Léxico: «dia aberto»

Uma ida à Casa Sonotone ajudava


      Ontem vi o filme Brincar com o Fogo (Jouer Avec Le Feu, de Muriel Coulin e Delphine Coulin, 2024) e achei curioso que o tradutor (que não sabemos quem foi) optasse por «portas abertas» em vez do agora preponderante «dia aberto». Eis o que a personagem, que é a real detentora do cargo, Béatrice Pérez, disse: «Chères étudiantes, chers étudiants, chers parents, en tant que doyenne de la Faculté des Lettres, je suis honorée et fière de vous souhaiter la bienvenue aux portes ouvertes de la Sorbonne.» Tanto mais que nas legendas saiu desta forma pouco natural, até mesmo agramatical: «Caras alunas, caros alunos, caros pais, enquanto diretora da Faculdade de Letras, tenho a honra e o orgulho de vos dar as boas-vindas ao Portas Abertas da Sorbonne.» Na verdade, há uma via intermédia, e porventura a mais conforme à nossa língua, que passa por, aparentemente, se inspirar no inglês open day e no francês portes ouvertes, que é «dia de portas abertas». Seja como for, já bem enraizado nos nossos hábitos linguísticos está ➜ dia aberto evento em que uma instituição, sobretudo escola, universidade ou empresa, abre as suas instalações ao público para dar a conhecer o seu funcionamento, actividades e serviços.

[Texto 22 871]

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P. S.: Mas sabemos o nome da legendadora, que deixou passar uma coisa sem pés nem cabeça. À chegada a casa, depois de terem ido ao dia aberto na Faculdade de Letras da Sorbona, pai e filho mais novo, Louis, deparam-se com a surpresa de Fus ter preparado a refeição. Há ali uma troca rápida de falas breves, interjeições — «Oh, la vache!», «Ah ouais!», «Ah!», «Tu t’es chauffé», «J’ai mes petits secrets!», «Fus le cuistot!», «Dis donc...» —, com esta última, uma observação do pai, a aparecer assim nas legendas: «Elá...» Aqui, a culpa também é, obviamente, da legendadora, Patrícia Pimentel. No contexto, é qualquer coisa como «com que então...», ainda a expressar a surpresa de o filho, que já andava desencaminhado, ter preparado a refeição. (Fez-me lembrar a bojarda no anúncio dos Gato Fedorento para a Portugal Telecom (ainda alguns dos meus leitores não teriam nascido), em que aparecia «épa». Mas pronto, eles é que são bons.) Como é que a tradutora, com mais meios, não conseguiu ver isto?


Léxico: «shekel»

É aproveitar


      «O shekel israelita tem sido uma das moedas com melhor desempenho desde o início da guerra, tendo já valorizado 5% face ao próprio dólar. A 17 de abril chegou mesmo a máximos de 31 anos, ao ficar abaixo da fasquia dos 3 shekels por dólar» («Moeda israelita é das que mais “fatura” com a guerra», C. P., Negócios, 23.04.2026, p. 11). 

      Oportunidade para definirmos melhor ➜ shekel ECONOMIA unidade monetária do Estado de Israel (novo shekel, desde 1985; símbolo ₪), subdividida em 100 agorot; designação moderna que retoma a antiga unidade de peso semítica conhecida em português por «siclo».

[Texto 22 870]

Léxico: «turpitude | torpitude | túrpido»

Que são duas, com o mesmo étimo


      «Mas depois deste livro: Memórias do Cárcere, está absolvido de todas as turpitudes que praticou» (O Romance de Camilo, Vol. 3, Aquilino Ribeiro. Lisboa: Livraria Bertrand, 1974, p. 61). Tudo do latim, claro — turpitude, torpitude, túrpido.

[Texto 22 869]

Léxico: «internamento | internamento social»

Agora é todos os dias


      Agora, volta e meia, lê-se, ouve-se, usa-se ➜ internamento social SAÚDE, POLÍTICA permanência de um doente em unidade de saúde após alta clínica, motivada por insuficiência de respostas sociais adequadas à sua condição, como a inexistência de apoio familiar, de vaga em cuidados continuados ou de acolhimento em estrutura residencial.

      Ocasião para dizer também que a 5.ª acepção de «internamento» do Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não tem pés nem cabeça está a precisar de cuidados intensivos: «DIREITO decisão judicial que determina a entrada e permanência em hospital psiquiátrico ou instituição adequada de indivíduo portador de anomalia psíquica grave que, por força dessa anomalia, seja considerado perigoso». Mas que raio... «internamento» não é, nem pode ser, uma decisão: é o acto, efeito ou situação que resulta de uma decisão (judicial, médica, administrativa). A definição confunde o plano jurídico (o acto decisório) com o plano factual (a execução ou estado de internamento). Assim, proponho ➜ internamento DIREITO medida determinada por decisão judicial que impõe a entrada e permanência de indivíduo em hospital psiquiátrico ou instituição adequada, em razão de anomalia psíquica grave e da perigosidade que dela decorre.

[Texto 22 868]

Léxico: «clazomania | clafomania»

E respectivos adjectivos


      Este tinha tudo, o desgraçado: «Sufría tics vocales incontrolados, coprolalia aumentada (tendencia a decir palabrotas e insultos, uno de los síntomas que causan más estigma), klazomanía (emisión de gritos involuntarios) y clafomanía (destruir objetos)» («Un marcapasos cerebral para liberar a Josep de sus insultos descontrolados», Esther Armora, ABC, 22.04.2026, p. 58).   

      O pior é que os dicionários não acompanham esta necessidade de sabermos, pelo que proponho ➜ clazomania PSIQUIATRIA perturbação caracterizada pela emissão involuntária e compulsiva de gritos, frequentemente de forma repetitiva e descontextualizada, podendo surgir associada a síndromes neurológicas como a síndrome de Tourette ou a outros quadros de descontrolo dos impulsos vocais. (Vem do grego klázō, «gritar», + -mania, «impulso obsessivo».)

      E, claro, ➜ clafomania PSIQUIATRIA perturbação caracterizada por impulsos patológicos, repetitivos e dificilmente controláveis de destruir objectos, sem finalidade prática, podendo surgir associada a síndromes neurológicas ou a outros quadros de descontrolo dos impulsos. (Vem do grego klásis, «quebra, fractura», + -mania, «impulso obsessivo».)

[Texto 22 867]

Léxico: «gigantografia | gigantográfico»

Mais um parzinho à maneira


      «Conduzimos em direcção ao passo de Ak Baital e depois a Murghab. A pequena cidade não tem atractivos, mas é importante por albergar o único hospital da região. Com apenas um piso, o edifício parece muito modesto, mas também aqui (como em toda a parte) se exibem gigantografias do presidente. Mais uma prova de que falar de culto da personalidade não é exagero jornalístico» («O senhor do Pamir», Paolo Moiola, Além-Mar, Maio de 2026, p. 34). 

      Pois, não a tens, o que resolvemos já propondo ➜ gigantografia ARTES GRÁFICAS técnica de reprodução e ampliação de imagens, sobretudo fotográficas, para grande formato, destinada a suportes como cartazes, painéis ou outdoors; 2. imagem de grande formato obtida por esse processo, geralmente utilizada para fins publicitários, informativos ou decorativos em espaços públicos; 3. descrição ou representação de gigantes.

[Texto 22 866]

Extras! Extras! Extras!

Eles sabem


      «Pós-operatório de transplante capilar inclui despesas extras de R$ 4.000» (Ivan Finotti, Folha de S. Paulo, 22.04.2026, p. B13).

[Texto 22 865]

Definição: «homeopatia»

Falta pouco


      «Por si alguien todavía tenía dudas, la homeopatía no sirve para el tratamiento de ninguna enfermedad y sus efectos son comparables al placebo. Así lo refleja un exhaustivo informe técnico titulado “Homeopatía y productos homeopáticos: Evaluación de las evidencias acerca de su eficacia y seguridad”, publicado por la Agencia Española de Medicamentos y Productos Sanitarios (Aemps), en el que se concluye de forma categórica que no existe evidencia cientifica que avale la eficacia de la homeopatía como instrumento terapéutico, tras una revisión sistemática de la literatura científica y de las evaluaciones de organismos estatales a nivel internacional» («El Ministerio de Sanidad concluye que la homeopatía no es eficaz para tratar ninguna enfermedad», C. Garrido, ABC, 22.04.2026, p. 57). 

       Em Espanha já chegaram a esta conclusão óbvia, e certamente cá não vai demorar. Não acredito, por isso, que haja um lóbi que trabalhe para impedir que nos dicionários se diga ➜ homeopatia MEDICINA sistema terapêutico criado por Samuel Hahnemann (1755-1843), baseado no princípio de que substâncias capazes de provocar certos sintomas num indivíduo saudável podem, em doses extremamente diluídas e após sucessivas diluições e agitações, tratar sintomas semelhantes num doente; as diluições empregadas são frequentemente tão elevadas que tornam improvável ou inexistente a presença de moléculas da substância original, assentando o método em pressupostos sem fundamento científico e não havendo prova fiável da sua eficácia terapêutica.

[Texto 22 864]

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