «parágrafo»

Aprendi-o na escola primária


      «Com cinco capítulos e 245 parágrafos, o texto [da encíclica Magnifica humanitas] propõe uma nova síntese do pensamento social católico para uma “mudança de época”, como dizia o Papa Francisco» («Magnífica Humanidade que criou os algoritmos, mas se deve proteger deles», António Marujo, Além-Mar, Julho de 2026, p. 40).
      É certo que as encíclicas modernas são normalmente estruturadas em parágrafos numerados, e esses números funcionam como referência canónica para citações, mas isso não merece estar plasmado numa acepção de parágrafo senão indirectamente (e limpando de caminho a gralha inacreditável) na 2.ª acepção: cada uma das subdivisões numeradas de certos textos normativos, jurídicos, administrativos ou doutrinais. Mas o trabalho de reformulação, Porto Editora, começava antes, na 1.ª acepção, que o define como «divisão de um discurso». Porquê discurso? Proponho antes assim ➠ parágrafo 1. cada uma das divisões de um texto, geralmente iniciada em nova linha, que agrupa uma ou mais frases em torno de uma mesma ideia ou unidade temática; 2. cada uma das subdivisões numeradas de certos textos normativos, jurídicos, administrativos ou doutrinais; 3. sinal gráfico (§), denominado parágrafo, usado para indicar um parágrafo ou uma subdivisão textual.
      Quanto à etimologia, vem do latim paragraphus, «sinal que indicava uma divisão num texto», e este do grego παράγραφος (parágraphos), «idem», de para-, «ao lado de», + gráphein, «escrever».

[Texto 23 289]

Tradução: «baita»

Isso é o que é menos


      Caríssima Porto Editora, a baita italiana não é apenas, como afirmas no dicionário de italiano-português, a «cabana alpina». Mas não é de agora, nunca foi. Na verdade, o significado histórico do termo nunca correspondeu exactamente ao que um falante de português entende por «cabana». Desde as descrições mais antigas, a baita é uma construção rural alpina, cuja função podia ser muito variada: habitação, abrigo de pastores, estábulo, celeiro ou local de transformação do leite. O problema não está no «alpina», mas na «cabana». Assim, para bem dos tradutores e, em última instância, dos leitores de traduções do italiano (no último amo, não revi menos de dez), proponho baita construção tradicional das regiões alpinas, usada como habitação, abrigo ou edifício agrícola; [por extensão] casa de montanha ou chalé alpino.

[Texto 23 288]

Léxico: «desolante»

Que desola


      «— Mãi! — Ella gemeu alguma cousa confusa, mas a sua cabeça cahiu outra vez, n’uma prostração desolante» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, p. 67).

[Texto 23 287]

Léxico: «ventela»

Mete rainhas e poetas


      «Mas vendo Camila com o altivo queixo colhendo a brisa de humilde ventoinha, lembrei-me de uns versos de “O novíssimo testamento e outros poemas”, de Jorge Sousa Braga. É o poema “Ventelas”, breve como uma ventoinha, portátil, pois. “No verão com cascas de eucalipto / e sumo de amoras construías / uma ventela colorida. Com os / outros miúdos corrias depois / pela tarde fora. Continuas a correr / em sonhos agora com uma ventela / na mão / mas a tarde já não é tarde / e o verão não é mais verão.” Terá a rainha Camila resistido ao calor dos verões da sua adolescência balançando uma ventela diante do azul-turquesa da Cornualha?» («Ventelas e outros artefactos», Fernando Alves, TSF,  14.07.2026, 8h51). 
      Por qualquer motivo que não interessa agora indagar, permanece fora dos dicionários, mas não fora da nossa memória, porque eu, embora de um meio urbano, também as fiz quando era criança. Assim, proponho ➠ ventela pequena ventoinha de brincar, geralmente feita de material leve e fixada a uma haste, que roda pela acção do vento ou do movimento; cata-vento.

[Texto 23 286]

Léxico: «galegagem»

Com vossa licença


      «Defronte no chafariz, os aguadeiros enfileiravam os barris vermelhos, cintados de negro, a fazer carreira; e todos sujos, aparvoados, de uma ingenuidade sordida, chalravam a sua gallegagem brutesca» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, p. 64). 
      Nos dicionários modernos, nada, ainda que o encontremos em Fialho de Almeida, Eça, Camilo... Assim, proponho ➠ galegagem nome feminino qualidade ou condição de galego; conjunto do que é característico ou peculiar aos galegos; depreciativo modo de falar ou de proceder atribuído aos galegos.

[Texto 23 285]

Léxico: «peixum/pexum»

Ai que ainda ficamos sem palavras


      «A tia Marcellina conhecia uma que fôra peixeira, pó descalço por essas ruas, a vender carapaus, um fedor a peixum de seiscentos diabos, e agora estava uma opiniosa com um fidalgo, n’um primeiro andar, ricas cortinas de renda nas janellas» (A Ruiva, Fialho de Almeida. Porto: Ernesto Chardron, 1881, pp. 39-40). 
      Se vale a pena estarmos a guerrear-nos por causa da epiderme da língua que é a ortografia... Já dei para esse peditório. Adoptem lá a ortografia que quiserem. Bem, mas o fito deste texto é bem outro: onde está, queridos dicionaristas, o termo «peixum» (com a variante «pexum»), que não o vejo em lado nenhum? E, contudo, é conhecido e encontrável na literatura, e não só, obviamente, em Fialho de Almeida. Assim, proponho peixum (ou pexum) cheiro forte, geralmente desagradável, a peixe. 
      As variantes «peixum» e «pexum» enquadram-se num pequeno grupo de vocábulos portugueses, de que fazem parte «bodum» (var. «bedum»), «fartum» (var. «fortum», «futum»), «cheirum» e «bafum». Há mais, eu sei, mas de momento a memória recusa-se a colaborar.

[Texto 23 284]

Léxico: «gibraltarenho»

Menos frequente, mas existe


      «É preciso ainda juntar os turistas que permanentemente visitam Gibraltar, cruzando o único ponto de passagem terrestre, e os gibraltarenhos que fazem em La Línea as suas compras ou aproveitam diversos serviços da cidade espanhola. [...] Não há ninguém vivo que tenha conhecido Gibraltar ou La Línea sem “la verja” ou “a vedação”, considerado “o último muro da Europa continental”, apesar de a relação entre os moradores de um lado e outro ser “uma questão quotidiana”, como explicou [o autarca] Juan Franco: “O cidadão comum o que quer é vir ao ginásio aqui ou ir lá trabalhar”» («Cai “último muro na Europa continental”: Gibraltar e La Línea perdem fronteira, mas mantêm desigualdade», TSF, 14.07.2026, 8h08).
      Na realidade, menos frequente, sim, mas somente na escrita, porque na oralidade está bem presente. Porque isto está tudo relacionado, quando estiver nos dicionários, passar-se-á a vê-lo mais na escrita.

[Texto 23 283]

Como se reedita por aí

Eu não agradeço


      Então, vamos lá a ver: se na lista dos nomes femininos admitidos ainda hoje, Julho de 2026, encontramos Lauriana, por que motivo nas edições modernas da obra A Ruiva, de Fialho de Almeida, o transmutam para Laureana?

[Texto 23 282]


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