Léxico: «herodiano»

Também

      Então, se se escreve «herodiano», porque não escrevemos «cristiano»? Não, não, a pergunta que eu queria fazer era outra. Esta: os dicionários não deviam todos dizer também que «herodiano» é o partidário de Herodes Antipas, e não apenas, como faz o Dicionário da Língua Portuguesa da Porto Editora, que é o relativo a este tetrarca da Galileia ou ao seu governo?

[Texto 3230]

Léxico: «periurbano»

Para nada

      Jornalista Rita Roque, no noticiário das 2 da tarde na Antena 1: «Mas está fora de questão o avanço das chamas para a zona periurbana da cidade, ou seja, às portas da cidade da Covilhã?» Muito bem, muito bem — mas um pouco para nada, pois teve de explicar ao interlocutor do que se tratava. Periurbano: relativo à zona vizinha de uma cidade; situado nessa zona.
[Texto 3229]

«Curados pelos editores»!

Esta nunca a tinha visto

      «Não é dessa velha-nova discussão que se ocupa Lolita — The Story of a Cover Girl: Vladimir Nabokov’s Novel in Art and Design, o livro de arte e ensaio que acaba de sair nos EUA e em que 80 ilustradores e designers gráficos, curados pelos editores John Bertram e Yuri Leving, imaginam a capa do romance como ela devia ter sido» («A Lolita de Nabokov como ela devia ter sido», Inês Nadais, «Ípsilon»/Público, 23.08.2013, p. 3).
      É mais ou menos o que lhes passa pela cabeça que escrevem. Sim, alguém precisa de ser curado, e é com a máxima urgência.
[Texto 3228]

Ortografia: «maoista»

Desconversar é fácil

      «Bo Xilai, um dos “príncipes vermelhos” do PCC — como são conhecidos os filhos da primeira geração de dirigentes maoísta —, é acusado de corrupção, abuso de poder e de receber subornos. [...] Bo Xilai, de 64 anos, tornou-se muito popular por causa das suas campanhas contra o crime organizado, em defesa dos pobres e recriando o regresso a um culto maoísta que, apesar dos estragos, torturas e mortes dos anos da Revolução Cultural, tem ganhado força nos últimos anos» («Bo Xilai desafia o tribunal, no que se aposta ser um julgamento encenado», Clara Barata, Público, 23.08.2013, p. 25).
      Até o livro de estilo do Público recorda a regra: «Não são acentuadas quando o i e u são precedidos de ditongo: saia, baiuca, maoismo, tauismo.» Eu bem me lembro de já aqui ter tratado deste caso — também no Público. Na altura, uma leitora, que tanto podia ser a jornalista do Público autora do texto como não, respondeu: «Eu não pronuncio “ao” como ditongo, neste vocábulo (aliás, os casos em que a sequência “ao” é considerada ditongo são excepcionais, cf. Base VII, 1, AO 90). Logo, para marcar o hiato, recorro ao acento agudo.» Logo, nem sequer devia invocar o Acordo Ortográfico de 1990.

[Texto 3227]

«Altruísta/generoso»

Dar a outra face

      «E, não obstante o reduzido mérito científico do trabalho [tese de licenciatura de Álvaro Cunhal], o seu autor, por decisão, entre outros, do último chefe de Governo do anterior regime, obtém, como classificação global da licenciatura, a muito generosa nota de 16 valores!» («Obrigado, dr. Cunhal!», Gonçalo Portocarrero de Almada, Público, 23.08.2013, p. 49).
      Vejamos: o P.ᵉ Portocarrero de Almada afirma que a tese, que conhece porque leu (como eu li), tem «reduzido mérito científico», mas refere explicitamente a «classificação global da licenciatura», quando decerto não conhece (como eu não conheço) todo o decurso, nos seus vários incidentes, da licenciatura de Cunhal. Logo, jamais poderia concluir, como fez, que a nota, que era a classificação global da licenciatura, foi «muito generosa». Se o raciocínio fosse escorreito, estaria em causa a consabida definição de generosidade: dar a outrem mais do que ele precisa ou espera. No caso, Cunhal não precisava da nota, porque estava preso, e não a esperava, dado o «reduzido mérito científico do trabalho». E será que alguma vez um professor ou um júri foi, em semelhantes circunstâncias, altruísta, isto é, ajudou outrem, no caso um aluno, com custo para si mesmo?
[Texto 3226]

«Quando muito»

No máximo

      «Sendo o aborto um mal, para Cunhal e, segundo ele, para “todos os escritores” que sobre este tema se pronunciaram, não faz portanto sentido defender um pretenso direito ao aborto, porque não há nenhum direito ao mal mas, quanto muito, algumas causas de exclusão da culpa por quem incorre nessa prática, em si mesma condenável» («Obrigado, dr. Cunhal!», Gonçalo Portocarrero de Almada, Público, 23.08.2013, p. 49).
      Vamos ver se me agradece também a mim: Sr. P.ᵉ Portocarrero de Almada, a expressão quantitativa não é «quanto muito», mas «quando muito», ou seja, «no máximo».
[Texto 3225]

Falta de ouvido

Em voz alta

      «Estou perto de Florença a acampar com uns americanos. Alugaram um Pão de Forma (aquelas carrinhas Volkswagen dos anos 60) na Alemanha e estão a atravessar a Europa» (À Espera de Moby Dick, Nuno Amado. Lisboa: Oficina do Livro, 2012, p. 83).
      No Jornal da Tarde de ontem, a jornalista Teresa Nicolau fez uma reportagem sobre o fim da construção destas carrinhas, e rematou assim: «Desde 1950 que a carrinha Pão de Forma faz parte das estradas do mundo. A marca alemã promete ainda produzir uma série final de 600 veículos. Pode ser que algum chegue a Portugal e transforme-se em mais uma peça desta colecção.»
[Texto 3224]

Léxico: «trambique»

Um brasileirismo e o PSD

      «Não respondo por aquilo que diz o Passos Coelho. Eu pago por aquilo que eles dizem, a minha reforma já levou três trambiques... Não estou com eles, estou num projecto» (Francisco Moita Flores, entrevistado por Rita Brandão Guerra e José António Cerejo, Público, 23.08.2013, p. 7).
      Ora mais um reformado precoce, quero dizer, mais um brasileirismo coloquial: trambique é vigarice, negócio fraudulento. Os jornalistas tiraram-me as palavras da boca: «Então podia ter recusado o convite do PSD e concorrido como independente.» Não queriam mais nada, santinhos: «O PSD tem a grandeza de aceitar que eu pense de maneira diferente.»
[Texto 3223]

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