Léxico: «papel-toalha»

É outro tipo


      «Além dos salgados, há petiscos como um dos carros-chefe da casa, o frango a passarinho servido com mandioca frita — tudo bem crocante. Aliás, todas as frituras são cuidadosamente colocadas sobre papel-toalha para absorver a gordura residual, um cuidado que torna os quitutes ainda mais saborosos. “São segredinhos de quem cozinha há muito tempo”, revela a empreendedora» («No boteco na Bica que é a cara do Brasil, quem “manda ver” são as mulheres», Gisele Rech, Público, 6.03.2026, 7h45).

[Texto 22 592]

Léxico: «ordinariedade»

Se é para breve


      «Gila Sher diz que a queda da verdade não é nova, já vem de Nietzsche, “o que distingue a corrente crise da verdade é a sua ordinariedade e universalidade. Surgiu a partir de circunstâncias comuns. Não está ligada a um qualquer regime corrupto ou acontecimento catastrófico. Nem está limitada a uma sociedade ou ideologia particular. A vida comum, sem extremismo, está a perder a sua ligação à verdade”» («Desumanidade», António Rodrigues, Público, 6.03.2026, 7h00).

[Texto 22 591]

Uma ida ao teatro

Tudo na mesma


      Fui ver a peça O Quarto, de Harold Pinter, no Teatro Experimental de Cascais. Uns minutos antes de a peça começar, e até parecia que andavam ainda a carpintejar no palco, porque se atrasaram, um espertalhão ao meu lado, acompanhado de duas mulheres, dizia esperar que nenhuma delas sofresse de estroboscopia. E eu só espero que a criatura não seja professor e não ande por aí a ensinar parvoíces. Quanto à peça, os erros do costume. Na ficha técnica, do tradutor ao frente-de-casa (termo que em boa hora levámos para o dicionário da Porto Editora em Abril de 2024), aparece o nome de toda a gente — menos do revisor, porque os responsáveis acham que as peças de teatro não precisam de revisão. Como estão enganados... 

[Texto 22 590]

Definição e etimologia: «plateresco»

Falta a terceira influência


      «Com os filhos pequenos, foi-se instalando em várias cidades, de acordo com as necessidades da governação e, às vezes, com a preocupação de evitar epidemias. Uma das cidades em que mais tempo se deteve foi Valladolid onde, em Maio de 1527, nasceu o seu primogénito. Ainda se conserva o Palácio Real, onde se deu o real nascimento, que hoje serve de sede da Deputação Provincial de Valladolid, o governo da província, e onde ainda se encontra uma bela janela plateresca, um estilo de transição do princípio do século XVI, entre o mudéjar e o gótico flamejante. Não muito longe está a Igreja de São Paulo onde o príncipe recém-nascido foi baptizado, no mesmo dia em que o pai recebeu a terrível notícia de que os seus exércitos tinham saqueado Roma de forma brutal» («Da corte portuguesa a terras de Espanha: no encalço da rainha Isabel», Maria João Martins, Público, 8.03.2026, 10h22).

      Ora bem, é essa influência mudéjar que está ausente de quase todos os dicionários. No caso da Porto Editora, o pior é a nota etimológica ser mera excrescência. Assim, proponho ➔ plateresco ARQUITECTURA estilo arquitectónico espanhol do final do século XV e da primeira metade do século XVI, caracterizado por ornamentação extremamente rica e minuciosa que lembra o trabalho da ourivesaria, combinando elementos do gótico tardio, da tradição mudéjar e do Renascimento italiano.

      Quanto à etimologia, vem do castelhano plateresco, derivado de platero, «ourives», de plata, «prata», com o sufixo -esco, que exprime relação ou semelhança («à maneira de ourives»).

      Até pode ficar fora da definição, mas deve acrescentar-se que a ornamentação plateresca aplicava-se sobretudo às fachadas, portais e janelas dos edifícios e, muitas vezes, era acrescentada a construções já existentes, frequentemente de estrutura gótica, funcionando como revestimento decorativo muito elaborado.

[Texto 22 589]


Definição: «quirguiz»

Logo por azar


      «Em Bishkek, a herança soviética vê-se por toda a parte. E, no que nos diz respeito, também muito de perto. Alexander, o nosso motorista, não só nasceu na Rússia (em Volgogrado), como fala exclusivamente russo. Chegou aqui em criança, casou-se e teve três filhos sem nunca ter aprendido quirguiz» («Manas é melhor do que Lenine», Paolo Moiola, Além-Mar, Abril de 2026, p. 44). 

      A Porto Editora não se quis cansar muito e no verbete de «quirguiz», depois de mencionar que é o natural do Quirguistão, na acepção de língua limita-se a indicar que é a «língua falada neste país». Ora obrigadinho. Logo por azar, a definição do tão decantado Houaiss também não saiu grande coisa. Sendo assim, proponho ➔ quirguiz LINGUÍSTICA língua túrquica do ramo kipchak, falada sobretudo no Quirguistão e também por comunidades no Oeste da China (Xinjiang), Afeganistão, Tajiquistão e Usbequistão; apresenta forte proximidade estrutural com o cazaque e, desde o período soviético, escreve-se predominantemente com alfabeto cirílico, embora existam também sistemas baseados no alfabeto árabe (na China) e tentativas de latinização; é língua oficial do Quirguistão.

[Texto 22 588]

Definição e etimologia: «viburno»

Alimento no Paleolítico


      «Ese fruto es el de la Viburnum opulus, que tiene varios nombres comunes: rosa de Guelder, bola de nieve, mundillo... “La rosa de Guelder, su fruto, es astringente, antioxidante y tiene un montón de propiedades medicinales que debían hacerla interesante para estas comunidades, pero es tóxica; cuando te las comes crudas, te pones bastante malo, sabe fatal, yo las he probado, y el olor también es horrible”, recuerda la investigadora [da Universidade de York, Reino Unido]. González las cocinó de muchas maneras, durante distintos tiempos y a varias temperaturas. “Luego las mezclé con dos tipos de pescado, barbos y carpas, y ahí cambia todo. Su sabor se vuelve dulce. El pescado le da otro registro al sabor”, comenta. En muchas zonas de Polonia, Ucrania o Rusia aún se consume esta especie de gelatina fermentada» («No solo de carne vivía el hombre paleolítico», Miguel Ángel Criado, El País, 8.03.2026, p. 44).

      Dada a importância que teve, e visto que a etimologia é largamente melhorável, proponho ➔ viburno BOTÂNICA (Viburnum opulus) arbusto caducifólio da família das Adoxáceas, originário da Europa e da Ásia temperada e cultivado como ornamental; atinge geralmente 2-4 m de altura, tem folhas opostas palmatilobadas e inflorescências em corimbo com pequenas flores férteis centrais rodeadas por flores exteriores maiores e vistosas; produz pequenas drupas globosas, vermelhas e translúcidas, que amadurecem no fim do Verão e persistem frequentemente no arbusto durante o Outono; conhecido também por bola-de-neve, viburno-bola-de-neve, noveleiro e rosa-de-gueldres.

      Quanto à etimologia, vem do latim viburnum, nome de um arbusto flexível usado para vimes, aplicado pelos autores clássicos sobretudo ao lantaneiro (Viburnum lantana) e adoptado na botânica moderna como nome do género Viburnum.

[Texto 22 587]

Léxico: «chumbador»

Levem isto na bagagem


      «O túnel é construído pela técnica NATM (novo método austríaco de tunelamento, na tradução), em que a escavação é feita de forma sequencial —o maciço rochoso é o suporte principal da obra, com reforço de concreto projetado, cambotas metálicas e chumbadores» («Túnel do metrô sob a Paulista entra em fase crítica com corte de fundações», Fábio Pescarini, Folha de S. Paulo, 8.03.2026, p. A32). 

      Convém que, quando chegarem ao Brasil, os nossos engenheiros saibam o que é ➔ chumbador ENGENHARIA CIVIL barra ou haste metálica introduzida em perfuração feita no maciço rochoso ou no betão e fixada por chumbagem com argamassa, cimento ou resina, utilizada para reforçar e estabilizar o terreno ou a rocha envolvente, funcionando como elemento de ancoragem que consolida o maciço ou prende elementos estruturais, usado sobretudo em obras subterrâneas, escavações e taludes, frequentemente em conjunto com betão projectado, cambotas metálicas ou outros sistemas de sustentação.

[Texto 22 586]

Léxico: «cinessérie»

Isto não pára


      «Num departamento que remete à cinessérie Star Wars, os EUA colocaram em ação armas a laser» («Guerra expõe situações e armamentos inéditos», Igor Gielow, Folha de S. Paulo, 8.03.2026, p. A12).

[Texto 22 585]

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