Léxico: «hemianopia/hemianopsia»

Nunca como agora

      Pascal de vez em quando pensava que um precipício se lhe abria ali mesmo ao lado da sua mão esquerda, e então puxava uma peça de mobiliário para esse lado. Os contemporâneos brincavam: é l’abîme de Pascal. Tratava-se de uma hemianopia passageira do lado esquerdo. Se consultarmos o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, vemos que só regista a variante hemianopsia. Ora, nunca foi tão fácil enriquecer, corrigir e melhorar os dicionários como no presente.
[Texto 3270]

Tradução: «watered silk»

A terceira língua

      O cúmulo da abdicação, no que respeita à língua e à tradução, é traduzir uma palavra ou uma expressão — watered silk, por hipótese —, não por uma palavra ou expressão portuguesa — ainda no mesmo exemplo, «seda ondeada» —, mas por uma expressão ou palavra de uma terceira língua: «seda moirée». Mas já alguém dirá que não é bem, bem o mesmo, e por isso...
      «Deus concedeu às mulheres de Londres o privilégio duns lindíssimos cabelos, fartos, todos feitos de delicados fios de fina seda ondeada, que, soltos, se adamascam de mordentes reflexos» (Londres Maravilhosa e Outras Páginas Dispersas, Manuel Teixeira-Gomes. Lisboa: Portugália Editora, 1960, p. 21).
[Texto 3269]

«Quemose, quemótico...»

E muitos outros

      Assim de repente, vejo que hoppy, waterbrash, chemotic, epiphora, laryngospasm, neurogenic, scotomatous, hypnagogic, diencephalon não estão no Dicionário Inglês-Português da Porto Editora.
      E, por exemplo, no Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora não vejo «mesomórfico», «neurogénico», «escotomatoso»... E também não via «quemose» e «quemótico» — que, todavia, encontro na magnífica Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira —, mas sugeri hoje de manhã a sua inclusão e já estão dicionarizados.
[Texto 3268]

Tradução: «liverish»

Está doente

      A pobre criatura sofria de um «liverish feeling», ou seja, ou seja... Ahn, bem... O tradutor diz que é de um «sentimento hepático». Há-de ser apenas, digo eu, porque para o Dicionário Inglês-Português da Porto Editora liverish é coloquial e se diz do «doente do fígado; achacado a problemas do fígado». («Achacado a» já vi, é verdade, mas tenho sérias dúvidas que seja correcto.) Não será antes «sentimento irritável» ou «sentimento bilioso»?
[Texto 3267]

Sobre «legista»

Metade de certo

      «Da mesma forma, foram lançadas dúvidas sobre o relatório médico-legal inicial assinado pelos três legistas, incluindo Thomas Noguchi. O legista das estrelas (que autopsiou entre outros os cadáveres de Marilyn Monroe, Robert Kennedy, Janis Joplin e John Belushi) e os seus colegas terão sido negligentes na autópsia?» («Natalie Wood. Um “caso arquivado” em águas agitadas», Sandrine Cabut, Público, 2.09.2013, p. 28).
      Legista, para nós, é somente o especialista em leis; jurisconsulto; jurisperito. O tradutor devia ter escrito médico-legista.
[Texto 3266]

«Tratar-se de»

Nem daqui a trezentos anos

      «As lesões têm entre 1,25 a 5 centímetros de diâmetro. São retiradas amostras de algumas delas para observação ao microscópio, que revela tratarem-se de “hemorragias subcutâneas recentes”, compatíveis, segundo o relatório, com equimoses recentes e superficiais» («Natalie Wood. Um “caso arquivado” em águas agitadas», Sandrine Cabut, Público, 2.09.2013, p. 28).
      Não, nem pensar: «entre 1,25 e 5 centímetros». Perturbado, o tradutor esqueceu-se que a construção tratar-se de é impessoal, pelo que apenas se conjuga na terceira pessoa do singular. Digam-lhe, ele talvez agradeça.
[Texto 3265]

Sobre «revelim»

Nebulosa

      «A fortaleza militar de Almeida, rodeada por um fosso, foi construída nos séculos XVII e XVIII. Tem forma hexagonal e é constituída por seis baluartes (São Francisco, São Pedro, Santo António, ou de Santa Bárbara e de São João de Deus) e igual número de revelins (da Cruz, dos Amores ou Hospital de Sangue)» («Câmara de Almeida candidata antiga praça-forte a Património Mundial», Público, 2.09.2013, p. 17).
      Constituída por seis baluartes — e depois nomeiam quatro... Mas isso agora não interessa. Revelim (ou rebelim, que os dicionários já esqueceram) é, diz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, a «construção externa de duas faces, que formam um ângulo saliente, para cobertura ou defesa de uma obra de arte». No mínimo equívoca, esta definição.
[Texto 3264]

«Cacatua/catatua»

Aos pares

      «Os ovos apreendidos [no Aeroporto das Portela] agora em Maio não são de arara-jacinta (Anodorhynchus hyacinthinus), mas sim de outra espécie de Psittaciformes, a ordem de aves que inclui papagaios, araras, periquitos, cacatuas e afins» («Ovos de papagaio são o negócio de ouro dos traficantes de animais», Ricardo Garcia, Público, 2.09.2013, p. 12).
      Pode dizer-se de ambas as formas: cacatua ou catatua. Esta provém daquela, com assimilação. Mas é claro que se escreve «Psitaciformes». Já que não usam — como deviam — itálico, que escrevam em português.
[Texto 3263]

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