Definição e etimologia: «eczema»

Sobretudo a etimologia


      «L’eczéma ou dermatite atopique, la plus fréquente des maladies inflammatoires de la peau, touche environ 20% des enfants en Suisse et 5% des adultes. Elle se caractérise par l’apparition sur la peau de plaques rouges et de lésions, de démangeaisons et de sécheresse de l’épiderme. Il s’agit d’une pathologie chronique, qui se manifeste par des pics de symptômes, entrecoupés de périodes de rémission» («Comment le stress exacerbe l’eczéma», Pascaline Minet, Le Temps, 20.03.2026, p. 10). 

      Os nossos dicionários definem muito mal «eczema», e a etimologia que indicam tem ampla margem para melhorar. Assim, proponho ➜ eczema MEDICINA designação genérica de dermatoses inflamatórias, de evolução aguda ou crónica, caracterizadas por eritema, prurido e lesões cutâneas variáveis, incluindo vesículas, crostas e descamação, frequentemente associadas a causas alérgicas, irritativas ou a predisposição atópica; dermatite. 

      Quanto à etimologia, vem do grego ékzema, «erupção cutânea», de ekzéō, «ferver, irromper», de ek, «fora» + zéō, «ferver».

[Texto 22 672]

Definição: «angioedema»

Nem sempre; portanto, não


      «El caso de una paciente de 18 años de Lleida que sufrió una misteriosa sucesión de episodios de inflamación súbita de la piel —un angioedema, parecido a la urticaria pero más profundo— de origen desconocido ha permitido descubrir el primer caso en el mundo de transmisión de una rara enfermedad hereditaria a través del semen de un donante anónimo» («Un donante de semen transmitió una enfermedad rara en Cataluña», Oriol Güell, El País, 21.03.2026, p. 32).

      A definição de «angioedema» da Porto Editora peca, antes de mais, por indicar que é recidivante, o que, pelo que vejo em fontes especializadas, não corresponde à realidade clínica: embora possa apresentar episódios recorrentes, também ocorre sob a forma de episódio isolado. Mais: omite o mecanismo fisiopatológico essencial, o aumento da permeabilidade vascular, não distingue as principais origens (alérgica, medicamentosa, hereditária) e não explicita a potencial gravidade do quadro, nomeadamente quando há compromisso das vias aéreas. Assim, proponho ➜ angioedema MEDICINA edema súbito e circunscrito das camadas profundas da pele e/ou das mucosas, resultante de aumento da permeabilidade vascular, que se manifesta por tumefacção não depressível; pode afectar a face, lábios, pálpebras, língua, laringe, extremidades ou o tracto gastrointestinal; de origem alérgica, medicamentosa ou hereditária, sendo potencialmente grave quando compromete as vias aéreas ou se associa a choque anafiláctico.

[Texto 22 671]

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P. S.: Estive vai-não-vai para usar na proposta de definição o termo «patência», mas depois vi que ainda não o tens, Porto Editora.



Um possível parentesco: «ṣirāṭ» e «strata»

Realmente...


      Na quinta-feira, vi o filme Sirât (2025), de Oliver Laxe, cujo título remete para a ideia islâmica de travessia e prova, funcionando como chave simbólica para o percurso das personagens, entre caminho físico e limiar existencial, como se anuncia logo no início: «Há uma ponte chamada Sirat que liga o inferno ao paraíso, e o seu caminho é mais estreito do que um fio de cabelo.» É curioso notar, como por vezes sucede em percursos etimológicos deste tipo, a semelhança fonética entre sirāt e strata (estrada), ainda que essa aproximação, por si só, não constitua prova. Alguns estudiosos da filologia semítica e do léxico alcorânico, como Arthur Jeffery e Toshihiko Izutsu, admitiram a hipótese de ṣirāṭ não ser de origem árabe, propondo antes uma derivação do latim strata («estrada pavimentada»), eventualmente por via do grego ou do aramaico. Esta proposta, embora discutida e não consensual, insere-se no estudo mais amplo dos possíveis empréstimos no vocabulário alcorânico. No próprio Alcorão, a palavra surge 45 vezes, frequentemente na expressão «ṣirāṭ al-mustaqīm» («o caminho recto»), com forte valor ético e espiritual. Vejam o filme, uma autêntica experiência sensorial.

[Texto 22 670]

Como se traduz por aí

Não chegam ao céu


      E quando o original diz algo tão banal como «Then he called up» e o tradutor resolve a coisa com esta elegância: «Vozeou»? Quantas vezes não encontro estas tretas? E sempre me vêm à mente vozes de animais. Como zorrar. Não façam isto.
[Texto 22 669]

Interjeições «oh» e «ó»: a confusão perpétua

Tu já estás morta


      Elias Santana é apenas polícia, chefe de brigada responsável pela investigação do homicídio do ex-major do Exército Luís Dantas Castro, encontrado morto na praia do Mastro, não tem de saber particularmente de ortografia e gramática. Sim, estou a falar da Balada da Praia dos Cães (1982), de José Cardoso Pires. Quando o chefe Elias vai, acompanhado do agente Roque, a caminho do Forte da Graça, a certa a altura põe-se a cantar: «Oh Elvas, oh Elvas, Badajoz à vista». Havia de cantar bem, mas escrevia mal — e a editora, na 16.ª edição e com três reimpressões (Relógio D’Água, Novembro de 2025), não o ajudou. Não ajudou o autor, que nesta matéria não era propriamente uma sumidade, nem os leitores. E deturparam o cancioneiro: «Ó Elvas, ó Elvas,/ Badajoz à vista, /Já não faz milagres/ S. João Baptista.» Oh sim, senhores revisores (Anabela Prates Carvalho e João Carlos Alvim), a interjeição é mesmo ó, de chamamento ou invocação, que se repete: «Ó Elvas, tu já estás morta,/ Vives muito encolhidinha./ Já se lá foram os tempos/ Em que semeavas sardinha.» Mas não é preciso sair da mesma página para encontrar mais erros.

[Texto 22 668]

Léxico: «cheque-prótese»

Mais um cheque


      «Os utentes vulneráveis que necessitam de reabilitação oral vão poder aceder ao cheque-prótese previsto no Programa Nacional de Promoção da Saúde Oral 2030, que integra esta área nas unidades locais de saúde (ULS) e reforça a articulação entre cuidados» («Governo lança cheque-prótese e reforça acesso a saúde oral no SNS», Jornal de Notícias, 21.03.20206, p. 24).

[Texto 22 667]

Definição: «viscoelasticidade»

Isso mesmo, material


      «O Ministério das Infra-Estruturas realça a necessidade de obras de “meia vida”, ou seja, uma intervenção necessária para garantir a estabilidade da ponte nos próximos 20-30 anos e que poderá custar cerca de 1,5 milhões de euros. A sua reabilitação prevê a substituição ou reparação de aparelhos de apoio; substituição das juntas de dilatação; verificação dos amortecedores que dissipam energia sísmica e reduzem vibrações (dispositivos viscoelásticos); reabilitação das bases de betão que suportam os pilares da ponte (plintos) e reabilitação extensiva do tabuleiro da ponte que foi inaugurada há duas décadas» («Ponte de Alcarrache, em Alqueva, tem graves problemas estruturais», Carlos Dias, Público, 19.03.2026, p. 19).

      Tudo bem aqui, o problema está do lado dos dicionários. Define assim «viscoelasticidade» a Porto Editora: «FÍSICA propriedade de certos líquidos que, além da viscosidade, exibem também elasticidade de deslizamento». Esta restrição indevida a líquidos estraga tudo. Bem, por acaso não é só por isso. Assim, proponho ➜ viscoelasticidade FÍSICA, ENGENHARIA DOS MATERIAIS propriedade de um material que combina comportamento viscoso e elástico sob tensão ou deformação, com resposta dependente do tempo, dissipação de energia e recuperação total ou parcial da forma inicial. 

      Mas no caso não precisava de me esforçar muito: bastava comprovar que a própria Porto Editora define assim «viscoelástico»: «(material) que tem viscoelasticidade».

[Texto 22 666]

Léxico: «instalação-piloto»

Esqueceu-se foi de reler


      «Mas, agora, a ideia é fazer da instalação-piloto um laboratório flutuante» («Na Barragem do Alto Rabagão, em Trás-os-Montes, testa-se o futuro da energia solar», Clara Barata, Público, 19.03.2026, p. 26). 

      Curiosamente, neste artigo, aparecem «instalação-piloto», «teste-piloto» e «projecto-piloto». Deve ter sido uma aposta da jornalista, assim um desafio à Georges Perec, mas mais fácil. O pior foi a terrível gralha umas linhas atrás: «No Alto Rabagão são produzidos 220kW (quilowatts), enquanto no Alqueva se produzem ci2oMW (megawatts). “Portanto, 20 vezes mais”, sublinhou Pedro Oliveira.» Temos de ser nós a pensar e a fazer as contas: multiplicando 220 kW por 20, temos 4400 kW = 4,4 MW. O que confere com os dados da mesmíssima EDP, que nuns documentos apresenta 4 MW de potência instalada, noutros 5 MW. Mas está bem, encaixa ainda: 4 MW / 220 kW ≈ 18,2; 5 MW / 220 kW ≈ 22,7.

[Texto 22 665]

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